Alimentar 10 bilhões de pessoas até 2050 dentro dos limites planetários pode ser alcançável

Foto: Agência Brasil

Uma mudança global em direção a dietas saudáveis e mais baseadas em vegetais, reduzindo pela metade a perda e o desperdício de alimentos, e melhorando as práticas agrícolas e tecnologias são necessárias para alimentar 10 bilhões de pessoas de forma sustentável até 2050, segundo um novo estudo.

A adoção dessas opções reduz o risco de ultrapassar os limites ambientais globaisrelacionados à mudança climática, o uso de terras agrícolas, a extração de recursos de água doce e a poluição dos ecossistemas por meio da aplicação excessiva de fertilizantes, de acordo com os pesquisadores.

O estudo, publicado na revista Nature, é o primeiro a quantificar como a produção e o consumo de alimentos afetam as fronteiras planetárias que descrevem um espaço operacional seguro para a humanidade, além do qual os sistemas vitais da Terra podem se tornar instáveis.

Opções para manter o sistema alimentar dentro dos limites

Sprimgmann argumenta que, sem uma ação concertada, descobrimos que os impactos ambientais do sistema alimentar poderiam aumentar de 50 a 90% até 2050 como resultado do crescimento populacional e do aumento das dietas ricas em gorduras, açúcares e carne.

Nesse caso, todas as fronteiras planetárias relacionadas à produção de alimentos seriam superadas, algumas delas por mais de duas vezes. O estudo, financiado pela EAT como parte da Comissão EAT-Lancet Commission for FoodPlanet and Health and by Wellcome’s “Our Planet, Our Health”, em parceria com Livestock Environment and People, combinou contas ambientais detalhadas com um modelo do sistema global de alimentos. rastreia a produção e o consumo de alimentos em todo o mundo.

Com esse modelo, os pesquisadores analisaram várias opções que poderiam manter o sistema alimentar dentro dos limites ambientais.

Eles encontraram:

  • mudança climática não pode ser suficientemente mitigada sem mudanças na dieta em direção a dietas mais baseadas em vegetais. Adotar mais dietas “flexíveis”, baseadas em plantas em todo o mundo, poderia reduzir as emissões de gases de efeito estufa em mais da metade e também reduzir outros impactos ambientais, como a aplicação de fertilizantes e o uso de terras cultiváveis e água doce, de um décimo a um quarto.
  • Além das mudanças na dieta, é necessário melhorar as práticas e tecnologias de manejo na agricultura para limitar as pressões sobre terras agrícolas, extração de água doce e uso de fertilizantes. Aumentar os rendimentos agrícolas das terras agrícolas existentes, equilibrar a aplicação e a reciclagem de fertilizantes e melhorar a gestão da água poderiam, juntamente com outras medidas, reduzir esses impactos em cerca de metade.
  • Finalmente, reduzir pela metade a perda e o desperdício de alimentos é necessário para manter o sistema alimentar dentro dos limites ambientais. A redução da perda de alimentos e do desperdício poderia, se alcançada globalmente, reduzir os impactos ambientais em até um sexto (16%).

Investimentos adequados e combater a perda de alimentos

“Muitas das soluções analisamos estão sendo implementadas em algumas partes do mundo, mas elas precisam de forte coordenação global e rápido aumento de escala para fazer seus efeitos sentidos“, diz Springmann.

“O melhoramento das tecnologias de cultivo e práticas de gestão exigirá o aumento do investimento em infra-estrutura pública, os esquemas de incentivos certos para os agricultores, incluindo mecanismos de apoio para adotar melhores práticas disponíveis, e melhor regulamentação, por exemplo, de uso de fertilizantes e qualidade da água”, diz Line Gordon, diretor executivo do Stockholm Resilience Center e autor do relatório.

Para Fabrice de Clerck, diretor da ciência no EAT, combater a perda e o desperdício de alimentos exigirá medidas em toda a cadeia alimentar, desde o armazenamento e transporte, passando pela embalagem e rotulagem de alimentos, até mudanças na legislação e comportamento comercial que promovam cadeias de fornecimento sem desperdício.

“Quando se trata de dietas, abordagens abrangentes de políticas e negócios são essenciais para possibilitar mudanças na dieta em direção a dietas saudáveis e mais baseadas em plantas, além de atraentes para um grande número de pessoas. Aspectos importantes incluem programas escolares e do local de trabalho, incentivos econômicos e rotulagem, e o alinhamento de diretrizes alimentares nacionais com as evidências científicas atuais sobre alimentação saudável e os impactos ambientais de nossa dieta”, acrescenta Springmann.

Referência:

Springmann, M., Clark, M., Maison-D’Croz, D., Wiebe, K. et.al. 2018. Options for keeping the food system within environmental limits, Nature DOI: 10.1038/s41586-018-0594-0

IHU

Desmatamento cresce 36% no período eleitoral

Foto: EBC

Dados do Inpe mostram que 2.414 km2 de floresta tombaram na Amazônia entre junho e setembro; secura, câmbio, “efeito Bolsonaro” e estrada no AM podem estar entre as causas.

A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 16-10-2018.

A taxa de desmatamento subiu 36% na Amazônia entre junho e setembro, período da pré-campanha e campanha eleitoral. Foram 2.414 km2 de floresta derrubada nesses quatro meses, comparados a 1.769 km2 no mesmo intervalo do ano anterior.

Os dados são do Deter B, o sistema do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que monitora a Amazônia em tempo quase real por satélites. Embora não sirva para fazer cálculo de área desmatada, o Deter B tem uma correspondência alta com o Prodes, o sistema usado para computar a taxa oficial anual de desmatamento.

Isso significa que a tendência observada pelo método mais rápido de detecção, caso se confirme no restante do ano, provavelmente também será refletida no número oficial.

Para obter os dados no sistema, o OC considerou três categorias de dano à floresta que também são analisadas pelo Prodesdesmatamento com solo exposto, desmatamento com vegetação e mineração. O Deter B monitora também outras cinco categorias, entre elas degradação por fogo e extração de madeira. Nem todas essas, porém, se convertem no final em áreas de corte raso identificadas pelo Prodes.

desmatamento na Amazônia é medido de agosto de um ano a julho do ano seguinte. A série de dados de 2018-2019 começou com forte alta na taxa: 79% de aumento nos meses de agosto e setembro em relação ao mesmo bimestre do ano passado. Quando se somam os meses de junho e julho a elevação cai para 36%.

A alta no ritmo das motosserras não é novidade em períodos eleitorais. Segundo Paulo Barreto, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), em ano de eleição os governos locais tacitamente diminuem a fiscalização. Na Amazônia, neste ano, as polícias têm reduzido seu apoio às operações do Ibama.

“A questão é se isso será um pico causado pela conjuntura da campanha, que depois suaviza, ou se é uma tendência”, disse André Guimarães, diretor executivo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). “Um risco é [o desmatamento] mudar de patamar como mudou nos últimos anos. Ele pode sair de controle se não houver uma ação coercitiva forte, que o contexto político não favorece.”

Em 2018, o componente político é explosivo não apenas na esfera local, mas também na nacional. O candidato líder nas pesquisas de opinião, Jair Bolsonaro (PSL), tem feito campanha pela Amazônia prometendo extinguir o Ministério do Meio Ambiente, que seria fundido com o de Agricultura e entregue aos ruralistas, e “acabar com a indústria das multas do Ibama”.

Segundo um agente público ouvido pelo OC, há relatos de que em algumas regiões esse discurso esteja sendo levado a sério e grileiros e produtores rurais estejam desmatando confiando numa anistia futura.

Os dois candidatos que disputam o segundo turno, Bolsonaro e Fernando Haddad(PT), também prometeram pavimentar a polêmica BR-319, rodovia que liga Manaus aPorto Velho. O asfaltamento da estrada é uma reivindicação antiga dos amazonenses, mas até agora não saiu porque implicaria em muito desmatamento numa das últimas regiões intocadas da floresta. Dois dos três municípios mais desmatados no período (Porto Velho, 2o lugar e Lábrea, no Amazonas, 3o lugar) estão no eixo da rodovia, uma das novas frentes de ocupação da Amazônia.

Mas há outros fatores que podem explicar a alta. Um deles é o clima: no ano passado, o período chuvoso em grandes porções da Amazônia se estendeu até o meio do ano, normalmente época de seca. Neste ano, a estiagem está forte e favorece as derrubadas.

Outro possível motivo é o câmbio. Com o dólar no patamar dos R$ 4 durante quase todo o período eleitoral, as exportações foram favorecidas e os produtores, em especial em Mato Grosso e Rondônia, ficaram com mais dinheiro na mão para abrir novas áreas.

IHU

Pão de Açúcar comemora 106 anos: saiba o que a atração tem de sustentável

Por meio de práticas sustentáveis, o Bondinho Pão de Açúcar transforma seus resíduos sólidos em matéria prima e adubo
Foto: @rafaelduartephotography/Facebook/Bondinho Pão de Açúcar

Bondinho Pão de Açúcar completa 106 anos este mês e é um dos pontos turísticos mais visitados de todo o mundo. Mais de 47 milhões de pessoas já passaram pelo cartão postal, que foi o primeiro teleférico do Brasil e terceiro do Mundo. Em mês de festa, o ponto turístico acaba de renovar o Selo Verde da ABNT e se mantém como única atração turística da América Latina que possui o Rótulo Ecológico.

A certificação é um importante mecanismo de implementação de políticas ambientais, uma garantia de que o serviço prestado pela empresa tem menor impacto ambiental. Para receber o Selo Verde, os serviços do ponto turístico foram avaliados por uma metodologia de certificação que vem sendo praticada ao redor do mundo.

Através de práticas sustentáveis, o Bondinho Pão de Açúcar transforma seus resíduos sólidos em matéria prima e adubo. Em 2017, foram destinados 60T de resíduos para a compostagem. O adubo produzido foi utilizado para enriquecimento da flora dos morros da Urca e do Pão de Açúcar.

Inaugurado em 27 de outubro de 1912, o bondinho inseriu o Brasil no roteiro das grandes atrações turísticas mundiais

O complexo turístico utiliza energia renovável, já os teleféricos são um transporte limpo, que funciona através de energia elétrica. No final do dia, quando os visitantes estão indo embora e os bondes descem mais pesados do que os que sobem, chegam a gerar energia.

“Estamos baseados em uma área de conservação e entendemos a importância de cuidar e devolver à natureza todo o bem que ela nos traz. Tocamos diversos projetos ambientais, como Educa Bondinho, programa de educação ambiental que recebe por ano mais de 10 mil alunos e professores todos os anos. Dar visibilidade a esse tema é papel de todos nós.” afirma Roberta Pena, engenheira ambiental do Bondinho.
História

Durante todo o mês de outubro, os visitantes podem conferir a exposição ‘Um Bondinho de Memórias’, no Morro da Urca, com fotografias que contam a história do teleférico e retratam as transformações pelas quais o Rio de Janeiro passou nesses 106 anos.

Inaugurado em 27 de outubro de 1912, o bondinho inseriu o Brasil no roteiro das grandes atrações turísticas mundiais e até hoje tem ares de visionário, dada a grandeza de sua construção. Hoje, a charmosa travessia já faz parte da paisagem da cidade. Albert Einstein, um dos visitantes ilustres do cartão-postal, descreveu o passeio como uma “viagem vertiginosa sobre floresta selvagem em cabo de aço. Em cima, um magnífico jogo de alternância de neblina e sol”.

