Cientistas afirmam que oceanos poderiam oferecer mais alimentos do que já oferecem


O cultivo de alimentos oceânicos geralmente tem um impacto menor no clima do que a agricultura terrestre (Pixabay)

Os oceanos poderiam oferecer mais de seis vezes a quantidade de alimentos que disponibilizam hoje com melhor gerenciamento de recursos e mais inovações tecnológicas, disseram cientistas nesta terça-feira, acrescentando que incentivar o cultivo de mariscos e ostras poderia ser especialmente benéfico.

Os pesquisadores estimam que os oceanos poderiam gerar mais de dois terços da proteína animal que os especialistas em alimentação da ONU preveem que será necessária para alimentar o mundo no futuro. Os peixes atualmente representam cerca de um quinto da proteína animal consumida pelos seres humanos.

O cultivo de alimentos oceânicos geralmente tem um impacto menor no clima do que a agricultura terrestre, e não é limitado pelas mesmas restrições de terra e água, disseram os cientistas.

Os alimentos produzidos no mar também são altamente nutritivos, contendo vitaminas, minerais e ácidos graxos essenciais, afirmaram os pesquisadores no estudo que será publicado em um simpósio de pesca sediado pela Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em Roma, na terça-feira.

“Os oceanos tem um excelente e inexplorado potencial para ajudar a alimentar o mundo nas próximas décadas, e esses recursos podem ser aproveitados com um impacto ambiental menor do que outras fontes de alimentos”, disse o principal autor do relatório, Christopher Costello.

“Se fizermos mudanças amplas e rápidas na maneira em que administramos as indústrias baseadas nos oceanos enquanto nutrimos a saúde de seus ecossistemas, podemos incentivar nossa segurança alimentar a longo prazo, garantindo a subsistência de milhões de pessoas”.

Emma Batha / Reuters

Centro-americanos e brasileiros tentam salvar agricultura das secas


A reserva de La Concepción, que abastece 30% do consumo hídrico de Tegucigalpa, capital de Honduras, afetada pela seca em 14 de setembro de 2019 (AFP/Arquivos)

Uma delegação de agricultores da Guatemala, de El Salvador e de Honduras buscará no Brasil alternativas para superar os efeitos causados por secas repetidas na agricultura, informou nesta sexta-feira a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) em San Salvador.

Além de compartilhar experiências acumuladas entre as “regiões mais secas do planeta” que têm semelhanças, “serão discutidas alternativas para reduzir o impacto” da seca na agricultura, afirmou a FAO em comunicado.

O encontro dos agricultores que vivem no chamado “Corredor Seco” e seus parceiros do sul está agendado de 19 a 26 de novembro em Petrolina, Pernambuco, cidade no semiárido do nordeste

Os centro-americanos conhecerão detalhes técnicos de especialistas da Embrapa Semiárido e de outras instituições, no âmbito do projeto da Iniciativa América Latina e Caribe para 2025.

A FAO estima que cerca de 10,5 milhões de pessoas vivem no corredor seco, a maioria delas na Nicarágua, Honduras, El Salvador e Guatemala. Aproximadamente 60% dessa população vive na pobreza.

Nos países da América Central, mais de 2 milhões de famílias dependem da agricultura de subsistência e estão constantemente em risco de insegurança alimentar devido a secas recorrentes, atribuídas principalmente às mudanças climáticas.

AFP

Cidades Verdes: relatório da FAO diz que Belo Horizonte é exemplo a ser seguido


                 Crianças em uma das 126 hortas escolares de Belo Horizonte. Foto: FAO

 

Novo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) constata que a agricultura urbana e peri-urbana (UPA) é bastante difundida na América Latina e no Caribe, mas perceber seu potencial requer um maior apoio por parte dos governos nacionais, estaduais e locais.

 

Intitulado “Cultivando cidades mais verdes na América Latina e no Caribe“, o relatório avalia o progresso que tem sido feito para a implementação de “cidades mais verdes”, nas quais a agricultura urbana e peri-urbana é reconhecida pelas políticas públicas e incluídas nas estratégias de desenvolvimento urbano e no planejamento do uso de terra. O estudo baseia-se nos resultados de uma pesquisa realizada em 23 países e em dados de 110 municípios e cidades.

 

O novo relatório, lançado no Fórum Urbano Mundial, em Medellín, na Colômbia, inclui perfis de agricultura praticada dentro e em torno de cidades como Havana, Cidade do México, Antígua e Barbuda, Tegucigalpa, Manágua, Quito, Lima, El Alto, Belo Horizonte e Rosário.

 

Em um número crescente de cidades, a agricultura urbana e peri-urbana é reconhecida no planejamento do desenvolvimento urbano. Em Belo Horizonte, a produção de alimentos é uma atividade legítima em terras não residenciais, a par com o comércio, serviços e indústria. A Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional de Belo Horizonte também gerencia 19 programas que buscam garantir o acesso de seus cidadãos à alimentos de alta qualidade e preços acessíveis.

