Política Nacional de Resíduos Sólidos – O desafio de garantir uma lei de proteção ambiental


Entrevista especial com Alessandro Soares

 

“Não vejo, mesmo sabendo que em algumas localidades há uma parceria entre catadores e prefeitura, uma confiança no trabalho que pode ser realizado pelos catadores”, constata o biólogo.

 

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Fonte: lixoeletronico.org/

De acordo com o Ministério da Saúde, a Lei 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, contém instrumentos importantes para permitir o avanço necessário ao país no enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos. Apesar dos avanços, os desafios ainda são enormes, como avalia Alessandro Soares, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

 

“A lei 12.305 validou muitas coisas que eram desejos antigos dos catadores: não só a maior facilidade para a contratação de cooperativas para realizar a coleta seletiva, mas o reconhecimento como um agente de proteção ambiental. Entretanto, ainda temos que nos acostumar com certos apontamentos da lei”, considera. 

 

Além da questão de gestão e relação entre os catadores e os órgãos públicos, há também a problemática da construção dos aterros sanitários, pois a maioria dos municípios tem uma estrutura precária para dar conta desta determinação. “As condições para construção de um aterro sanitário são tão especiais que não é em qualquer lugar que se constrói. O aterro, por norma, deve ter vida útil de 10 anos, o que exige bastante espaço para armazenamento, sendo afastado da população e cuidando o lençol freático; não são condições fáceis”, esclarece Alessandro.

 

O resultado de tal conjuntura é uma queda de braço entre a Confederação Nacional dos Municípios – CNM e a obrigatoriedade de cumprimento da legislação. Entretanto, o entrevistado é enfático. “Deveriam (os municípios) ter se manifestado durante a construção da lei. Agora não adianta muito dizer isso. O que separa o cumprimento ou não da lei é a quantidade de dinheiro que pode ser investido no gerenciamento dos resíduos”, avalia.

 

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Foto: Arquivo pessoal

Alessandro Soares (foto) é biólogo e membro do Centro de Assessoria Multiprofissional – CAMP.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Como a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS está sendo desenvolvida na grande Porto Alegre? Quais são seus efeitos até agora?

Alessandro Soares – É um processo lento. A Lei 12.305/2010 validou muitas coisas que eram desejos antigos dos catadores: não só a maior facilidade para a contratação de cooperativas para realizar a coleta seletiva, mas o reconhecimento como um agente de proteção ambiental. Entretanto, temos que nos acostumar com certos apontamentos da lei. Não vejo, mesmo sabendo que em algumas localidades há uma parceria entre catadores e prefeitura, uma confiança no trabalho que pode ser realizado pelos catadores. Por um lado, existe razão de não haver confiança, por outro, há uma falha por não se investir na formação desses trabalhadores.

 

Revisei os planos de gerenciamento de alguns municípios da região. Inclusive, alguns muito parecidos, de estrutura semelhante, o que me leva a crer que foram construídos pela mesma empresa/pessoa; a construção de um plano deste tipo é complicada e necessita da descrição de inúmeras variáveis. No geral, temos muito o que fazer, mas já houve avanços – em Canoas, por exemplo, as cooperativas assumiram a coleta; em Dois Irmãos, a cooperativa realiza a coleta seletiva e do material orgânico. Estes são pontos muito positivos.

 

IHU On-Line – A PNRS determina que os catadores sejam responsáveis pela coleta seletiva nos municípios. Como está acontecendo a introdução deles nesse serviço em São Leopoldo e no Vale do Sinos? Houve algum treinamento?

Alessandro Soares – Acompanhei este processo em Canoas entre 2010 e 2011. Como era um acontecimento novo, houve alguns equívocos. Mas, em suma, é fundamental que os catadores se aproximem da fonte de sua matéria-prima. Creio que os catadores de São Leopoldo necessitam fazer um benchmarking em Canoas para ver quais problemas aconteceram. Sobre os treinamentos, sempre há alguma ação, mas não se tem uma metodologia de inserção destes catadores na realização da coleta. As universidades e organizações não governamentais – ONGs ajudam no que podem.

 

IHU On-Line – Como os catadores e cooperativas têm reagido diante da proposta de fazer a coleta seletiva, como determina a PNRS?

