Liderança para o bem – o divergente positivo


 

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Fazer a coisa certa, contra tudo e contra todos. A atitude que parece quase impossível para muitos, já foi trilhada por indivíduos que acreditam em fazer a diferença por um mundo mais sustentável.

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Para a escritora e ativista pela sustentabilidade, a britânica Sara Parkin, estas pessoas são divergentes positivos. A denominação parece complicada, mas a explicação é fácil: líderes que enfrentam todas as adversidades e opiniões contrárias para fazer o bem. Nelson Mandela, Daniel Barenboim, John Bird, Wangari Maathai e Muhammad Yunus, além de organizações como Zopa e Sandbag são apenas alguns dos exemplos citados por Sara no livro O Divergente Positivo, Liderança em Sustentabilidade em um Mundo Perverso. A obra, que será lançada no Brasil em março*, é uma co-edição do Instituto Jatobás e da Editora Peirópolis, com apoio do Planeta Sustentável.

 

Sara Parkin tem uma longa e destacada trajetória na luta pela sustentabilidade. Já nas décadas de 70 e 80, fez parte do Partido Verde no Reino Unido e da Coordenação Verde Europeia. Trabalhou junto com organizações como Amigos da Terra, Population Matters e Community Generation Fund. Fundou e atualmente é diretora do Forum for the Future, uma das entidades líderes em desenvolvimento sustentável naquele país. Em 2011 foi homenageada com a Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados à sustentabilidade e educação.

 

Numa entrevista exclusiva ao Parceiros do Planeta, pouco antes de vir ao Brasil, por telefone a ativista revelou quais são os principais erros cometidos pelos líderes atuais, sua descrença com o modelo econômico baseado no estímulo ao consumo desenfreado e ainda, afirma que fazer o certo pode dar prazer às pessoas.

 

O que é o divergente positivo?
É uma pessoa que faz a coisa certa, nesse caso pela sustentabilidade, mesmo quando organizações estão erradas, processos estão errados e pessoas não cooperam. Graças à descobertas da ciência social, conseguimos observar que seja numa favela no Brasil ou numa área de inundação em algum outro lugar do mundo, há pessoas que fazem a coisa certa. Elas conseguem resgatar crianças de áreas difíceis, alimentá-las. E ao redor destas pessoas, outras acham impossível fazer o mesmo. Então há aqueles que fazem a coisa certa mesmo nas mais complicadas situações.

 

É difícil ser um divergente positivo?
Pode ser, mas muitos descobrem que quando fazemos a coisa certa, além de nos sentirmos bem, o bom senso fala mais alto. E isso acaba atraindo outros indivíduos para aquela ação. Também é uma maneira de resolvermos problemas, que não seriam solucionados de outras formas.

 

Precisamos de líderes que pratiquem a divergência positiva nas corporações, nos governos ou em todo lugar?
Acredito que possa ser feito por qualquer pessoa, em qualquer lugar. Precisamos de líderes educados para a sustentabilidade. Qualquer um pode se desenvolver para se tornar um líder educado para a sustentabilidade. Definitivamente precisamos de governantes treinados para administrar preocupados com a questão da sustentabilidade e, infelizmente, hoje a maioria não está preparada para isso.

 

Há mais de 40 anos a senhora é uma ativista pela sustentabilidade. Ao longo deste tempo, tem notado uma mudança no comportamento de nossos líderes?
O que tenho notado é uma persistência em treinamentos para a liderança, os quais aumentaram muito. Tanto no Brasil como aqui no Reino Unido, cresceram muito os cursos em escolas de liderança empresarial, administração. O problema é que estas instituições não estão ensinando nada relacionado com sustentabilidade. Então há mais treinamentos de liderança e administração, mas não temos líderes ou gestores melhores. Se pensarmos na crise global dos bancos, o que os líderes estavam pensando ao permitir que aquilo acontecesse? Se pensarmos em mudanças climáticas, o que os líderes governamentais ou de outros setores estão pensando quando não fazem nada? Então há uma liderança falha. E será a boa liderança que fará toda a diferença para termos uma situação melhor ou pior nas próximas décadas. Todavia, não existe uma liderança de qualidade que tome decisões e estimule as ações que precisam ser tomadas não somente para mitigar os problemas ambientais, mas diminuir a desigualdade social que está avançando em todo mundo.

 

Qual o problema com os líderes atuais?
Eles não têm habilidade para lidar com problemas complexos e interligados. São questões difíceis de resolver por serem sistêmicas e terem muitas conexões entre o que está acontecendo. Tomemos como exemplo o sistema financeiro, que é extremamente dependente do uso de recursos naturais, mas não vemos a ligação entre eles. Os líderes de hoje não são educados para trabalhar com esses problemas, não foram ensinados para isso.