Além de história, o complexo turístico representa a irreverência do carioca. De cenário de filme Hollywoodiano, como o 007, a palco para memoráveis viradas de ano e bailes de carnaval, o bondinho do Rio coleciona histórias divertidas e curiosas. Desde a década de 40, o Morro da Urca era um ponto de encontro e de muita música. Foi no tradicional palco do Morro da Urca que Cazuza fez seu primeiro show. Tim Maia também subiu de Bondinho para se apresentar. Com medo de altura, o síndico pediu – e recebeu – o cachê em moedas.

Comemorações
Como tradicional palco de grandes shows, a comemoração será a altura da trajetória do Bondinho e acontecerá em dois fins de semana, com atrações durante todo o dia e shows como Natiruts, Blitz e Casuarina.

A programação terá atrações para todos os gostos e estilos musicais. No sábado, 20 o samba da banda Casuarina dá início às comemorações, com show aberto ao público do Bondinho, a partir de 17h. A grande atração da noite de sábado, 20, é a banda Natiruts, que se apresenta no Morro da Urca cantando os maiores sucesso da carreira, com venda de ingressos à parte.

Já no domingo, 21, é a vez do grupo Batuque na Cozinha e a DJ Carol Legally animarem o fim de tarde do Morro da Urca, em apresentações abertas ao público do complexo turístico. O público poderá curtir também o batuque da escola de percussão de Ivo Meireles.

No sábado, 27, além do tradicional parabéns, a vista inconfundível do cartão-postal ficará ainda melhor com a apresentação do concerto Amores do Rio, com interpretações de músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes em Coro e Orquestra. Com regência de Jonas Hammar, o concerto contará com cem vozes e uma orquestra de 25 músicos.

A comemoração continua à noite com show da banda Blitz, que fez história no Morro da Urca. Evandro Mesquita e companhia agitam a noite de sábado, 27, no tradicional Anfiteatro do Morro da Urca. O show tem venda de ingressos à parte. Toda a programação do aniversário de 106 anos do Bondinho está disponível no site www.bondinho.com.br.

EcoD

‘Absurdo falar em desmatamento zero’, afirma líder ruralista

Foto: AFP

Cotado para Agricultura e Meio Ambiente em eventual governo Bolsonaro, o presidente da UDR, Luiz Antônio Nabhan Garcia, diz que produtores não aceitam acordo ambiental.

A reportagem é de Pablo Pereira e Giovana Girardi, publicada por O Estado de S. Paulo, 18-10-2018.

Brasil tem de ser soberano e não pode aceitar intervenções externas de “interesses escusos”. A opinião é de Luiz Antônio Nabhan Garcia, de 60 anos, presidente da União Democrática Ruralista (UDR), sobre eventuais resistências dos países signatários do Acordo de Paris a mudanças na legislação ambiental brasileira, como desmatamento – inclusive na Amazônia –, e à fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, em caso de uma vitória de Jair Bolsonaro (PSL).

Um dos principais articuladores políticos do candidato do PSL no setor rural, Nabhan Garcia é cotado para assumir a pasta em um eventual governo – ele nega. “O País tem o Código Florestal, debatido por quase 20 anos, aprovado no Congresso e que vale para o País todo, inclusive para a Amazônia”, afirmou o presidente da UDR. “Se um produtor rural qualquer comprar mil hectares de terra não vai poder desmatar porque eles falam de desmatamento zero? Isso é um absurdo.”

Código Florestal prevê que proprietários de terra no bioma têm de preservar 80% de florestas dentro de suas terras na chamada Reserva LegalNabhan Garcia disse ainda que “a base dos produtores rurais que está com Bolsonaro” não aceita intervenções do Acordo de Paris – esforço internacional assinado por 195 países em 2015 para conter o aquecimento do planeta. “Há interesses de outros países, de ONGs e interesses comerciais. O que o Acordo de Paris nos oferece? Nada.”

Segundo o dirigente, a UDR defende ainda que Bolsonaro, se eleito, tome medidas contra “cartéis e monopólios” que, segundo ele, lucram com as exportações de produtos agrícolas brasileiros nestes tempos de dólar valorizado. De acordo com Nabhan Garcia, que afirmou falar pela UDR, enquanto se fazem anúncios de safra recorde no País, “o produtor primário fica cada vez mais pobre”. “Estamos à mercê dos grandes frigoríficos e de poucas empresas de exportadores de grãos.”

Impacto. Para um alto executivo de setor exportador do agronegócio, qualquer atitude que acabe levando a uma redução da fiscalização ambiental ou à saída do Acordo de Paris vai ser um mau negócio para o próprio produtor. “É preciso convencer Bolsonaro de que o trabalho de fiscalização do Ibama, embargando o desmatamento ilegal, e o Acordo de Paris ajudam os produtores rurais, não o contrário. Só não sabemos quem vai explicar isso a ele”, disse, pedindo para não ser identificado.

O executivo lembrou que as metas com as quais o Brasil se comprometeu no Acordo de Paris se referem, basicamente, ao cumprimento da legislação hoje existente. Pelo Código Florestal, já se pressupõe que não pode haver desmatamento ilegal no País. Para ele, “cumprir o Acordo de Paris é cumprir a lei”. “O País se propôs a fazer o que já vinha fazendo.”

Sobre a junção do Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, analistas argumentaram que a formulação de políticas públicas que busquem a sinergia das duas áreas é algo positivo, mas a união total, não. A preocupação é que deixar o Ibamasob o guarda-chuva do Ministério da Agricultura seria colocar em uma mesma pasta quem fiscaliza e quem é fiscalizado.

‘Saia-justa’

Para o diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda e hoje diretor da Faap, as propostas do presidenciável do PSL podem promover uma alta do desmatamento e afetar o próprio agronegócio. “Isso vai nos colocar em uma saia-justa enorme no mundo. Enchem a boca, como se apenas nós exportássemos sojacarne. Mas temos muitos concorrentes. A União Europeia já não tem boa vontade nenhuma em nos fazer concessões. Imagine em um governo que confirme seus piores temores. Seremos marginalizados. Vão dizer que é carne e soja produzidas à base da destruição da Amazônia”, declarou o ex-ministro.

“É de interesse do produtor preservar. E a sustentabilidade é um fator diretamente ligado à competitividade. Hoje, os consumidores do mundo inteiro querem saber como a coisa foi produzida. Para sermos competitivos, é preciso ter essa preocupação”, afirmou o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Rodrigues também criticou a ideia de o País abandonar o Acordo de Paris. “O Brasil é muito grande, agricolamente falando, e do ponto de vista de contribuição ambiental que pode dar, para dizer que simplesmente não quer mais jogar esse jogo.”

Além de Nabhan Garcia, outros nomes já estariam sendo sondados para a pasta. A deputada Tereza Cristina (DEM-MS), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS) e até o atual ministro, Blairo Maggi, são cotados para o cargo. “Isso tudo é especulação”, disse Nabhan Garcia.

IHU

A Amazônia, o Sínodo Pan-Amazônico e o negacionismo absoluto de Bolsonaro

Foto: AFP PHOTO / JODY AMIET

Independentemente de quem será eleito como futuro presidente do Brasil no dia 28-10-2018, a defesa da pauta ambientalista no país “exigirá do campo democrático-popular e das lideranças uma extrema capacidade de rearticulação e a construção de novas bandeiras que permitam também para as cidades compreender a importância das questões ambientais”, alerta Moema Miranda, assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica – Repam, na entrevista a seguir concedida por telefone à IHU On-Line.

Ao comentar os primeiros resultados do primeiro turno das eleições deste ano, Moemamenciona que o elemento “extremamente novo” na história política do Brasil é o surgimento de uma “base popular votando pela direita”. No passado, lembra, “tivemos uma ditadura militar que foi implantada à força, mas a eleição e a escolha de candidatos de direita e de extrema direita, que se apresentam como tais, é uma coisa inédita do ponto de vista da história brasileira”. Essa mudança, avalia, “é motivada por um sentimento de traição pelas acusações de corrupção, e esse sentimento foi mobilizado por uma capacidade de expressão de um sentimento de revanche que se configurou na busca de um herói”. Entretanto, pondera, “existe uma mudança muito mais profunda do que as nossas análises conseguirão dar conta neste momento”.

Nesta entrevista, a assessora da Repam também reflete sobre a situação da Amazônia brasileira e explica as motivações do Sínodo Pan-Amazônico, que será realizado em outubro do ano que vem. Entre elas, diz, está a constatação de que a Amazônia é uma terra que está sendo disputada e, nesse contexto, “temos que nos dar conta de qual é a nossa proposta, qual é a nossa visão e a nossa perspectiva, de que lado e como caminhamos nessa disputa. (…) O Sínodo é parte dessa grande dinâmica e da tentativa da Igreja de reencontrar seu lugar ao lado dos que lutam pela vida”.

Moema pontua ainda que a evangelização das comunidades indígenas, tal como sugere o papa Francisco ao convocar o Sínodo Pan-Amazônico, “não é só um processo de ocupar a região e dizer aos indígenas o que eles devem fazer. A evangelização é uma proposta de encontro, é uma teologia nova, uma abordagem nova, é uma novidade, de fato, nova e inovadora de como nós juntos nos colocamos no caminho de defesa da vida. Isto é, não é uma evangelização que vem de um lado só. (…) A base de toda a proposta evangelizadora é a Teologia do Encontro, a Teologia do Diálogo; é uma proposta totalmente nova desse ponto de vista”.

Moema Miranda | Foto: Ricardo Machado – IHU

Moema Miranda é graduada em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e em Administração Pública pela UFMG. É mestra em Administração pela UFMG e doutora em Administração pela Universidade de São Paulo – USP. É professora emérita da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, onde se aposentou como professora titular depois de atuar como docente, pesquisadora e de ter ocupado cargos de direção.

Moema Miranda está na Unisinos campus São Leopoldo nesta semana participando da III Semana de Estudos Amazônicos – Semea, que está sendo realizada entre os dias 16 e 18-10-2018.

Por ocasião deste evento, no Campus Unisinos Porto Alegre há uma exposição dos mártires da Amazônia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Qual sua avaliação do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais?

Moema Miranda — Eu, como a maioria das pessoas que trabalha no campo ambiental, democrático e que luta por justiça social, como uma pessoa que participou ativamente dos processos de organização do Fórum Social Mundial, muito vinculado à Igreja que caminha na noção dessa luta por maior consciência, avalio que o resultado nos surpreende. Essa surpresa é reveladora. Temos dito que estamos em um tempo novo da Terra: o Antropoceno é um tempo muito inesperado em muitas coisas e também muito inesperado do ponto de vista da política, porque um conjunto de formas de fazer política, um conjunto de jeitos de se expressar, está naufragando e se acabou. Então, a conversa, o diálogo e a reflexão mais ampla hoje se limitam a discursos muito mais sintéticos e emocionais.

Quando olhamos o quadro das eleições pelo número de votos recebidos pelo que podemos chamar de “esquerda”, vemos que o PT se mantém na Câmara Federal com a maior bancada, que a votação no PSOL aumentou, porque o partido tem hoje mais deputados do que antes, e a votação no PDT também aumentou. Então, a esquerda, desse ponto de vista, está mais ou menos onde sempre esteve. O que houve de diferente foi uma imensa mudança do centro para a extrema direita, porque até então o centro ocupava um espaço maior na política brasileira. Portanto, a extrema direita e a extrema esquerda eram menos representativas. O que tivemos foi uma implosão do centro e uma ida para a extrema direita.