Alessandro Soares – Em todos os lugares por onde passo, vejo os catadores ambicionando isso. Exceto em Porto Alegre. Acho que os catadores devem lutar por este trabalho.

 

IHU On-Line – Como vai funcionar esse trabalho na prática ou como tem funcionado no Vale do Sinos? Esse processo é viável? Que infraestrutura os catadores precisam para realizar essa atividade?

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Alessandro Soares – É interessante pensar nisso. Como vai funcionar eu não sei. Eu teria algumas ideias se estivesse envolvido no processo. Vejo que o projeto começa pela proposta financeira para as cooperativas por parte das prefeituras, sendo que deveria iniciar pelo levantamento do roteiro para o trabalho, para aí, sim, levantarem-se os custos e o preço final pelo serviço. Fazer também um levantamento da geração atualizada de resíduo e um estudo de quantos catadores em quantas cooperativas são necessários para dar conta do resíduo gerado. A viabilidade disso tem que ser calculada sobre a parte de infraestrutura; no geral os galpões de reciclagem têm deficiências fortíssimas em seus espaços de trabalho, carências estruturais e de segurança. Temos trabalho pela frente.

 

IHU On-Line – Quantos municípios gaúchos têm o serviço de coleta seletiva? O que dificulta a adesão de muitas cidades à coleta seletiva? Qual a eficiência desse serviço?

Alessandro Soares – Não tenho este levantamento – o site do Compromisso Empresarial pela Reciclagem – CEMPRE é uma boa fonte. A coleta seletiva é cara se comparada à coleta tradicional. Um valor aproximadamente 4,5 vezes maior pela tonelada coletada. Mas a lei obriga a isso, então os municípios devem se adequar.

 

IHU On-Line – A PNRS também prevê a extinção de lixões até 2014. Considerando a estrutura do Vale, essa meta poderá ser cumprida na região? Os municípios da grande Porto Alegre têm planos de ação para garantir o destino correto do lixo?

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A quantidade de

lixões tem diminuído

Alessandro Soares – Esta questão é complicada. Temos que dividir conceitualmente a diferença de lixões e aterros sanitários. A quantidade de lixões tem diminuído, mas ainda vejo a disposição de resíduos em aterros por longo tempo. Infelizmente.

 

IHU On-Line – Os municípios têm estrutura para fazer aterros em vez de lixões?

Alessandro Soares – No geral, não. As condições para construção de um aterro sanitário são tão especiais que não é em qualquer lugar que se constrói. O aterro, por norma, deve ter vida útil de 10 anos, o que exige bastante espaço para armazenamento, sendo afastado da população e cuidando o lençol freático; não são condições fáceis.

 

IHU On-Line – Quais são as fragilidades da PNRS? A Confederação Nacional dos Municípios alegou que é impossível cumprir 10% do que prevê a lei. O senhor concorda?

Alessandro Soares – Deveriam ter se manifestado durante a construção da lei. Agora não adianta muito dizer isso. O que separa o cumprimento ou não da lei é a quantidade de dinheiro que pode ser investido no gerenciamento dos resíduos. Não deve ser barato manter um trabalho deste tipo.

 

IHU On-Line – Quais são as metas mais urgentes da PNRS a serem cumpridas?

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Muitas embalagens

são recicláveis

Alessandro Soares – Na minha opinião, vejo que se deve regularizar de forma mais clara a logística reversa. Muitas embalagens plásticas são recicláveis, mas não são comercializadas pelas cooperativas, uma deficiência clara de mercado e de falta de investimento em pesquisa. A lei nos traz que a empresa produtora deve se responsabilizar pelo ciclo de vida de seus produtos. Esta conta ainda está sendo enterrada nos aterros. Também aponto na direção do apoio mais formal aos catadores, na realização da coleta seletiva por estes e em uma proposta voltada ao cumprimento do controle social por parte da população.

 

Fonte: IHU – Unisinos

Florestas urbanas: um excelente negócio


 

Conciliar desenvolvimento urbano e preservação da natureza sempre foi um desafio mundial. Com a divulgação de informações sobre o aquecimento global, as preocupações relacionadas à destruição de florestas ficaram muito maiores e as prefeituras cada vez mais são pressionadas a encontrarem soluções sustentáveis.