 

Falta a estes líderes uma visão holística da situação?
Acho que talvez tenham uma visão holística, mas não possuem a habilidade para fazer uma análise holística e planejar uma solução holística para os problemas.

 

Existem habilidades específicas do líder para a sustentabilidade?
O que digo no livro e ensino no curso do Forum for the Future é que não há um só modelo. Cada um de nós é único na maneia de exercer a liderança. Precisamos construir nossa personalidade e nos conhecer profundamente. Temos ainda que construir nosso conhecimento e adquirir experiência para aprender a usar ferramentas e processos para trazer outras pessoas conosco para ajudar a resolver os problemas. É uma mistura complexa de fatores. Se tentarmos copiar o estilo de liderança do outro, não estaremos sendo autênticos com nós mesmos.

 

Quão urgente é a necessidade de rumarmos para uma economia de baixo carbono?
Muito urgente. Quanto mais demorarmos a deixá-la, mais difícil tudo ficará. Estou sentada neste minuto em Londres, onde temos uma situação caótica de inundações. Pela primeira vez, as pessoas começam realmente a discutir que estas tragédias são manifestações das mudanças climáticas. Não é simplesmente um acidente do clima. Está se tornando um padrão. Que outras provas precisamos? Temos vastas áreas de inundação aqui e secas e ondas de calor na Austrália. Há tantos eventos climáticos extremos que perguntamos aos líderes o que mais eles esperam ver para tomar alguma decisão… Trabalhei muito próxima à cientistas e acredito neles. Tenho certeza que o quanto mais demorarmos em abandonar a economia baseada nas altas emissões de carbono, mais difícil e sofrido será trilhar um novo caminho. Então é urgente!

 

O Divergente Positivo fala na mensuração da felicidade para avaliar o desenvolvimento das nações. A senhora acredita que o produto interno bruto – PIB, não é mais um método adequado?
Não, não é. O PIB mede mais pessoas consumindo mais coisas. E se vamos mudar para um mundo sustentável, será menos pessoas consumindo menos bens porque é o consumo que causa problemas e danos ao meio ambiente. O que digo é se construirmos capital humano e social então estaremos construindo capital natural. É possível viver de maneira mais satisfatória. É uma ideia prazerosa pensar em mudarmos para esse estilo de vida. Podemos parar de poluir e contaminar a atmosfera e estaremos construindo capital social, humano e natural.

 

Líderes empresariais também têm um papel importante para a sustentabilidade?
Acredito que sim. Mas acho que estão sendo muito fracos. Sou muito crítica com o setor corporativo porque ele poderia fazer mais. Muito mais. Poderia se posicionar melhor. Percebo um pequeno movimento na direção da sustentabilidade, entretanto, as empresas deveriam mudar muito mais rapidamente.

 

Com exceção dos líderes como Barack Obama e Nelson Mandela, os exemplos que o seu livro revela de divergentes positivos são de indivíduos pouco conhecidos ou organizações do terceiro setor. Não há pessoas fazendo a coisa certa no mundo corporativo?
Escolhi alguns exemplos de divergentes positivos justamente porque muita gente, pelo menos aqui no Reino Unido, nunca ouviu falar deles. São pessoas que demonstraram, através de uma maneira particular, ser possível fazer a coisa certa em circunstâncias extremamente difíceis. Não citei líderes empresariais no livro porque nos meus 40 anos de trabalho identifiquei companhias que eram exemplo de liderança, mas depois de algum tempo acabaram perdendo a reputação ao longo do caminho. Vi a ascensão e queda de empresas que pareciam estar rumando para a sustentabilidade. Por isso não quis correr o risco de dar esse tipo de exemplo no livro.

 

É essencial encontramos soluções que não dependam de decisões políticas e dinheiro público?
É interessante perceber como muitos acabam encontrando soluções por contra própria em pequenas localidades. Não sei no Brasil, mas em vários lugares as pessoas desistiram dos políticos. Elas acreditam que eles estão encurralados e amedrontados. Não têm coragem suficiente para tomar certo tipo de decisões. Então percebo que as pessoas estão liderando o caminho e fazendo o certo sozinhas. De onde venho, no norte da Escócia, a população trabalhou junto colaborativamente para construir cata-ventos (geradores de energia eólica). E há uma tremenda inovação financeira na região para produzir energia compartilhada. São pessoas dizendo que se o governo não adota e estimula políticas corretas, elas o fazem por si mesmas.

 

São então divergentes positivos atuando localmente?
Sim, e vamos ver cada vez mais casos iguais a este. Há pessoas, por exemplo, plantando e produzindo alimentos orgânicos e saudáveis. Todas estas tendências estão crescendo, mesmo que as políticas públicas sigam uma direção oposta.

 

*em breve o Planeta Sustentável divulgará a data e o local do lançamento de O Divergente Positivo, Liderança em Sustentabilidade em um Mundo Perverso

 

Fonte: Planeta Sustentável