Outro elemento que é extremamente novo no caso da história do Brasil é uma base popular votando pela direita, porque tivemos uma ditadura militar no passado que foi implantada à força, mas a eleição e a escolha de candidatos de direita e de extrema direita, que se apresentam como tais, é uma coisa inédita do ponto de vista da história brasileira. Essa é uma mutação que é motivada por um sentimento de traição pelas acusações de corrupção — e quando somos traídos esse é um sentimento muito profundo — e esse sentimento foi mobilizado por uma capacidade de expressão de um sentimento de revanche que se configurou na busca de um herói, uma figura forte que diz: “Deixa que eu resolvo, deixa que eu faço sozinho; não preciso de ativismo e de sociedade organizada, cada um na sua trincheira e eu resolvo em nome de todos”. Existe, portanto, uma mudança muito mais profunda do que as nossas análises conseguirão dar conta neste momento.

IHU On-Line — Alguns têm avaliado que a agenda ambiental dos candidatos não é clara. Como os candidatos Haddad e Bolsonaro têm se pronunciado sobre a agenda ambiental, especialmente sobre a questão das terras indígenas e os licenciamentos ambientais?

Moema Miranda — Eles já começaram a se pronunciar. O candidato Jair Bolsonarodisse que irá terminar com o que ele chama de a “indústria das multas” e a “indústria da concessão da demarcação de terras”. A lógica desses pronunciamentos é a de que as terras indígenas são terras a serem comercializadas pelo capital, para que os indígenas façam o que quiserem com suas terras, abrindo caminho para a concessão de capital. Em relação a Fernando Haddad, precisamos exigir dele uma maior clareza em relação a essas temáticas, porque não foram temáticas que ganharam expressão na campanha dele e, portanto, cabe a todos nós um questionamento em relação a essa pauta.

IHU On-Line — Os últimos governos petistas foram bastante criticados pela insistência na construção de novas hidrelétricas, a exemplo de Belo Monte, e pela transposição do rio São Francisco. Como os dois candidatos têm se pronunciado sobre esse tipo de projeto? A agenda de ampliação das hidrelétricas deve continuar?

Moema Miranda — A lógica dos governos Lula e Dilma foi desenvolvimentista e baseada no grande pacto das commodities. O governo Lula aconteceu na égide do boom das commodities, do aumento estrondoso do preço do minério no mercado internacional. Nós, inclusive, no Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração muitas vezes nos pronunciamos em relação à importância de uma inflexão sobre o ritmo da mineração, mas o que vimos foi a construção de uma lógica, inclusive territorial, a serviço da mega e rápida exploração dos recursos minerais com vistas à exportação. Desse ponto de vista, qualquer defesa do campo ambientalista exigirá de nós, do campo democrático-popular e das lideranças, uma extrema capacidade de rearticulação e a construção de novas bandeiras que permitam também para as cidades compreender a importância das questões ambientais.

Nós, infelizmente, perdemos a capacidade de construir um movimento amplo nas cidades e isso é, mais do que nunca, urgente e necessário se quisermos salvar o planeta. Vale lembrar que no mesmo dia em que saiu o resultado das eleições no Brasil, grandes jornais da Europa, como o The Guardiannoticiaram as informações dos cientistas dando conta da crise e do avanço em relação aos pontos de mutação. Os cientistas estão dizendo que os resultados do IPCC estão abaixo da evidência dos riscos aos quais estamos submetidos. Por um lado, toda a comunidade científica renova o reforço da ideia de que estamos chegando à situação-limite na extração e, por outro lado, não conseguimos tematizar essa pauta na política em um país como o Brasil. Além disso, o tema do cuidado com a Amazônia não é um tema central na pauta de nenhum dos dois candidatos.

IHU On-Line — A proposta de ampliação de hidrelétricas deve continuar em qualquer um dos dois governos?

Moema Miranda — A questão toda será como se incrementará a economia. Creio que ambos pensam a incrementação da economia dessa forma, com uma intensificação do uso dos recursos que eles chamam de recursos naturais. É claro que são propostas diferentes, porque uma reconhece direitos enquanto a outra acha que direitos são empecilhos para o desenvolvimento.

IHU On-Line — O governo petista também foi criticado pelos ambientalistas pelo apoio à exploração de minérios. Na mesma direção, Bolsonaro tem insistido em aumentar a exploração de nióbio, considerando que o Brasil tem 90% das reservas. Como vê esse tipo de proposta?

Moema Miranda — Essa é uma situação que estamos vendo em todo o mundo. Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos logo após a COP de Paris. O primeiro acordo, com todas as limitações, tinha conseguido chegar a algum tipo de definição sobre limites para as ações que levam ao aquecimento global, indiscutivelmente. Mas cresce nos Estados Unidos a lógica negacionista de negar que é a ação humana, antrópica, de superexploração de recursos que leva ao aquecimento global. O padrão negacionista também está crescendo no Brasil quando escutamos Bolsonaro ou os filhos dele negarem que essas atividades implicam aquecimento global. Eles usam a lógica de que falar sobre aquecimento global é ser contra o progresso e contra o desenvolvimento. Isso é muito sério porque o negacionismo não permite pautar a discussão de que se explorarmos mais, nesse ritmo e sem cuidado, a Terra entrará em um estado ao qual não poderá retornar. O benefício que podemos ter com a exploração não é nem próximo dos custos que teremos com as questões climáticas e de desorganização ambiental a que essa superexploração irá levar.

Hoje, fazer uma discussão sobre o aquecimento da economia e fazer uma discussão sobre o aquecimento da exploração dos recursos minerais sem fazer, ao mesmo tempo, uma discussão sobre o aquecimento global, é uma lógica suicida. Essa é a grande questão. Economia e ecologia falam de “eco”, de “oikos”, da casa comum: uma fala sobre as normas de uso da casa e a outra sobre a lógica de como essa casa se organiza. Se elas não dialogarem, nós, como espécie humana, estaremos cavando um enorme buraco aos nossos pés.

Na Amazônia, todas as áreas de exploração de minérios estão no centro da questão do aquecimento global — no centro, não na periferia. Portanto, é dramático que não falemos sobre isso. O que temos visto, infelizmente, do ponto de vista da campanha de Boslonaro, é um negacionismo absoluto, é a negação de que essas evidências científicas tenham um valor de verdade.

IHU On-Line — Em que consistiria um projeto econômico que levasse em conta as questões ambientais? Como você vislumbra a possibilidade de conciliar crescimento econômico com a agenda ambiental?

Moema Miranda — Desse ponto de vista a Laudato Si’ tem sido o nosso caminho e a nossa resposta. O papa Francisco escreveu a Laudato Si’ às vésperas da COP 21 como uma tentativa de chamar à luz outros elementos para esse debate. O Papa fala de duas questões que são absolutamente importantes quando estamos falando de crescimento. A primeira é adicção, quando ele fala da sobriedade feliz como alternativa. A palavra sobriedade normalmente é usada em relação aos adictos a substâncias químicas que são usadas mesmo sabendo que causam males; e a sobriedade é uma busca de liberdade em relação ao excesso. Então, o crescimento tem que ser pensado para quem, como e onde, porque uma lógica de crescimento ilimitado em um planeta limitado funciona como a lógica do crescimento das células cancerosas, que crescem mesmo que o hospedeiro morra no final.

questão ambiental é uma questão que se coloca depois da vírgula: temos crescimento econômico e, se der, o conciliamos com a questão ambiental; mas não é assim. Toda a economia se faz a partir do planeta Terra, desse planeta que temos. Então, qual é a economia e o crescimento possíveis neste planeta? Se não levarmos isso em consideração, estaremos falando de algo que não existe. Agora, existem formas de viver bem neste planeta e isso é o que deve ser o centro da nossa busca. Quais são as formas de geração de renda, de bem viver e de qualidade de vida adaptáveis a isso? Essas formas são possíveis? Sim. É possível a agroecologia, o uso manejável de recursos, o uso sustentável da água e a produção de energia renovável e sustentável. As alternativas para um crescimento econômico com base no respeito às dimensões ecológicas existem em profusão, mas exigem uma mudança nos nossos padrões de consumo e nos padrões de desejo.

É claro que um acúmulo ilimitado de recursos é impossível, que todos tenham tanto dinheiro quanto o Bill Gates, é impossível; então esse crescimento econômico é incompatível. Mas uma dinâmica econômica com a administração de uma qualidade de vida com dignidade para todos é absolutamente compatível com o planeta. No entanto isso exige recolocar as questões ecológicas não como posteriores para discutirmos a questão principal que é a economia, como se só uma lógica de mercado pudesse determinar a melhor forma de viver. O papa Francisco diz “muito cuidado” porque a lógica do mercado não pode resolver os problemas que ela mesmo está criando. Para resolvê-la precisamos de política e de política de qualidade, de espaço democrático com debate em profundidade.

IHU On-Line — Que questões seriam importantes de serem discutidas nesta eleição sobre a pauta ambiental, especialmente em relação à Amazônia? O que seria uma proposta adequada de desenvolvimento para a região, na sua avaliação?

Moema Miranda — É sempre necessário fazermos uma reflexão sobre a palavra “desenvolvimento”. Quando se “desenvolve”, o que se “desenvolve”, o que fica de fora? Quando se está envolvido com alguma coisa, se está envolvido com a Terra, com o planeta, com os animais, existe uma lógica. Quando se “desenvolve”, quando se desliga disso, a lógica passa a ser outra. Então, a palavra desenvolvimento em si é uma palavra que precisaríamos qualificar melhor. Será que a forma de estar bem no mundo, a forma do bem viver é desenvolver no sentido de se desvincular dessas dinâmicas que são as dinâmicas do mundo que habitamos? Ou será que é ao contrário, é preciso se “reenvolver”? Se reenvolver com as matas, as populações e os rios e, a partir daí, construir uma forma de bem viver e bem conviver? O Papa fala sobre isso na Encíclica: bem viver tem quer ser bem conviver com a vida que vai além da vida dos humanos. Não é só a vida dos humanos que importa; nós somos parte de uma grande cadeia de vida, de um grande encontro cósmico, que permite que a vida se faça. Sem o todo, o conjunto da vida não se faz.

Hoje, a questão principal da Amazônia é como conviver bem com essa exuberância de vida que é uma floresta capaz de gerar frutos, ar puro, de estimular pelos rios a dinâmica das chuvas para o Sul, é pensar e de fato ter uma reflexão sobre desenvolvimento do ponto de vista da complexidade da teia da vida, é recolocar a ideia da teia da vida como elemento fundamental. A aquisição ilimitada de recursos materiais não pode ser considerada como o fim último da economia — não pode ser só isso. É claro, existe e sabemos que são necessários recursos para um conjunto de coisas, mas o argumento normalmente usado para quem se contrapõe a esse modo de desenvolvimento é: “ah, você não quer que as pessoas tenham celular? Não quer que as pessoas tenham computador?” Não se trata disso; nós podemos ter tudo isso, mas devemos ter tudo isso vinculado aos limites do planeta.

porto de São Luís do Maranhão está sendo ampliado para os navios chineses atracarem ali trazendo lixo para ser armazenado no Brasil. Ou seja, é uma economia totalmente louca, sem nenhuma vinculação com a casa onde ela habita. Portanto, o desenvolvimento da Amazôniatem que estar nessa raiz do que a Amazônia representa para o conjunto do planeta, para o equilíbrio climático, para a chuva no país, para a saúde dos rios e para a fertilidade do solo em todos os biomas que estão no entorno. Inclusive, o procurador Felício Pontes Jr. tem feito o diálogo sobre o que está em disputa na Amazônia hoje. A Amazônia — o papa tem dito isto e estamos indo para o Sínodo Pan-Amazônico com esta lógica — é uma terra disputada. Em Porto Maldonado o Papa disse aos indígenas: vocês nunca estiveram tão ameaçados por uma lógica da ganância ilimitada como estão por esses projetos que têm a ver com o agronegócio, com a intensificação da mineração.