 

Segundo o Censo 2010, o Brasil tem uma média de arborização nos municípios de 68% em relação ao número de domicílios. No país, entretanto, coexistem exemplos bem-sucedidos e casos em que a natureza fica relegada a segundo plano.

Este benefício pode vir, por exemplo, na forma de descontos no IPTU – como ocorre em Curitiba, entre outras cidades – para proprietários particulares que mantenham vegetação original. Já em nível governamental, o ICMS ecológico beneficia com mais recursos os estados que mantêm mais Unidades de Conservação.

Goiânia, por exemplo, possui regulamentações muito fortes no sentido de manter e ampliar suas áreas verdes. O percentual de arborização em relação ao número de domicílios é de quase 90%, o maior do país entre os municípios com 1 milhão de habitantes ou mais.

Belém, por sua vez, tem o menor nível entre as grandes cidades do Brasil: 22,4% dos domicílios estão em áreas arborizadas.

Fonte: Globo Ecologia

Publicado em: Green Nation

Foto: Panoramio

 

Redes elétricas inteligentes: oportunidades e desafios


Consumo eficiente e redução de perdas na distribuição serão os principais benefícios gerados pela implantação das smart grids – redes inteligentes de energia. Especialistas apontam, entretanto, que cada país deverá ter modelo próprio

         

 

O crescimento da população mundial vai gerar uma enorme pressão sobre alguns setores da economia e de infraestrutura das cidades, entre eles o energético. Um dos maiores desafios será suprir a demanda de uma gigante parte da sociedade, que está emergindo para uma nova classe e com isso, consumindo mais produtos e serviços que dependem de eletricidade.

Uma das mais importantes e modernas tecnologias, que deve se tornar a principal aliada deste novo momento, são as redes inteligentes de energia, ou smart grids em inglês. Especialistas e representantes do segmento energético brasileiro se reuniram em Campinas, em São Paulo, durante o encontro A Energia na Cidade do Futuro, promovido pela CPFL Energia, para debater sobre esta e outras soluções sustentáveis para o setor.

Reive Barros dos Santos, diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), analisou o panorama da realidade nacional. País de dimensões continentais, o Brasil enfrenta graves problemas como, por exemplo, perdas de energia de até 30% nos estados do Norte e em percentuais menores, mas mesmo assim significativos em outras regiões. "O setor elétrico brasileiro ainda apresenta grande potencial de crescimento e não há dúvida que as redes inteligentes terão de ser implantadas", disse o executivo.

No caso do Brasil, Santos aponta que os motivadores para a implementação de smart grids seriam a melhoria na qualidade dos serviços oferecidos pelas operadoras do setor, redução de perdas e furtos de energia e diminuição da sobrecarga nos horários de pico. O sistema também permitiria a integração com redes de microgeração distribuída. Para tal, será necessário incentivo maior para estimular este tipo de geração, avalia o diretor da ANEEL. "Será um grande desafio lidar com esta nova realidade", admite. "Será preciso envolver mais o consumidor e mostrar a ele que a tecnologia vem em seu favor".

A tecnologia a que Reive Santos se refere é a utilização dos medidores inteligentes. Em alguns países, como na Itália, eles já estão em uso desde 2001. Lá, houve marco regulatório que obrigou a instalação dos novos medidores. Em grande parte da Europa, a preocupação com a adoção do novo sistema é com a sustentabilidade.

 

Diferentemente do Brasil, onde a matriz energética é hidráulica e, por isso, menos poluente, no continente europeu a produção de energia é responsável por uma alta emissão de CO2. Além disso, estes países buscam ainda a integração de fontes renováveis e limpas ao sistema, além da redução do consumo e, consequentemente, dos custos operacionais. Em países como Dinamarca e Suécia, o interesse pelos smart grids já antevê o aumento da disseminação dos carros elétricos.

Professor da Universidade de Coimbra, Carlos Henggeler, veio ao Brasil falar da experiência europeia com as redes inteligentes e mais especificamente de Portugal, onde na cidade de Évora está sendo realizado projeto piloto. Nos últimos anos, o país tem feito enorme esforço para investir em energias renováveis, sobretudo a eólica. "A geração distribuída é, sem dúvida, um dos grandes avanços tecnológicos", afirmou.