 

O principal benefício da UPA é o melhor acesso a alimentos para famílias de baixa renda. Uma forte tendência em muitos programas da UPA na América Latina e no Caribe é a de tecnologias e práticas agrícolas que produzem mais alimentos e de melhor qualidade, otimizando o uso dos recursos naturais e reduzindo a dependência de agroquímicos.

 

A FAO afirma que o cultivo de cidades mais verdes com a agricultura precisa do apoio do governo. No entanto, apenas 12 dos 23 países pesquisados têm políticas nacionais que promovem a UPA. A pesquisa da FAO também constatou que a UPA é muitas vezes excluída no planejamento e na gestão do uso terras de cidades na América Latina e no Caribe, mas que tem sido integrada em um nível bastante elevado no âmbito das instituições nacionais.

 

Fonte: ONU BR

“Ainda se morre de fome no Brasil”


Enquanto país se torna referência no combate à insegurança alimentar, há grupos em situação de vulnerabilidade, entre eles muitos indígenas.

A reportagem é de Camila Nobrega e Rogério Daflon em artigo publicado Canal Ibase, 31-10-2013.

Eis o artigo.

                    

A chegada de uma mineradora a uma região próxima a um quilombo nos arredores da cidade de Goiânia mudou a rotina dos moradores. Eles sonharam com  empregos, mas poucos se concretizaram. A disputa pela terra se acirrou, o espaço para plantar diminuiu. O jeito passou a ser comprar comida. Os modos de vida se alteraram, as relações foram atropeladas. E, como resultado, as comunidades vivem hoje uma nova tragédia: em troca de alimento, há famílias que oferecem até suas filhas a operários da mineração. A prostituição infantil passou a ser uma triste realidade no quilombo.

A denúncia foi feita recentemente no Fórum Brasileiro de Segurança e Soberania Alimentar (FBSSAN), em junho, pelo Grupo de Mulheres Negras Malunga. Desde então, de acordo com a organização, nada mudou e a situação só se agrava. O caso se perde em meio a outros que se multiplicam Brasil afora, invisíveis frente à euforia das estatísticas que mostram a redução da fome em nível nacional. Segundo a ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), o número de  22,8 milhões de pessoas em 1992 com fome caiu para 13,6 milhões em 2012. A mudança foi significativa, pois, em 1990, 15% dos brasileiros passavam fome. Hoje, são 6,9%.  Procurado pelo Canal Ibase, o MDS disse não ter os dados das áreas específicas onde há insegurança alimentar, sugerindo que se procurasse o IBGE.

                                           

Os dados recentes poderiam ser festejados, já que a economia brasileira é a sétima do mundo em termos de Produto Interno Bruto e, em alguma medida, isso se reverteu em mudança social. Mas, ao seguir à risca um modelo de desenvolvimento excludente, surge um anticlímax: o país se expõe a um vexame quando se verifica a  persistência da fome em algumas regiões. O que vem à tona claramente sobre o tema é que o Norte e o Nordeste apresentam quadros de insegurança alimentar incompatíveis com a riqueza nacional. Nessa geografia da fome atual, existem territórios em que populações vivem situações gravíssimas, como afirma Francisco Menezes, pesquisador do Ibase e referência nacional no tema:

–  Eu diria que os que estão em pior situação atualmente são os indígenas. Em muitas regiões, perderam suas terras (com a chegada da soja, cana, etc), foram muito violentados em sua cultura e vivem situações de calamidade, ao qual o Estado pouco ou nada contribui – diz Menezes, fazendo um contraponto à euforia das estatísticas.

Na Terra Indígena Governador, no município de Amarantes, a 700 km da capital maranhense, o problema da fome está associado ao conflito com latifundiários do agronegócio e, consequentemente, à dificuldade de acesso à terra. Como o Brasil nunca consolidou uma reforma agrária de fato, há muitas comunidades abandonadas pela ausência de garantia do território pelo Estado. Segundo Joaquim Cardoso, morador da TI de Governador e membro do comitê gestor da Fundação Nacional do Índio (Funai), há muitos indígenas sofrendo por escassez de alimentos:

– A falta de acesso à terra no país é uma das causadoras da fome. Sem regularização de terras, o governo deixa que as batalhas continuem. Os pequenos, claro, continuam perdendo. Há índios na beira da estrada, sem ter onde plantar e sem dinheiro para comprar – contou Joaquim em entrevista ao Canal Ibase.

Nordeste é maior foco da fome no país

A situação dos índios só ganhou visibilidade com o anúncio de um possível suicídio coletivo dos Guarani-Kaiowa, um ano atrás. Mas a situação permanece inalterada lá e em muitos outros territórios indígenas espalhados pelo país.

A professora Sandra Maria Chaves dos Santos, da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia, afirma que os dados dos últimos 20 anos deixam clara a diminuição da fome do país, mas isso não é justificativa, enfatiza ela, para deixar de combatê-la. Ela estuda o tema na região Nordeste e afirma que, em Sergipe, por exemplo, houve melhora. Mas a insegurança alimentar continua grave em outros estados.