O que nós precisamos hoje é pensar uma economia que parta da forma como a vida se faz e se refaz na Amazônia, com a floresta em pé. Ela gera imensos recursos: se olharmos toda a produção de açaí, as exportações que existem em relação a isso são enormes. Logo, tem toda uma vida exuberante que pode dar rendimentos econômicos através do respeito à fonte e à diversidade. O que não dá é para ser uma economia, como Felício Pontes Jr. aponta, completamente predatória em relação a esses recursos. Ao contrário, a economia que acontece a partir dessa lógica da vida é, essa sim, uma economia ilimitada, porque gera mais vida. Como exemplos desse tipo de economia temos a produção de frutos, de fitoterápicos, o manejo responsável da madeira, a produção de energia que não seja uma produção que devaste o meio ambiente, a pesca comandada pelo tempo dos rios; tudo isso é extremamente rentável. Em relação aos fitoterápicos, por exemplo, nós ainda nem estudamos um enésimo do potencial da Amazônia. Essas são coisas que podem ser usadas de forma responsável, rendendo um enorme recurso para toda a Amazônia, para os povos que moram lá e que moram no entorno.

(Fonte do mapa: Amazônia.org)

IHU On-Line — Essa sua proposta se assemelha à proposta que tem sido feita pelo professor Carlos Nobre?

Moema Miranda — Exatamente. Carlos Nobre tem feito esse estudo, que é muito importante. Ele foi a pessoa que sistematizou, do ponto de vista da ciência, a ideia dos rios voadores. A ciência e a tecnologia podem ajudar no desenvolvimento desses saberes tradicionais se conseguirem entrar em uma dinâmica produtiva a partir da realidade do que é a produção incessante de vida na Amazônia. A questão toda é a pergunta que fazemos: se supomos que o sistema, como ele existe hoje, é inquestionável, e assim estamos falando da sustentabilidade do sistema e não da sustentabilidade do planeta, a pergunta já induz a uma falta de resposta. Logo, recolocar as perguntas é absolutamente essencial também.

IHU On-Line — Como você avalia a proposta do Papa de sugerir um Sínodo para a Amazônia? Quais são os desafios da evangelização na Amazônia, tal como proposta pelo Sínodo?

Moema Miranda — Temos visto e compreendido o Sínodo como uma continuação e aprofundamento da Encíclica Laudato Si’, que foi lançada no contexto da discussão daCOP 21. Nesse sentido, o Sínodo é quase um aprofundamento da Encíclica, porque na própria carta o Papa fala da importância da Amazônia, como fala também da importância da floresta do Congo. A questão é como nós, enquanto Igreja universal, lidamos com essa região tão importante para o planeta. Acredito que o Papa se dá conta da presença histórica da Igreja que caminha no chão da Amazônia, que é uma igreja martirial, presente nas lutas e firme com a caminhada do povo, mas ele vê que ainda podemos fazer mais. E o que podemos fazer? Onde estão as falhas e as faltas?

processo sinodal é extremamente interessante porque abre para um papa, como ele mesmo diz, que veio do “fim do mundo”, a possibilidade de escuta da própria Igreja, mas além da Igreja. Como deveria ser uma Igreja com rosto amazônico? Como deveria ser uma Igreja que defende a ecologia integral? O que a igreja deveria fazer e como ela deveria se constituir como pastoral, como teologia, como proposta e profecia nessa Amazônia que hoje está sendo disputada, por um lado, por um projeto predatório e, por outro, pela possibilidade de um projeto socioambiental e sustentável? O Sínodo é parte dessa grande dinâmica e da tentativa da Igreja de reencontrar seu lugar ao lado dos que lutam pela vida.

IHU On-Line — O que a Igreja pode fazer de diferente neste momento na Amazônia, além do que já tem feito ao longo dos últimos anos?

Moema Miranda — Muita coisa. Primeiro, a Igreja se dá conta da grande disputa que estamos vivendo. O Papa falou sobre isso em Porto Maldonado. A Amazônia é uma terra disputada, então como Igreja precisamos nos dar conta dessa disputa. Se existe uma disputa, temos que nos dar conta de qual é a nossa proposta, qual é a nossa visão e a nossa perspectiva, de que lado e como caminhamos nessa disputa. Depois, é preciso reconhecer os povos indígenas como protagonistas da região, porque eles estão lá há muito mais tempo do que todos nós, e foram eles que conseguiram lutar para preservar a Amazônia. Também é importante perceber que existem muitas “Amazônias”; quanto mais nós avançamos no caminho de preparação do Sínodo, mais nos damos conta disso.

Quando falamos da Amazônia brasileira, é preciso considerar que ela envolve nove estados. Quando falamos da Amazônia Legal, incluímos estados como Mato GrossoTocantins e Maranhão, que estão na franja da Amazônia, que estão na fronteira entre a Amazônia e o Pantanal e entre a Amazônia e o Cerrado. Com isso, vemos a importância dessa compreensão de totalidade e de integração entre os biomas e como o avanço do agronegócio ameaça a floresta, porque a lógica é sempre esta: derrubar madeira, vender as madeiras mais caras, colocar gado, destruir a terra e depois plantar soja. O Sínodo também tem a importância de fazer com que a Amazônia reconheça a diversidade das formas de ser e estar na Amazônia.

Você me pergunta o que a Igreja pode fazer a mais pelos povos indígenas, e é muito importante sabermos o que podemos fazer, mas é importante também nos perguntarmos sobre o que podemos fazer pelos povos indígenas que estão nas cidades. Como podemos levar a Amazônia, que também é cidade, aos jovens urbanos? Como podemos fazer com que os jovens se concebam na Amazônia? Depois, como aqueles que estão fora da Amazônia — como vocês no Sul e eu no Rio de Janeiro — podem se sentir como parte da Amazônia e como alguém que defende a Amazônia? Talvez a questão mais importante seja o papel das mulheres, pois quanto mais caminhamos na Amazônia, mais vemos que ali temos uma Igreja feita por mulheres no seu dia a dia, na catequese e na pastoral. Então, como podemos ter, de fato, uma Igreja com rosto feminino, uma Igreja mulher que cuida e que incorpora a questão das mulheres e que dá às mulheres um lugar de voz e de fala? A partir da Amazônia podemos aprender e avançar nessas questões.

Finalmente, em relação aos povos indígenas, como a Igreja pode ser um espaço de encontro e de diálogo não com o indígena folclorizado, mas com os povos indígenas que estão lutando pelas suas formas de vida? Como a Igreja pode se abrir e abrir seus espaços para acolher e buscar saídas junto com os povos nos lugares em que eles estão se defendendo, defendendo a vida e construindo alternativas? A Igreja, de fato, tem um longo caminho a percorrer e o Sínodo abre essa necessidade de renovação da Igreja, que tem que estar sempre se renovando, porque os tempos são muito desafiantes. Os tempos que temos pela frente são muito perigosos e desafiantes e a Igreja Católica precisa se dar conta da dramaticidade do momento presente.

Igreja tem que se dar conta de que a crise ambiental é parte da crise da política, de como é difícil pautar as questões ambientais como um tema político, e de como isso é parte do próprio desmoronamento da política como um espaço de encontro e de defesa de direitos e do bem comum. O Sínodo vem numa hora muito apropriada para fazermos essa reflexão em profundidade sobre a realidade da Amazônia. No documento preparatório do Sínodo [1], lembra-se um aspecto importante em que o Papa diz que não devemos ser apenas amigos dos indígenas, caminhar com eles nas suas lutas, mas mais do que isso, devemos nos deixar evangelizar por eles. O Evangelho é a boa-nova, logo, os indígenas têm uma boa-nova que podem nos contar. Aprender com eles é algo revolucionário. Nesse sentido, não é só irmos como portadores de uma notícia boa, da novidade de Jesus, da boa-nova de Jesus, mas nos deixarmos evangelizar pela boa-nova dos povos que vivem na Amazônia — que não só os indígenas, mas também os ribeirinhos, as pescadoras e tantas outras populações que vivem na Amazônia —, que é a boa-nova da convivência com a floresta.

IHU On-Line — Pode explicar melhor em que consiste essa proposta de evangelização? Por que a evangelização é um aspecto importante nessa preocupação da Igreja com as disputas que estão ocorrendo na Amazônia? A Igreja não pode ser acusada de estar querendo colonizar os indígenas e os povos tradicionais, como já foi acusada em outros momentos da história?

Moema Miranda — Essa é a grande novidade. Uma coisa é ir como portador de uma notícia em que você vai falar sozinho, outra coisa é quando você vai falar porque reconhece que o mundo está à beira do caos. Quando olhamos todos os dados científicos sobre as mudanças climáticas, vemos que a situação ambiental é extrema, e o dramático é que é extrema e profundamente invisível. Esse choque de uma situação dramática e de uma situação de invisibilidade põe em alarme o Papa.

evangelização não é só um processo de ocupar a região e dizer aos indígenas o que eles devem fazer. A evangelização é uma proposta de encontro, é uma teologia nova, uma abordagem nova, é uma novidade, de fato, nova e inovadora de como nós juntos nos colocamos no caminho de defesa da vida. Isto é, não é uma evangelização que vem de um lado só. Quando o Papa diz no documento preparatório do Sínodo “nos deixemos evangelizar pelos indígenas”, ele está dizendo que nós temos de construir uma nova forma de falar sobre a mensagem para a defesa da vida. O Papa abre a Laudato Si’dizendo que entre os povos mais pobres hoje está a Terra que clama. Então, a própria Terra começa a falar. É uma situação totalmente inovadora: a Terra, aquilo que nós pensamos que era inerte, sem vida, é um ente vivo e vivente, é um reencontro, uma redescoberta. Essa descoberta é absolutamente compatível com a compreensão que os povos indígenas sempre tiveram. É por isso que o Carlos Nobre fala da possibilidade de um diálogo muito mais próximo entre a ciência e os povos indígenas, porque hoje as ciências mais desenvolvidas do sistema Terra compreendem a Terra como um superorganismo vivo, complexo, em que tudo está interligado, que era o que os indígenas já sabiam.

A Igreja hoje se abre a uma nova Teologia da Criação, em que o último dia da criação, o ápice da criação, não para na criação do ser humano, e sim justamente no sábado, nesse momento de encontro de toda a criação na festa salvífica. Na Encíclica Laudato Si’, o Papa diz — e esse é um momento extremamente importante — que a Igreja também precisa salvar o ser humano de si mesmo. Então, há a possibilidade de que o ser humano não esteja à altura desse grande convite para a festa. Uma nova evangelização significa um processo de autoconversão também. A Laudato Si’ fala da conversão integral e o frei [Luiz Carlos] Susin tem falado da “conversão da conversão”. Ele diz que nos convertemos para pensar que nós, seres humanos, somos quase que superiores à natureza, como se não fôssemos parte dela, mas como se fôssemos os grandes senhores da natureza. Nós precisamos nos converter em relação a isso e compreender que somos integrantes de uma dinâmica da vida que nos transcende, que é maior do que nós.