Sobre os medidores inteligentes, Henggeler acredita que eles tornam o consumidor final mais pró-ativo e consciente. "Até então eles só conferiam a fatura mensal, mas com os novos equipamentos podem acompanhar o consumo da residência hora a hora e assim descobrem em que horários estão gastando mais", explicou. Com essa informação, as pessoas têm capacidade de controlar melhor o consumo, utilizando aparelhos domésticos como lava-roupas e ferros-elétricos, por exemplo, em períodos mais espassados e de tarifa mais baixa.

Na Califórnia, nos Estados Unidos, a Pacific Gas and Eletric Company iniciou o processo de medição inteligente em 2006. Ao longo destes sete anos, já economizou aos cofres do estado cerca de 56 bilhões de dólares. Um dos serviços oferecidos pela empresa é a chamada tarifa branca, com preços diferenciados ao longo do dia. O projeto da Pacific Gas exigiu um investimento altíssimo, já que a rede de distribuição exige complexidade e interatividade maior, mas a companhia garante que metas de crescimento e faturamento foram mantidas. "Os medidores inteligentes contribuem para a materialização do consumo", acredita Carlos Henggeler.

Especialistas apontam que o aumento na escala e na padronização dos medidores inteligentes deverão fazer os custos de instalação destes equipamentos caírem. Todavia, a gestão das redes inteligentes é certamente mais difícil. Nascem aí, entretanto, oportunidades para empresas que trabalham com desenvolvimento de softwares e tecnologia de informação. "A inteligência ao longo da rede irá melhorar o sistema como um todo", defendeu Henggeler. "Mas sem políticas pró-ativas do governo e das empresas do setor, o desenvolvimento será mais lento". Segundo ele, o papel do setor elétrico é decisivo para marcar o ritmo deste processo.

 

Fonte: Planeta Sustentável

Desafio premiará projetos de impacto social que ouçam seus beneficiários


No setor privado, plataformas como Yelp, Amazon.com e Kickstarter dão cada vez mais poder aos consumidores. Estas ferramentas criam um processo contínuo de sugestão e resposta – um “ciclo de feedback” – que motiva empresas a ouvir seus clientes e a criar produtos novos e melhores.
 
Mas por que os ciclos de feedback não dão mais poder às pessoas em relação à forma como são governadas, como as doações são gastas e como os serviços sociais são prestados? Quando desenvolvemos um projeto de impacto social, existem muitas variáveis a serem consideradas. Você conhece ou desenvolve projetos que levam em consideração a opinião dos beneficiários? Que cria canais para ouvir aqueles que serão diretamente impactados? E essas opiniões são incorporadas na execução?
 
Pensando nisso, o Changemakers da Ashoka, em parceria com o Feedback Labs, lançou o desafio ‘Completar o Ciclo: Feedback para Resultados’, que pretende identificar e premiar projetos e organizações que desenvolvam metodologias, mecanismos, produtos e ações que ouçam os beneficiários dos projetos e, com isso, melhoram resultados em serviços sociais, filantropia e governança. Em resumo, buscamos projetos que procurem:
 
– Conectar governos, fundações, provedores de serviços e os grupos as quais eles servem;

– Colocar pessoas em posições de poder e de tomada de decisão quando se considera os problemas que as afetam diretamente;

– Identificar possíveis barreiras na coleta de feedback, de forma que os dados sejam representativos e inspirem resultados reais; 

– Desenvolver a habilidade (e a vontade) dos governos e de outras instituições de responder a feedbacks; 

– Ajudar pessoas e especialistas a terem conversas autênticas sobre o que funciona melhor e o que deve ser melhorado.
 
O projeto vencedor será contemplado com um financiamento de US$10.000. Além disso, todos os inscritos poderão receber comentários e sugestões de especialistas e dos demais integrantes da rede do Changemakers, através do nosso processo de Revisão por Pares.
 
As inscrições podem ser feitas através do site http://www.changemakers.com/pt-br/completarociclo até as 20 horas do dia 15 de janeiro. Em caso de dúvidas, basta entrar em contato com icarvalho@ashoka.org

 

Fonte: Cidades Sustentáveis

Preservação de nascentes é solução para conservar o Pantanal


                              

Para avaliar o conhecimento dos brasileiros sobre o Pantanal, o WWF-Brasil e o HSBC solicitaram ao Ibope uma pesquisa inédita sobre a região. Realizada em duas etapas, nacional e regional, o levantamento tem por objetivo orientar as iniciativas locais da ONG e de seus parceiros. Na pesquisa regional, a maioria dos entrevistados apontou a preservação das nascentes e a união de esforços são as soluções para combater os problemas do Pantanal.