– E como serão os resultados do próximo censo do IBGE em relação à fome, levando-se em conta que a seca da região já dura quase três anos? – ressalta ela.

No Vale do Jiquiriçá, a professora fez uma pesquisa com base  na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) e de um questionário socioeconômico. O resultado é que, de 2.002 domicílios, constatou-se  insegurança alimentar em 70,3%, com predomínio da insegurança grave e moderada (36,0%) em nove municípios.

– Há que se chamar atenção quanto às estatísticas do Censo de 2010. Embora tenha havido uma redução importante da fome, o que se vê nos dados é a manutenção das desigualdades regionais. O problema é estrutural. Quanto menor o nível de escolaridade, por exemplo, maior é o risco de insegurança alimentar – diz ela.

No contexto atual, em que muitas populações estão na iminência de perder acesso à terra com a chegada de megaempreendimentos e a expansão do agronegócio, a situação se agrava. É o que afirma o coordenador-executivo da Action Aid Brasil, Adriano Campolina: – As obras de infraestrutura no Brasil estão gerando novas pobrezas, com a expulsão das pessoas de seus locais de origem. Precisamos reverter isso, que também ocorre em função dos megaeventos esportivos: a Copa e as Olimpíadas.

A presidente  do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Maria Emília Melo, diz que o desafio é frear esse processo.

– É preciso investir na agricultura familiar, no banimento do uso de agrotóxicos. Há um conjunto articulador de políticas que está diretamente relacionado à segurança alimentar. O alimento tem que ser visto como direito humano e não como mercadoria.

Para Maria Emília, a soberania alimentar ainda não foi alcançada no país. Isso, prevê a presidente do Consea, só ocorrerá quando todos os povos tiverem direito de estabelecer suas políticas do direito humano à alimentação.

– É preciso pensar a produção, a distribuição e o acesso ao alimento. E não adianta apenas comer, é preciso saber quais alimentos estão chegando à mesa dos brasileiros. O Brasil assiste neste momento, por exemplo, ao aumento do sobrepeso. E há casos que combinam subnutrição com sobrepeso devido à baixa qualidade dos alimentos.

Há pesquisadores que questionam, inclusive, se alguns alimentos superprocessados devem ser chamados de alimentos.

A professora Inês Rugani, do Departamento de Nutrição da Uerj, vê um um aspecto dramático no país, que aparece também no programa Bolsa Família. Ela alerta que famílias cuja renda é mais baixa estão adquirindo o hábito de  comprar alimentos processados, a fim de consumir produtos semelhantes aos da classe média.

– A qualidade da alimentação cai muito, e a consequência na saúde é direta, como o aumento da diabetes. Um grande exemplo são os refrigerantes. Os mais baratos são ainda mais nocivos do que os mais divulgados pela propaganda maciça.

As pessoas a que Rugani se refere ao menos são beneficiadas por políticas públicas, como o Bolsa-Família. Mas há aquelas que ainda sofrem de privação.

– Ainda se morre de fome no Brasil – afirma Francisco Menezes.

Foto: Anna Clarice Almeida

Fonte: IHU – Unisinos

Sistema alimentar sustentável é vital para o fim da fome


O Dia Mundial da Alimentação foi comemorado na última quarta-feira, 16 de outubro, tendo a sustentabilidade como tema (relembre aqui e aqui o que o foi postado no IS sobre o tema) . A data também marca o aniversário da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, fundada em 1945.

Para a FAO, pessoas saudáveis dependem de sistemas de alimentação saudáveis. Em mensagem sobre o dia, o diretor da agência, José Graziano da Silva, lembrou que o total de pessoas que passam fome no mundo diminuiu, mas 842 milhões ainda sofrem de fome crônica.

“Podemos ir mais longe, erradicando a fome no Brasil e no mundo. Porque quando nós falamos de fome, o único número que podemos aceitar é zero. A agricultura familiar tem um papel essencial nessa luta. O setor é um dos maiores produtores e fornecedores de alimentos no Brasil e na grande maioria dos países em desenvolvimento. Ainda assim, permanecem em muitos casos uma grande brecha entre a produção e o potencial que pode ser explorado.”

Acesso

A FAO alerta para a degradação da natureza, causada por modelos insustentáveis de desenvolvimento, que ameaçam ecossistemas e biodiversidade.

Segundo a agência, a produção e o processamento dos alimentos são feitos pelo ambiente, pessoas, instituições e agricultura.

Por isso, a agência da ONU destaca que todo aspecto do sistema alimentar tem um efeito na disponibilidade e no acesso a produtos diversos e nutritivos e em consequência, na habilidade dos consumidores em poder seguir uma dieta saudável.

A FAO destaca que o Dia Mundial da Alimentação é uma oportunidade de explorar essas questões e serão realizados vários eventos na sede da agência em Roma, na Itália, incluindo um debate de alto nível sobre o desperdício de comida.

(Rádio ONU)

Foto: Reprodução.

Fonte: Mercado Ético