Essa nova evangelização supõe um processo de conversão de todos, inclusive nosso como Igreja. Não se trata de uma Igreja como portadora de uma perspectiva autoritária, que já tem a verdade, que já sabe o que é melhor, que dirá que os indígenas não sabem. Ao contrário, é uma Igreja que se coloca como companheira de jornada na busca por essa forma de ser e de viver na Amazônia e no mundo, e que seja respeitosa das dinâmicas dos indígenas. Portanto, é uma evangelização de lado a lado: nós temos boas-novas, mas os indígenas também têm boas-novas para nós. O processo de evangelização hoje é um processo de encontro. A base de toda a proposta evangelizadora é a Teologia do Encontro, a Teologia do Diálogo; é uma proposta totalmente nova desse ponto de vista.

IHU On-Line — Como a proposta de realização do Sínodo Pan-Amazônico tem repercutido no território amazônico entre os povos tradicionais, os indígenas, entre a população dos estados da Amazônia e na própria Igreja Amazônica? Como eles sentem esse processo de evangelização?

Moema Miranda — Temos sentido uma enorme abertura, um interesse imenso de todos com os quais temos conversado. Por exemplo, temos dialogado até com as religiões de matriz africana tradicionais, e o Conselho Indigenista Missionário – Cimi tem organizado conversas com todos os povos indígenas. Além disso, muitas dioceses estão organizando escutas com juventudes nas cidades. Os estados de TocantinsMato GrossoParáAmazonasAcre e Rondônia têm formas diferentes e criativas de fazer a consulta e temos sentido uma enorme abertura. Há cada vez mais pessoas se sintonizando nessa possibilidade e nessa coisa extremamente interessante que é a abertura do Papa para escutar como a Igreja deveria se comportar na Amazônia. A diversidade de respostas já começa a emergir e isso tem sido um processo extremamente estimulante para o nosso trabalho.

IHU On-Line — Qual será a participação dos povos tradicionais e indígenas no Sínodo Pan-Amazônico?

Moema Miranda — O Sínodo em si tem um processo. Ele começou com a organização da Secretaria do Sínodo, com a elaboração do documento preparatório, que foi realizada por cinco especialistas. Agora está na fase de consulta, que envolve a Igreja e todos os movimentos que estão no entorno dela. Posteriormente essas respostas serão sistematizadas tanto pela Rede Eclesial Pan-Amazônica – Repam quanto pelas dioceses. Posteriormente, as Conferências Episcopais produzirão um primeiro documento, o qual será enviado a Roma, que trabalhará o documento preparatório; isso deve ficar pronto até abril de 2019, e em outubro acontece o Sínodo. O Sínodo será constituído por todos os bispos da Amazônia, mas também haverá a possibilidade de convidados. Ainda não sabemos totalmente como se dará a presença dos indígenas, mas acreditamos que serão convidados pelo Papa a estarem presentes também.

Nota:

[1] Acesse aqui o Documento Preparatório para o Sínodo. Acesse aqui o Documento Preparatório – versão popular. (Nota da IHU On-Line).

IHU

Nova máquina ajuda no combate à ‘ilha de lixo’ no Caribe hondurenho

Vista da “Tartaruga Sagrada” no litoral de Roatán, Honduras, em 9 de outubro de 2018 (AFP/Arquivos)

Uma missão formada por mais de uma centena de pessoas pôs à prova uma embarcação com uma máquina adaptada para coletar dejetos plásticos no mar do Caribe, onde toneladas de resíduos formam uma verdadeira “ilha de lixo”.

Daniel Birnbaum, diretor-executivo da empresa israelense SodaStream, adquiriu o artefato depois de assistir a um vídeo que circulou em meios de comunicação e redes sociais com imagens impactantes dos detritos flutuando no mar.

Era uma autêntica “ilha de lixo” com mais de 5 km² boiando perto das paradisíacas Ilhas da Baía, no norte de Honduras, que abrigam o segundo maior arrecife coralino do mundo, depois do australiano.

Roatán, que faz parte do arquipélago, é a principal atração turística de Honduras, que recebe anualmente um milhão de visitantes.

Os turistas se encantam com suas praias de areia branca e águas cristalinas, onde se pode mergulhar com tubarões, nadar com golfinhos, observar baleias, surfar ou visitar grutas e cavernas.

A “tartaruga santa”

A SodaStream, cuja compra pela gigante americana Pepsico foi anunciada em agosto, investigou um milhão de dólares em uma embarcação com um mecanismo criado especialmente para limpar o óleo derramado nos oceanos. O barco foi adaptado para a primeira experiência de limpeza de resíduos plásticos no Caribe hondurenho. A unidade foi denominada de “Holy Turtle” (tartaruga santa).

Birnbaum encabeçou na semana passada um grupo de 125 executivos e funcionários da empresa, provenientes de diferentes partes do mundo a Roatán para pôr a máquina em funcionamento.

A embarcação passou nos primeiros testes. Os técnicos da missão lançaram uma espécie de mangueira alaranjada de 300 metros de comprimento, que arrasta os dejetos que flutuam na superfície do mar.

No momento do experimento não tinha se formado a “ilha de lixo”, como em outras ocasiões. Os rejeitos estavam presos em praias e raízes de manguezais.

A equipe foi até esses locais para coletar o lixo em sacos plásticos e levá-lo ao depósito municipal.

Cento e cinquenta estudantes de Roatán se somaram aos trabalhos para criar consciência nas crianças sobre os danos do uso de utensílios descartáveis de plástico, que acabam se acumulando nos oceanos do mundo.

“Tenta-se educar as crianças (para) que sejam embaixadoras desta missão que acabamos de começar”, disse Birnbaum à AFP.

Maurice Herrera, gerente de marketing da SodaStream, estimou que foram limpos 7 km2 de praias e raízes de manguezais robustos, berçário de espécies marinhas que estão em declínio por causa da contaminação.

Entre os dejetos tirados pela máquina estão pedaços de mesas e aparelhos de TV, garrafas, sapatos, colheres, entre outros itens descartados.

A maioria dos resíduos chega ao Caribe carregados pelos afluentes do rio Motagua, procedentes da Guatemala, e em menor escala por cursos d’água que vêm do interior do território Hondurenho, segundo Herrera.

O gerente da SodaStream lamentou que aves e espécies marinhas morram pela ingestão de plásticos. Foram encontrados rejeitos nos estômagos destes animais, o que por sua vez pode afetar a saúde dos humanos que os consomem.

Continente de lixo

Além da expressão “ilha de lixo”, os rejeitos que flutuam no mar também são conhecidos como “ilha tóxica”, “sétimo continente” ou “continente de lixo”, que há décadas são detectados no Pacífico.

Especialistas estimam que estas ilhas possam totalizar até 15 milhões de km2, provocando um grande dano não só aos oceanos, mas ao planeta e à humanidade em seu conjunto.

Birnbaum considera que a experiência feita em Honduras possa ajudar a coletar os rejeitos do “continente de lixo” do Pacífico, com o engajamento de autoridades e organizações não governamentais.

O executivo pediu que se evite o uso de utensílios de plástico que só são usados uma vez e recomendou que se dê preferência ao papelão.

Assegurou, ainda, que não há mais empresas de refrigerantes decididas a aderir ao vidro ou ao papelão para conter o desastre ecológico causado pelos utensílios descartáveis de plástico nos mares.

AFP

FAO: trabalho das mulheres rurais é essencial para a segurança alimentar no mundo

De acordo com o censo demográfico mais recente, as mulheres rurais são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil. Foto: Banco Mundial/Andrea Borgarello

A contribuição das mulheres rurais é peça-chave para o desenvolvimento das sociedades, para a segurança alimentar e nutricional das populações e para a erradicação da fome no mundo, lembrou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na segunda-feira (15), Dia Internacional das Mulheres Rurais.

Segundo a agência da ONU, para aproveitar esse potencial, o mundo precisa enfrentar as desigualdades de gênero como um todo e, especialmente, aquelas existentes no setor agrícola.

As mulheres rurais são responsáveis por 45% da produção de alimentos no Brasil e nos países em desenvolvimento. Na maioria dos casos, elas trabalham tanto no campo como em casa, cerca de 12 horas semanais a mais que os homens. Ainda assim, somente 20% delas são proprietárias de terras.

Cerca de 90% do que as mulheres rurais lucram no campo é reinvestido na educação e no bem-estar da família. Além da justiça social, o empoderamento feminino pode representar um aumento de 30% na produção agrícola e garantir a segurança alimentar do planeta, segundo a FAO.

A agência lembra que também é preciso lutar pela melhor representação das mulheres nos mecanismos de governança e nos processos de tomada de decisão. É preciso aprimorar seu acesso à terra, aos recursos financeiros e aos programas de proteção social, criando oportunidades de mudanças reais, salientou.

As evidências mostram que, quando as mulheres podem agir de forma autônoma, os recursos naturais são mais bem administrados, as fazendas são mais produtivas, a nutrição é melhorada e os meios de subsistência são mais seguros, apontou a FAO.

A FAO reconhece a importância da igualdade de gênero e do empoderamento das mulheres rurais. A igualdade de gênero é uma das pautas prioritárias para a organização. Quando as mulheres têm o poder de decidir, toda a sociedade se beneficia, afirmou a agência.

ONU News

Eleições 2018 e a pauta ambiental. Duas propostas totalmente opostas em disputa no 2º turno

Vista de um trecho do Rio Negro em Manaus, na Amazônia – AFP

“Como resultado do primeiro turno, Bolsonaro liderou em número de votos em todos os estados da região Amazônica, o que é contraditório visto a ausência de propostas para a região em seu plano de governo”, diz o biólogo Lucas Ferrante à IHU On-Line. Segundo ele, o plano de governo do candidato “não menciona nem uma única vez a região Amazônica”, e suas propostas podem “causar diversos impactos ambientais na Amazônia, com consequências para a população local”. Além disso, frisa, “Bolsonaronão aborda como desenvolver a região, ignorando que a Amazônia é carente de desenvolvimento e precisa ser assistida urgentemente pelo governo”. Apesar da falta de clareza acerca das propostas do candidato para a região, Ferrante pontua que “o maior paradigma dessa questão é que os dois candidatos ao governo do estado do Amazonas no segundo turno demonstraram apoio a Bolsonaro”.

Na avaliação dele, em contraposição às propostas ambientais do candidato para a floresta, “Haddad tem um plano muito mais eficaz visando ao desenvolvimento da Amazônia”. Entre as intenções de um possível governo HaddadFerrante destaca “investimentos na modernização do sistema elétrico existente, sobretudo das usinas geradoras, com incorporação das tecnologias de futuro nas redes de transmissão, como redes elétricas inteligentes” e o reconhecimento do “papel da Amazônia para toda a América do Sul, colocando a região em destaque em seu plano de transição ecológica”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Ferrante também comenta as demais propostas ambientais dos dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais. De acordo com ele, “os candidatos têm planos de governo e falas completamente opostas sobre a questão ambiental. Enquanto Haddad prevê uma transição ecológica tendo um plano de governo equilibrado e realista de ser executado, Bolsonaro prevê um desmonte das questões ambientais em seu governo, como a extinção do Ministério do Meio Ambiente e afrouxamento dos licenciamentos ambientais, além de sinalizar em suas falas o rompimento de acordos internacionais que visam reduzir as mudanças climáticas e o desmatamento”, resume.