O estudo nacional ouviu 2.002 pessoas em 26 estados brasileiros. Já a pesquisa regional, 504 moradores de municípios do Mato Grosso, onde grande parte das nascentes do Pantanal está localizada.

Os dados coletados na pesquisa nacional evidenciam que a população já ouviu falar do Pantanal (93%), embora desconheça suas características naturais e localização, já que 66% das pessoas – dois em cada três – não sabem apontar em qual região do Brasil o bioma se encontra.

Os problemas ambientais do Pantanal, identificados no estudo “Análise de risco ecológico da Bacia do Paraguai” publicado pelo WWF-Brasil e parceiros em 2012, são reconhecidos pela população, que aponta a degradação de nascentes (49%) e o assoreamento (47%) entre as principais causas na pesquisa regional. Porém, fica claro que os habitantes do Pantanal não tem a real dimensão do tamanho do problema: 40% dos que responderam a pesquisa não sabem que o Pantanal é uma área de risco ambiental. No entanto, os entrevistados consideram o desmatamento (73%) como a principal causa.

                       

Já o entendimento sobre os rios da região é difuso: o número de pessoas que acreditam que as nascentes do Pantanal vêm do Cerrado é de apenas 39% – ainda assim mais que o dobro dos 18% revelados na pesquisa nacional. Por outro lado, 65% dos entrevistados afirmam, corretamente, que o Pantanal é a maior fonte de água doce do mundo.

                         

Uma informação importante revelada pela pesquisa é que há espaço e necessidade para ações de educação ambiental, com o foco na valorização desse patrimônio natural pelas pessoas que ali vivem. Mais da metade dos entrevistados (57%) nunca visitou o Pantanal, apesar de viver próximo às nascentes. Aqueles que viajam ao Pantanal não têm como interesse principal saber mais sobre preservação, mas sim praticar atividades de lazer, como a pesca esportiva (78%).

Desenvolvimento sustentável é desafio

A pesquisa regional apontou ainda que 55% dos entrevistados perceberam uma melhora na qualidade de vida associada às condições financeiras das famílias e acesso a bens de consumo industrializados.

Por outro lado, houve uma percepção clara dos prejuízos causados ao meio ambiente devido ao desenvolvimento econômico: 51% da população regional indicou que piorou a condição dos rios, nascentes e córregos; e 63% apontou redução da quantidade de peixes.

                      

A união faz a força

Na opinião de 92% dos entrevistados, a melhor forma de garantir a preservação do bioma é a união de esforços de governos, empresas e sociedade civil. A pesquisa aponta que 93% das pessoas acham importante a construção de um Pacto em defesa das cabeceiras do Pantanal. “Para isso, é preciso que a população tenha conhecimento das iniciativas em andamento. A união de esforços entre governos, empresas e sociedade é a forma mais adequada de preservação do Pantanal, na opinião de 76% dos entrevistados. Esse é justamente o conceito do Pacto pelas Cabeceiras”, destaca Glauco Kimura de Freitas, coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil.

No entanto, as iniciativas existentes para a conservação do Pantanal são desconhecidas pela maioria da população. No total de entrevistados, 88% nunca ouviu falar da politica estadual de recursos hídricos; e 82% deles desconhecem totalmente os comitês de bacia na região.

“É preciso uma ampla divulgação dessas instituições, bem como seu papel na preservação das nascentes e águas”, reforça Glauco Kimura de Freitas. “Essa agenda é estratégica e deve ser priorizada; caso contrário, as pessoas não irão se engajar e se mobilizar em prol de ações de conservação”, finaliza.