Embora os dois candidatos sinalizem apoio ao setor do agronegócio, pontua, “podemos esperar uma inclusão tanto do agronegócio quanto da agricultura familiar em uma futura gestão Haddad”, enquanto em um eventual governo Bolsonaro “podemos esperar uma vulnerabilização da agricultura familiar que poderá até mesmo ser suprimida pelo agronegócio, atividades minerárias ou hidrelétricas, como já temos visto ocorrer na Amazônia”.

Apesar de a agenda ambiental posta em curso nos últimos 14 anos pelos governos petistas ter representado amplo apoio à construção de hidrelétricas como Belo Monte eestagnação da pauta indígenaFerrante pondera que “o plano de governo de Fernando Haddad, diferentemente dos governos anteriores do PT, não tem priorizado hidrelétricas como uma matriz-chave para geração de energia, sendo condizente com a proposta de transição ecológica que seu plano propõe”. Já Bolsonaro, compara, “tem defendido em declarações públicas e em seu plano de governo que o licenciamento ambiental não deve ser um entrave para quem quer construir uma pequena hidrelétrica, ignorando o fato de que uma pequena hidrelétrica, além de causar um dado ecossistêmico severo, ainda impacta vidas humanas em diferentes aspectos”.

Lucas Ferrante | Foto: Xapuri

Lucas Ferrante é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alfenas – Unifal e mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa. Atualmente é doutorando em Ecologia também no Inpa. É pesquisador associado ao Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica – Cenbam, ao Programa de Pesquisa em Biodiversidade – PPBio, e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Serviços Ambientais da Amazônia – INCT-Servamb.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A partir do que disseram até o momento os candidatos à presidência Haddad e Bolsonaro e a partir de seus programas de governo, como eles provavelmente propõem tratar da questão ambiental no país?

Lucas Ferrante – Os candidatos têm planos de governo e falas completamente opostas sobre a questão ambiental. Enquanto Haddad prevê uma transição ecológica tendo um plano de governo equilibrado e realista de ser executado, Bolsonaro prevê um desmonte das questões ambientais em seu governo, como a extinção do Ministério do Meio Ambiente e afrouxamento dos licenciamentos ambientais, além de sinalizar em suas falas o rompimento de acordos internacionais que visam reduzir as mudanças climáticas e o desmatamento.

Haddad tem uma posição firme em relação ao meio ambiente, pautando seções específicas em seu plano de governo que abordam a transição ecológica,desmatamento zero e proteção da biodiversidade, políticas de baixa emissão de carbono, além de utilização de energias mais limpas, como eólica, solar e biomassa. Diferentemente dos governos anteriores do PTHaddad não tem priorizado hidrelétricas como uma matriz-chave para geração de energia, o que é um avanço ambiental muito grande, dado os grandes impactos ambientais e sociais que as hidrelétricas causaram na Amazônia.

Contrariamente, Bolsonaro já manifestou que órgãos ambientais não devem ser um entrave para a construção de hidrelétricas. Além disso, a extinção dos Ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia deve afetar drasticamente toda a pesquisa em biodiversidade e serviços ecossistêmicos do Brasil, que inclusive torna o país vulnerável a incidentes climáticos como secas extremas, inundações e surtos de doenças tropicais. A falta de política ambiental adotada por Bolsonaro fragiliza o controle de empresas que causam grande impacto ambiental, como o desastre de Mariana, que além de ser um dos maiores desastres ambientais já vistos no Brasil, foi responsável pela morte de 20 pessoas e perda inestimável do patrimônio físico de muitas famílias. Bolsonaro ainda discursa sobre a liberação da caça de animais silvestres, o que poderia colapsar a biodiversidade brasileira e afetar diversos serviços ecossistêmicos desempenhados pela fauna que beneficiam a população. Em artigo publicado recentemente na revista Plos one, pesquisadores brasileiros demonstram que muitas das florestas já têm um colapso de mamíferos, sendo estes o grupo de animais mais visados para caça.

IHU On-Line – Que espaço o desenvolvimento do agronegócio e da agricultura familiar poderão ter num futuro governo Haddad ou Bolsonaro?

Lucas Ferrante – Haddad não tem se mostrado um candidato fechado a estabelecer conexões com o agronegócio, inclusive tem apoio de Ciro Gomes, cuja vice Kátia Abreu é uma das mais fortes ruralistas. No segundo turno, Haddad já sinalizou a adoção do plano de governo de Ciro Gomes, sendo que esta junção de Haddad com o “centrão” dá lugar ao agronegócio em seu governo. O plano de governo de Fernando Haddadtem uma seção específica de título “Viver bem no campo” que aborda muito bem a agricultura familiar. Dentre os tópicos, estão a produção de alimentos saudáveis, políticas para o agronegócio, democratização da terra e reforma agrária, fortalecimento de agricultura familiar de base agroecológica, aquicultura e pesca, direitos humanos e sociais no campo, viver bem no semiárido (focando questões de abastecimento e agricultura no Sertão), além de proteção e defesa dos animais. Cada um desses tópicos é explicado em detalhes em seu plano, inclusive como serão executados cada um dos tópicos. Essas propostas são realmente essenciais para o pequeno produtor e completamente executáveis, principalmente em regiões que hoje carecem de políticas públicas para o pequeno produtor em conciliação com a proteção ambiental, como, por exemplo, na Amazônia.

Contrariamente ao plano de governo de HaddadBolsonaro pretende fundir os Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura em uma só pasta, o que é perigoso tanto para o meio ambiente como para a própria agricultura, uma vez que isso vulnerabiliza pequenos produtores e comunidades tradicionais em relação ao impacto gerado pelo agronegócio em larga escala. Na região Amazônica é comum atividades de grilagem de terra de pequenos produtores ou invasão de áreas de uso de comunidades tradicionais que praticam agricultura familiar de subsistência por madeireiros, mineradores, grandes pecuaristas e plantadores de soja. O plano de Bolsonaro para a agricultura em nenhum momento menciona a palavra agricultura familiar ou agroecologia, sendo constituído apenas por duas páginas subdivididas em tópicos, não explicando como cada tópico será executado. Os tópicos do plano de governo de Bolsonaro são Política e Economia Agrícola, Recursos Naturais e Meio Ambiente Rural, Defesa Agropecuária e Segurança Alimentar, Pesca e Piscicultura, Desenvolvimento Rural Sustentável e Inovação Tecnológica.

Em uma síntese dos dois planos de governo, podemos esperar uma inclusão tanto do agronegócio quanto da agricultura familiar em uma futura gestão Haddad. Em contrapartida, em um possível governo Bolsonaro, podemos esperar uma vulnerabilização da agricultura familiar que poderá até mesmo ser suprimida pelo agronegócio, atividades minerárias ou hidrelétricas, como já temos visto ocorrer na Amazônia.

IHU On-Line – Como os candidatos possivelmente se posicionaram em relação ao debate das mudanças climáticas?

Lucas Ferrante – Mudanças climáticas são hoje um dos grandes problemas considerados por qualquer país no mundo. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC prevê impactos sérios das mudanças climáticas no Brasil e como consequências podemos esperar secas prolongadas afetando a agricultura e abastecimento humano no Sul e Sudeste do país, além do surgimento de novos surtos de doenças tropicaisBolsonaro já sinalizou que o Brasil deixará o Acordo de Paris, que tem como meta a redução de mudanças climáticas. Além disso, o candidato prevê a extinção do Ministério do Meio Ambiente, sendo este um ministério fundamental para combater as mudanças climáticas no Brasil.

Em março eu e o Prêmio Nobel Philip Fearnside publicamos uma carta na revista Science, uma das revistas com maior impacto científico no mundo, demonstrando quemudanças climáticas impulsionadas pelo desmatamento da Amazônia e implementação de novas monoculturas em larga escala levariam a um colapso de abastecimento público de água e de toda a agricultura principalmente nos estados da região Sul e Sudeste do Brasil. Nossos resultados fizeram o Senado recuar devido aos sérios impactos que as mudanças climáticas teriam sobre a população. Não considerar as mudanças climáticas seria uma irresponsabilidade de qualquer governante.

Em um artigo científico recentemente publicado na revista Scientific Reports, foi abordado que a Amazônia já chegou ao seu limite de desmatamento, sendo que a continuidade do desmatamento terá efeitos irreversíveis sobre a floresta. Praticamente toda a água que abastece os estados do Sul e Sudeste do Brasil, incluindo a cidade mais populosa que é São Paulo, vem da bacia Amazônica, sendo este fluxo de água dependente da floresta, como abordado desde 2004 na revista ciência e hoje pelo pesquisador Philip Fearnside, comprovado com medições precisas através de modelos climáticos realizados pela pesquisadora alemã Delphine Zemp e colaboradores, e que foi publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics. Bolsonaro não parece considerar esses fatos, dizendo que questões ambientais não podem ser um entrave para quem quer produzir. Entretanto são essas questões ambientais que asseguram a produção agrícola do país, demonstrando a vulnerabilidade econômica que o Brasil enfrentará em um governo Bolsonaro.

Contrapondo-se totalmente ao plano de Bolsonaro, o plano de governo de Fernando Haddad reconhece que será no campo onde mais serão sentidos os efeitos de mudanças climáticas. O plano de governo de Haddad ainda expressa que o Brasil deverá liderar pelo exemplo em cuidados ambientais, onde será mantido o Acordo de Paris e cumpridos os 17 Objetivos de Sustentabilidade previstos na Agenda de 2030.

Comparando o posicionamento dos dois candidatos, podemos esperar que em um governo de Haddad o Brasil não sofra uma crise de abastecimento de água com fortes racionamentos ou uma crise na produção agrícola; já em um governo Bolsonaro podemos esperar o surgimento de crises hídricas às quais seu plano de governo não apresenta nenhum plano de contenção. Além de um cenário de retração para a produção agrícola do país, destoando do que se propõe a fazer.

IHU On-Line – Um dos temas bastante discutido no país é o da demarcação das terras indígenas. Quais são as propostas de Haddad e Bolsonaro acerca da demarcação das terras e como ambos propõem tratar da questão indígena no país?

Lucas Ferrante – Atualmente a situação dos povos indígenas no Brasil deve ser encarada com seriedade. Em declaração pública, Bolsonaro manifestou que não haverá mais nenhum centímetro de terra demarcada para os povos indígenas. Em um texto publicado na revista científica Nature, de autoria de Jeff Tollefson, foi mencionado que Bolsonaro está buscando promover a expansão agrícola e industrial em detrimento das proteções ambientais e dos direitos das comunidades indígenas. O plano de governo de Bolsonaro sequer menciona os povos indígenas. Além disso, as políticas adotadas por Bolsonaro em facilitar aexploração de minériosexpansão da agropecuária e construção de hidrelétricas entram em total conflito com a manutenção de terras indígenas. O maior poder atribuído a esses setores em conjunto com a política de armamento da população, inclusive de ruralistas, representa um dos maiores riscos de genocídios para os povos indígenas do Brasil. Diversos povos de muitas etnias têm enfrentado conflitos com madeireiros, mineradores, além de grandes latifundiários na Amazônia, e as políticas públicas do atual plano de governo de Bolsonaro tendem a intensificar estes conflitos, podendo conduzir ao extermínio de diversos povos.