                       

Fonte: Mercado Ético

Desafio urgente: a responsabilidade socioambiental das empresas


   Já se deixou para trás o economicismo do Nobel, Milton Fridman, que, no Time de setembro de 1970, dizia: “a responsabilidade social da empresa consiste em maximizar os ganhos dos acionistas”. Mais realista é Noam Chomsky: “As empresas é o que há de mais próximo das instituições totalitárias. Elas não têm que prestar esclarecimento ao público ou à sociedade. Agem como predadoras, tendo como presas as outras empresas. Para se defender, as populações dispõem apenas de um instrumento: o Estado. Mas, há, no entanto, uma diferença que não se pode negligenciar: enquanto, por exemplo, a General Electric não deve satisfação a ninguém, o Estado deve regularmente se explicar à população” (em Le Monde Diplomatique Brasil, n. 1, agosto 2007, p. 6).

                  

   Já há décadas que as empresas se deram conta de que são parte da sociedade e que carregam a responsabilidade social no sentido de colaborarem para termos uma sociedade melhor.

   Ela pode ser assim definida: A responsabilidade social é a obrigação que a empresa assume de buscar metas que, a meio e longo prazo, sejam boas para ela e também para o conjunto da sociedade na qual está inserida.

   Essa definição não deve ser confundida com a obrigação social que significa o cumprimento das obrigações legais e o pagamento dos impostos e dos encargos sociais dos trabalhadores. Isso é simplesmente exigido por lei. Nem significa a resposta social: a capacidade de uma empresa de responder às mudanças ocorridas na economia globalizada e na sociedade, como, por exemplo, a mudança da política econômica do governo, uma nova legislação e as transformações do perfil dos consumidores. A resposta social é aquilo que uma empresa tem que fazer para se adequar e poder se reproduzir.

   Responsabilidade social vai além disso tudo: o que a empresa faz, depois de cumprir com todos os preceitos legais, para melhorar a sociedade da qual ela é parte e garantir a qualidade de vida e o meio ambiente? Não só o que ela faz para a comunidade, o que seria filantropia, mas o que ela faz com a comunidade, envolvendo seus membros com projetos elaborados e supervisionados em comum. Isso é libertador.

   Nos últimos anos, no entanto, graças à consciência ecológica despertada pelo desarranjo do sistema-Terra e do sistema-vida surgiu o tema da responsabilidade socioambiental. O fato maior ocorreu no dia 2 de fevereiro do ano de 2007 quando o organismo da ONU, que congrega 2.500 cientistas de mais de 135 países, o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC), após seis anos de pesquisa, deu a público seus dados. Não estamos indo ao encontro do aquecimento global e de profundas mudanças climáticas. Já estamos dentro delas. O estado da Terra mudou. O clima vai variar muito, podendo, se pouco fizermos, chegar até a 4-6 graus Celsius. Esta mudança, com 90% de certeza, é androgênica, quer dizer, é provocada pelo ser humano, melhor, pelo tipo de produção e de consumo que já tem cerca de três séculos de existência e que hoje foi globalizado. Os gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono e o metano, são os principais causadores do aquecimento global.

   A questão que se coloca para as empresas é esta: em que medida elas concorrem para despoluir o planeta, introduzir um novo paradigma de produção, de consumo e de elaboração dos dejetos, em consonância com os ritmos da natureza e a teia da vida e não mais sacrificando os bens e serviços naturais.

   Esse é um tema que está sendo discutido em todas as grandes corporações mundiais, especialmente depois do relatório de Nicholas Stern (ex-economista-senior do Banco Mundial), do relatório do ex-vice-presidente dos USA Al Gore, “Uma verdade incômoda”, e dos várias Convenções da ONU sobre o aquecimento global. Se a partir de agora não se investirem cerca de 450 bilhões de dólares anuais para estabilizar o clima do planeta, nos anos 2030-2040 será tarde demais e a Terra entrará numa era das grandes dizimações, atingindo pesadamente a espécie humana. Uma reunião de julho de 2013 da Agencia Internacional de Energia (AIE) enfatizava que as decisões têm que ser tomadas agora e não em 2020. O ano 2015 é nossa última chance. Depois será tarde demais e iríamos ao encontro do indizível.

   Estas questões ambientais são de tal importância que se antepõem à questão da simples responsabilidade social. Se não garantirmos primeiramente o planeta Terra com seus ecossistemas, não há como salvar a sociedade e o complexo empresarial. Portanto: é urgente a responsabilidade socioambiental das empresas e dos Estados.

Por Leonardo Boff (Filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra).

* Publicado originalmente no site Adital

Fonte: Envolverde