Contrapondo o total abandono do plano de Bolsonaro com a questão indígena, o plano de Haddad faz 22 menções aos povos indígenas, contabiliza a proporção de terras indígenas no território brasileiro e faz menção à diversidade de povos. Além disso, Haddad menciona retomar a demarcação de terras indígenas, a qual foi interrompida no governo Temer por pressão do Senado, que utilizou a questão como moeda de barganha junto com a flexibilidade do licenciamento ambiental, para aprovar as medidas requeridas por Temer. Além da retomada da demarcação de terras Indígenas, o plano de Haddad ainda prevê a retomada dos direitos indígenas, incluindo a participação popular de povos indígenas em seu governo, além de estímulos de políticas de igualdade racial, gerando mais oportunidades educacionais a indígenas e sua inserção em universidades e cargos públicos através do enfrentamento do racismo institucional. O plano de Haddad ainda menciona que, em empreendimentos energéticos, povos indígenas que forem afetados não receberão apenas compensação pelo dano ambiental sofrido, mas se tornarão sócios dos empreendimentos, recebendo, por exemplo, royalties. Haddad também tem como políticas públicas a expansão de saneamento ambiental para áreas indígenas, regulamentação fundiária dos territórios através da demarcação das terras, implementação do fortalecimento educacional com a formação de professores indígenas e reforma e construção de escolas.

IHU On-Line – Nos últimos anos os governos petistas foram criticados por conta da construção das hidrelétricas. Como esse tema tem sido abordado nas eleições deste ano? Qual tende a ser a proposta de Haddad e Bolsonaro em relação à construção de novas hidrelétricas?

Lucas Ferrante – Hidrelétricas causam enorme impacto ambiental e social, e na Amazônia essas questões são ainda mais sérias e potencializadas. Nós já tivemos bons exemplos de que esta não é uma matriz energética ideal. Somente na hidrelétrica de Belo Monte, tivemos desalojamento de povos tradicionais, como ribeirinhos, que acabaram sendo destinados para favelas em Altamira e perdendo as áreas de cultivo que garantiam sua subsistência. Além de uma superpopulação da cidade de Altamira, Belo Monte gerou como consequência o sobrecarregamento de serviços públicos, desabastecimento da cidade, aumento de surtos de doenças tropicais, além de aumentos significativos de homicídios e violência contra a mulher. Ainda temos áreas indígenas afetadas pela construção da barragem e um grande impacto ecossistêmico que iremos compreender totalmente apenas com algumas décadas de estudos.

Como já mencionado, o plano de governo de Fernando Haddad, diferentemente dos governos anteriores do PT, não tem priorizado hidrelétricas como uma matriz-chave para geração de energia, sendo condizente com a proposta de transição ecológica que seu plano propõe. Além disso, prevê que para empreendimentos energéticos já consolidados ou ainda em fase de implementação, os povos afetados, principalmente indígenasribeirinhos e quilombolas, deverão receber, além da compensação pelo dano ambiental sofrido, a sociedade dos empreendimentos, recebendo royalties.

Já Bolsonaro tem defendido em declarações públicas e em seu plano de governo que o licenciamento ambiental não deve ser um entrave para quem quer construir uma pequena hidrelétrica, ignorando o fato de que uma pequena hidrelétrica, além de causar um dano ecossistêmico severo, ainda impacta vidas humanas em diferentes aspectos, como já mencionado. Além disso, ele prevê que o licenciamento ambiental seja realizado em menos de três meses, o que é absolutamente impossível para a realização de estudos de impacto ambiental, sendo catastrófico tanto para a biodiversidade quanto para populações humanas próximas a essas áreas. Abordar a implementação de hidrelétricas como o plano de Bolsonaro o faz é perigoso não só para o meio ambiente como para a população instalada próxima ao empreendimento.

IHU On-Line – Muitos ambientalistas têm criticado os candidatos Haddad e Bolsonaro por não terem se manifestado claramente acerca da Amazônia. Que tipo de desenvolvimento seria importante para a Amazônia neste momento?

Lucas Ferrante – É importante discutirmos que o desenvolvimento em cada região deve ser específico de acordo com a geografia, recursos ambientais, urbanização, biodiversidade e clima de cada região. Desta forma o desenvolvimento da Amazônia em hipótese alguma deve ser igual ao do Sudestedo Brasil, como, por exemplo, através de implementação de grandes cultivos de cana-de-açúcar para a produção de biocombustíveis, pois, como abordado por mim e Philip Fearnside na revista Science, isso poderia causar mudanças climáticas severas, afetando toda a produção agrícola do país e o abastecimento hídrico das regiões mais populosas.

Plano de Bolsonaro não menciona nem uma única vez a região Amazônica ou a Floresta Amazônica. Isso é extremamente preocupante, pois o plano de desenvolvimento de Bolsonaro pode causar diversos impactos ambientais na Amazônia, com consequências para a população local. Entre os exemplos estão o impacto social e ambiental gerado pelas hidrelétricas ou impactos para populações em outras regiões do país. O não enfrentamento das mudanças climáticas também tende a afetar a agricultura e o abastecimento humano. Além disso, em declarações públicas, Bolsonarodefende que o agronegócio não pode ser afetado pela questão indígenaquilombola ou unidades de conservação, sendo que a maioria dessas áreas está inserida na região Amazônica.

Embora Bolsonaro acredite que terras indígena e quilombola, além de unidades de conservação, sejam um entrave para o agronegócio, são exatamente essas áreas que asseguram a manutenção dos ciclos de chuvas que abastecem a região Sul e Sudestedo Brasil, assegurando que o Brasil seja um dos líderes em produção agrícola no mundo. Como já mencionado, um estudo publicado na revista científica Scientific Reports relata que a Amazônia deve cessar o desmatamento, sendo irreversível a resiliência do bioma. Neste processo, a manutenção de terras indígenas, povos tradicionais e unidades de conservação é fundamental para a manutenção da produção agrícola brasileira. Desta forma, o plano de governo de Bolsonaro não é somente insustentável, mas pode colapsar toda a soberania agrícola do Brasil, além do abastecimento hídrico do país.

Além disso, Bolsonaro não aborda como desenvolver a região, ignorando que a Amazônia é carente de desenvolvimento e precisa ser assistida urgentemente pelo governo. O maior paradigma dessa questão é que os dois candidatos ao governo do estado do Amazonas no segundo turno demonstraram apoio a Bolsonaro, mesmo este ignorando a região, sendo que Haddad tem um plano muito mais eficaz visando ao desenvolvimento da Amazônia e ainda abordando em seu plano de governo mitigações para os impactos do desenvolvimento da região. Ainda como resultado do primeiro turno, Bolsonaro liderou em número de votos em todos os estados da região Amazônica, o que é contraditório visto a ausência de propostas para a região em seu plano de governo.

Já o plano de governo de Fernando Haddad para a Amazônia menciona investimentos na modernização do sistema elétrico existente, sobretudo das usinas geradoras, com incorporação das tecnologias de futuro nas redes de transmissão, como redes elétricas inteligentes. Além disso, prevê o aumento da eficiência energética, fortalecimento do Programa Reluz, maior agilidade da expansão do Programa Luz para Todos para as localidades isoladas na Amazônia e implementação de saneamento rural, tendo a Amazônia como uma das áreas prioritárias. O plano de governo de Fernando Haddad ainda reconhece o papel da Amazônia para toda a América do Sul, colocando a região em destaque em seu plano de transição ecológica.

Para o desenvolvimento da região Amazônica é recomendado que se priorize o transporte fluvial, dada a disponibilidade de rios: a região deve ter vias fluviais aperfeiçoadas, inclusive pautando pela segurança das embarcações. Deve-se desenvolver agricultura familiar com base nos sistemas agroflorestais, além de valorizar o pequeno produtor, principalmente pela produção de alimentos bons, limpos e justos, ou seja, que sejam nutritivos, livres de agrotóxicos, uma vez que o estado do Amazonas é um dos líderes em uso de agrotóxicos, e alimentos justos, ou seja, que valorizem o real trabalho do produtor do campo. Todos esses aspectos são ignorados no plano de governo de Jair Bolsonaro, mas são abordados no plano de governo de Fernando Haddad por meio da proposição de políticas de financiamento e reforma fiscal verde, infraestrutura sustentável para o desenvolvimento, sustentabilidade e soberania energética, diversificação da matriz de transporte, além de políticas para a produção de alimentos saudáveis e do agronegócio. Além disso, em visita a ManausHaddad ressaltou o potencial da região para a energia solar, alternativa limpa e sem impactos para a região, o que deve gerar empregos ao mesmo tempo que preza pela conservação ambiental. Outra questão que deve ser considerada é o potencial turístico da região Amazônica, que pode ser prejudicado pelo plano de governo predatório de Bolsonaro, sendo estimulado e compatível com o plano de governo proposto por Haddad.

Talvez uma das questões mais importantes para o desenvolvimento da região Amazônica seja a manutenção do Ministério da Ciência e Tecnologia, que Bolsonaro quer extinguir caso eleito. Nenhum país no mundo se desenvolveu ou superou uma crise sem investir em ciência e tecnologia. Dessa forma, Bolsonaro está na contramão do desenvolvimento da região Amazônica ou qualquer outra região do país, sendo impossível que o país se desenvolva com a extinção desse ministério, talvez o mais importante de todos, pois é através de ciência que se descobre a cura de doenças, que aprimoramos a educação e que desenvolvemos tecnologias que por sua vez geram empregos e o bem-estar da sociedade. Contrariamente a Bolsonaro, Haddadprevê em seu plano de governo uma consolidação desse ministério e aumento dos investimentos nesse setor. Essa é uma das questões mais sérias para tirar o Brasil da atual crise, e não pode ser ignorada pelos eleitores.

IHU On-Line – Os governos Petistas apoiaram a exploração de minérios e agora Bolsonaro sugere que o Brasil invista na extração de nióbio, dadas as reservas que o país tem. Como você avalia este tipo de proposta.

Lucas Ferrante – Temos que ter duas grandes cautelas, pois o plano de governo de Bolsonaro prevê um retrocesso ambiental sem precedentes e a extração de minério gera um grande impacto, como visto pelo rompimento da barragem em Mariana, onde tivemos 20 mortes e um dano patrimonial e ambiental inestimável, que se espalhou por centenas de quilômetros. Temos que lembrar que essa catástrofe impactou desde o setor turístico ao agropecuário e pesqueiro da região afetada até chegar ao litoral, se estendendo mar a dentro. Com um plano ambiental tão fragilizado como o proposto por Bolsonaro, podemos prever catástrofes muito grandes com impactos robustos sobre diversos ecossistemas, sobre a biodiversidade e com a perda de vidas humanas.

A segunda questão é o interesse estrangeiro pelo nióbio. Em 2010 documentos vazados do Departamento de Estado Americano pelo site WikiLeaks demonstravam o interesse estratégico dos Estados Unidos sobre as localidades de minas de nióbio no Brasil. Hoje o Brasil já é o maior exportador de nióbio no mundo, sendo que a maioria das reservas desse minério que se concentram no estado de Minas Gerais e não na Amazônia e já estão sendo exploradas. O nióbio não é exportado de forma bruta, mas sim a liga ferro-nióbio, que é explorada por duas empresas privadas. Bolsonaro tem defendido que a Amazônia em específico deve ser explorada por empresas estrangeiras, não se opondo à exploração mineral por outros países. Entretanto, isso é sem dúvidas uma ameaça à soberania nacional, uma vez que a grande exploração por empresas estrangeiras tende a tornar o Brasil menos competitivo no setor. Essas empresas quererem exportar o minério bruto ou em liga ferrosa e não o produto manufaturado, que realmente geraria empregos e estimula a economia.

O investimento em ciência e tecnologia para agregar valor ao minério hoje explorado seria uma melhor estratégia do que abrir o mercado para empresas estrangeiras, entretanto, Bolsonaro sinaliza extinguir o Ministério de Ciência e Tecnologia, o que representa uma perda de soberania no setor. Além disso, podemos esperar alto impacto ambiental e conflitos entre as mineradoras e comunidades locais em determinadas regiões, como já temos observado em áreas de extração de minérios na Amazônia. Através deste tipo de proposta e a consolidação do plano de governo de Bolsonaro, nós ficaríamos com um dano ambiental imenso, inclusive às custas da perda de vidas humanas para atender uma demanda internacional em um mercado que atualmente o Brasil já é líder. A exploração mineral pode ser estimulada, mas em paralelo com estudos econômicos e ambientais, além de buscar agregar valor ao minério através de produção tecnológica, exatamente o contrário do que podemos prever em um governo Bolsonaro.

IHU On-Line – Como você avalia a eleição de Joenia Wapichana, a primeira mulher indígena deputada federal do Brasil? Qual é o significado político dessa eleição?

Lucas Ferrante – A eleição de Joenia Wapichana é uma conquista para a representatividade indígena no Congresso, que até então vinha sendo liderado pela bancada ruralista. Somente na região Amazônica temos mais de 170 diferentes etnias, que até então não eram representadas. Nestas eleições, a entrada de Joenia Wapichana no Congresso é fundamental, sendo uma resistência frente a um possível governo de Jair Bolsonaro, que seria uma ameaça à existência dos povos indígenas brasileiros. Joenia Wapichana é a primeira mulher indígena advogada a exercer a profissão, sendo sua presença fundamental para a defesa dos povos indígenas do Brasil.

Em um cenário oposto onde Fernando Haddad seja presidente, Joenia Wapichanaainda tem um papel fundamental em fiscalizar e fazer com que todas as questões indígenas abordadas no plano de governo do candidato se cumpram.

IHU On-Line – Em relação à condução da pauta ambiental, o que será possível esperar do novo Congresso eleito?

Lucas Ferrante – Podemos esperar primeiramente uma renovação do Congresso, uma vez que tivemos menos de 50% de reeleições. Entretanto, a maioria esmagadora dos novos ingressantes no Congresso são do PSL, partido de Jair Bolsonaro, representando um impacto grande nas questões ambientais do país. Em contrapartida, somando os deputados reeleitos, o PT tem a maior bancada na Câmera dos Deputados, sendo que em uma eleição de Fernando Haddad podemos esperar o cumprimento de um desenvolvimento sustentável e que preze por questões ambientais.

IHU On-Line – Quais são as questões ambientais mais urgentes a serem discutidas no debate eleitoral?

Lucas Ferrante – Políticas de redução de mudanças climáticas são essenciais dada a importância do clima para a agricultura e abastecimento humano. A discussão sobre fontes de energia renováveis e de menor impacto, além de políticas mais rígidas para o uso de agrotóxicos e mineração são pautas que precisamos abordar. A redução de agrotóxicos é extremamente necessária, não apenas pelo dano ambiental que causa, mas também pelo dano à saúde humana. Políticas mais rígidas para a mineração devem ser abordadas para evitarmos tragédias como a de Mariana, onde o rompimento da barragem de rejeitos causou 20 mortes, além de um impacto ambiental incalculável e dano patrimonial.

desmatamento zero também é um item fundamental a ser discutido no debate, uma vez que a manutenção das florestas representa a própria manutenção do clima e da agricultura, sendo que biomas como a Amazônia se encontram no limite de sua capacidade de resiliência, o Cerrado brasileiro vem sendo extirpado, sendo o bioma com maior perda de território pelo desmatamento para expansão das monoculturas, e a Mata Atlântica está severamente fragmentada com pequenos fragmentos que em sua maioria são inferiores a 50 hectares. Outra questão ambiental que tem impacto direto na saúde humana é o saneamento ambiental, sendo fundamental principalmente para áreas rurais e para Amazônia.

IHU On-Line – Como você avalia o resultado das eleições presidenciais no primeiro turno?

Lucas Ferrante – Para entendermos o primeiro turno, precisamos entender a motivação dos eleitores e o que tem direcionado seu voto. De acordo com oranking Ipsos Mori de “Percepção errada da realidade”, o Brasil é o sexto país no mundo com percepção mais distorcida de sua realidade. Para entendermos o resultado deste primeiro turno, temos que compreender como as mídias digitais têm influenciado as massas populares nessa eleição. Hoje a informação se tornou muito acessível, mas nem tudo que está disponível na internet é verdade. As “fake news”, termo em inglês que significa notícia falsa, estão mais disseminadas e acessíveis que as informações verdadeiras.

utilização de redes sociais para disseminação de notícias e debates políticos tem gerado um fenômeno denominado “bolha social”, onde as pessoas tendem a fazer conexões apenas com outras pessoas com pontos de vista similares aos seus, o que tende a reforçar estereótipos e opiniões equivocadas, não estimulando o debate ou incorporação de novos pontos de vista ao que se acredita. Isto acontece, por exemplo, em grupos de WhatsApp, uma vez que esses grupos concentram apenas pessoas que compartilham o mesmo ponto de vista, ou até mesmo no Facebook, que tem algoritmos específicos de direcionamento de postagens de acordo com o que a pessoa mais curte ou visualiza. Quando observamos isso em um cenário onde as fake news estão sendo difundidas pelas redes sociais, as pessoas passam a acreditar naquilo que é apresentado a elas como sendo a realidade; entretanto, muitas vezes isso nada mais é do que uma massiva enxurrada de notícias falsas. Hoje o Brasil passa por um cenário onde a maioria das notícias que circulam no Facebook e WhatsApp são falsas, como ameaça de um estado comunista, uma crise e modelo econômico similar ao da Venezuela, perda de valores familiares, sexualização precoce de crianças, doutrinação e questionamentos religiosos. Segundo a Folha de São Paulo, mais de 97% das notícias compartilhadas por eleitores de Bolsonaro eram falsas.

O atual cenário deste primeiro turno nada mais é que o resultado de uma massiva enxurrada de notícias falsas nas redes sociais, além de um forte movimento anti-PT. O efeito das fake news é tão poderoso que pode alterar a percepção de realidade dos cidadãos mais desatentos a fatores econômicos ou indicadores sociais. Embora parte desse movimento anti-PT seja derivado dos escândalos de corrupção expostos pela operação Lava Jato, muitas pessoas vêm atribuindo a crise econômica de 2015 aos governos seguidos do PT, o que estatisticamente não se sustenta. Inclusive, esse fato está sendo mencionado no plano de governo de Bolsonaro. É consenso entre diversos especialistas que a causa da atual crise foi a instabilidade política gerada pelo impeachment de Dilma Rousseff. Isto ainda é corroborado pela situação econômica do país na gestão PT, quando em 2007 não fomos afetados pela maior crise econômica, onde até mesmo os Estados Unidos, sendo a primeira economia do mundo, implodiu com a crise imobiliária, além de em 2014 o Brasil ter a menor taxa de desemprego já vista no país, mortalidade infantil reduzida e se tornar um exemplo no combate à fome e miséria extrema. Atualmente muitas FakeNews espalhadas por apoiadores de Bolsonaro mencionam que Haddad tenha sido um dos piores prefeitos de São Paulo, entretanto Haddad foi premiado como o melhor prefeito em toda a América Latina quando governou a cidade, recebendo inclusive elogios de seu opositor e sucessor João Doria pela honestidade com que tratou as contas públicas do município.

Ainda como resultado deste primeiro turno, temos mais de 29% de abstenções e votos brancos e nulos, onde é fundamental que esse eleitor indeciso se posicione para evitar um rumo errado do país pelos próximos quatro anos, além de danos irreversíveis à nação, o que vale também para o eleitor que compreende que seu voto no primeiro turno não tenha sido o ideal, e possa mudar o voto neste segundo turno. Neste momento, temos que prezar pela informação de qualidade, escolhendo um candidato com um plano de governo estável, realista e que foque em pautas reais como economia, educação, ciências, segurança e meio ambiente, dizendo como irá solucionar os problemas, e não terceirizando o cargo de presidência a ministros, além de basear sua campanha em fake news.

IHU

A fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente como quer Bolsonaro pode prejudicar o Brasil

“Uma fusão pode ser mal interpretada do ponto de vista dos mercados e esta é a preocupação que nós temos”, disse Novacki em entrevista à Reuters. (Pixabay)

Por Ana Mano e Jake Spring

BRASÍLIA – A proposta de Jair Bolsonaro (PSL) de fundir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente pode prejudicar a busca do Brasil pela fatia de 10 por cento do comércio agrícola mundial, disse o secretário-executivo do Ministério da Agricultura do país nesta terça-feira.

Eumar Novacki disse não se opor à ideia da combinação das pastas, mas que a mudança provavelmente seria mal interpretada no exterior como um retrocesso na política de proteção ambiental do país e prejudicaria a visão global da indústria agrícola brasileira.

“Uma fusão pode ser mal interpretada do ponto de vista dos mercados e esta é a preocupação que nós temos”, disse Novacki em entrevista à Reuters.

Bolsonaro lidera as pesquisas de intenção de voto, à frente do petista Fernando Haddad.

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FAO desenvolve metodologia para mensurar desperdício de alimentos no mundo

A estimativa da FAO é de que cerca de 1,3 bilhão de toneladas de comida seja descartada por ano no mundo. Foto: Pexels

Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) está desenvolvendo uma metodologia para criar um novo índice, o Food Lost Index, com o objetivo de mensurar de maneira mais precisa o desperdício de alimentos no mundo, disse na quarta-feira (10) o diretor-geral da agência, José Graziano da Silva.

Em mensagem de vídeo gravada para o fórum “Perdas e desperdícios de alimentos: contribuição da tecnologia pós-colheita e um olhar para o futuro”, que aconteceu na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Graziano disse que a FAO também analisa a eficácia de políticas como incentivos econômicos para empresas e consumidores que combaterem o desperdício.

“A estratégia da FAO está construída sobre quatro pilares: a conscientização sobre o impacto do desperdício; a identificação de onde ocorrem as perdas; a sugestão de soluções viáveis e o apoio ao investimento nos setores público e privado para reduzir as perdas e os desperdícios”, explicou.

Além de considerações econômicas, as perdas e desperdícios de alimentos tem também uma grande dimensão ética e ambiental. Enquanto 8,21 milhões de pessoas no mundo estão em estado de insegurança alimentar, um terço de toda a produção alimentar do mundo é desperdiçada diariamente.

A estimativa é de que, anualmente, cerca de 1,3 bilhão de toneladas de comida seja descartada. “O ODS número 12.3 espera reduzir pela metade, até 2030, o desperdício do consumo final de alimentos per capita, bem como reduzir todas as perdas ao longo das cadeias de produção e abastecimento”, lembrou o diretor-geral da FAO.

No quesito ambiental, em consonância com a ODS 12 (produção e consumo responsáveis) e a ODS 13 (ação contra a mudança global do clima), as perdas também têm um um impacto importante. A emissão de gases dos alimentos desperdiçados é igual à poluição por dióxido de carbono de todo o parque automotivo do mundo, como explicou o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, que ministrou a conferência na UNICAMP.

O óxido nitroso e o metano, resultantes da degradação, são muito mais nocivos à camada de ozônio do que o CO2, nas razões de 300 por 1 e 20 por 1, respectivamente. “Além do forte impacto na saúde pública, com transmissão de enfermidades, o apodrecimento de alimentos tem alto custo. São consumidos recursos e energia na produção e um terço disso se perde”, disse Alan Bojanic.

ONU News