Brasil poderia produzir um terço de energia de Itaipu a partir do lixo


  • Alexandre Marchetti/ Itaipu Binacional

    Brasil teria capacidade para gerar 1/3 da energia elétrica de Itaipu (foto) com resíduos orgânicos

    Brasil teria capacidade para gerar 1/3 da energia elétrica de Itaipu (foto) com resíduos orgânicos

O Brasil tem potencial de produzir 37 milhões de megawatts de energia por meio do biometano, um gás que pode ser obtido a partir da degradação de materiais orgânicos presentes no lixo. Isso equivale a pouco mais de um terço da energia gerada por ano na usina hidrelétrica de Itaipu, no Paraná. Isso é o que indica um estudo feito pela Abiogás (Associação Brasileira de Biogás e Biometano).

O curioso é que o biometano já é produzido no Brasil e desperdiçado –em aterros sanitários, é comum ver tubulações para a saída dos gases. E pior, o gás (CH4) é 21 vezes mais poluente do que o gás carbônico (CO²) e, mesmo assim, é emitido na atmosfera. A sua utilização como fonte de energia eliminaria esse problema ambiental.

"O biometano pode ser usado como fonte de energia para produzir energia elétrica através de um gerador, pode ser usado como combustível veicular exatamente da mesma forma como o gás natural. E também pode ser usado em caldeiras, produzindo calor", explica o pesquisador Odorico Konrad, professor da Univates e doutor em Engenharia Ambiental e Sanitária pela Universidade de Leoben, na Áustria.

Nas contas da Abiogás, a produção anual de biometano poderia chegar a 23 bilhões de metros cúbicos no Brasil. A maior parte, 12 bilhões de metros cúbicos, viria de resíduos da cana-de-açúcar usada na produção do álcool. Outros 8 bilhões de metros cúbicos seriam produzidos com rejeitos agrícolas e dejetos de animais como porcos, bovinos e aves. E, finalmente, 3 bilhões de metros cúbicos, oriundos do saneamento urbano, ou seja, do lixo orgânico e dos esgotos domiciliares e industriais.

No entanto, hoje em dia o uso do biometano como fonte de energia é quase inexistente. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Brasil usa pouco mais de 0,05% do gás na matriz energética.

E por que não usamos?

Os problemas, segundo o presidente da Abiogás, Cícero Bley Jr, são vários. Por ausência de normas não há confiança no biometano –o que ele considera um erro– e o modelo de produção de energia por biometado é descentralizado, o oposto do utilizado nas outras fontes energéticas. 

"As empresas de distribuição de energia têm um encaminhamento para grandes negócios de energia. O biogás não se aplica dessa maneira. Está colocado no território de maneira descentralizada. Isso é difícil para o setor elétrico nacional."

O biometano seria um negócio de pequenos investidores, pois seriam necessários biodigestores próximos aos locais onde estão os resíduos. O professor Konrad cita como exemplo o caso alemão. "A Alemanha tem hoje mais de 8.000 biodigestores instalados produzindo energia." 

Bley lembra que, por não ser negócio grande, o biometano "fica fora das grandes discussões do governo".

Investimento 

De acordo com o estudo da Abiogás, o custo desta forma de energia é de 30% a 40% mais baixo do que o que atualmente gastamos. Para se ter uma ideia, a produção de 1 megawatt de energia com biometano custa R$ 2,5 milhões, contra R$ 3 milhões com uma microcentral hidrelétrica e R$ 5 milhões com a solar.

Os custos de implantação de um biodigestor varia conforme o volume de gás a ser produzido, afirma Bley. O retorno do investimento, segundo ele, se dá em um período entre cinco e sete anos.

Aos poucos, e com iniciativas independentes, o biometano vai sendo utilizado no país. Recentemente, um ônibus foi movido em Itaipu com biogás gerado por galinhas.

"Percorremos 3 mil km com esse combustível. Vindo de 100 km de distância de Itaipu. Esse ônibus com motor a 100% de biogás andou sem nenhum problema. Itaipu comprou 40 carros Siena tetrafuel, disponível no mercado, com gás natural comprimido. Em vez disso, colocamos o biometano comprimido", contou Bley.

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Sol produz gelo na Amazônia: energia solar é usada para conservar alimentos12 fotos

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8.out.2015 – Francisco da Silva Vale, 61, posa com bloco de gelo produzido com a energia gerada por painéis solares instalados em Vila Nova do Amana, em uma reserva sustentável no Estado do Amazonas. Os painéis foram instalados dentro do projeto Gelo solar, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua em conjunto com pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo). Com a maior geração de energia, a comunidade passou a produzir 90 quilos de gelo diariamente para a conservação de alimentos, bombear água para as casas e garantir a iluminação para o campo de futebolVEJA MAIS >Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Fonte: UOL

Prorrogação dos lixões: um retrocesso ambiental e social


Prorrogação dos lixões: um retrocesso ambiental e social. Entrevista especial com Antonio Silvio Hendges

 

“A irresponsabilidade pública em relação aos resíduos sólidos terá uma sobrevida considerável se o Projeto de Lei 425/2014 for aprovado pela Câmara e sancionado pelo Executivo”, adverte o biólogo.

 

Foto: cempre.org.br
 

Apesar de a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRSter determinado 2014 como o ano limite para extinguir todos os lixões existentes no país, alguns Projetos de Lei, a exemplo do PLS 425/2014, aprovado pelo Senado, sugerem a alteração dos artigos 54 e 55 da legislação, permitindo a prorrogação do fechamento dos lixões para 2021. Na avaliação de Antonio Silvio Hendges, caso aprovado, o PL representará um “retrocesso na legislação, na agenda ambiental e nas perspectivas do desenvolvimento sustentável no curto e médio prazo no país”, porque a “gestão e o gerenciamento adequado dos resíduos são fundamentais às políticas públicas de saúde, saneamento básico, assistência social, geração de renda, prevenção de enchentes e muitos outros aspectos relacionados aos ambientes urbanos”.

 

Segundo Hendges, a “justificativa” de prefeitos e suas entidades representativas, a qual foi aceita pelos senadores, é a de que os prazos estipulados pela PNRS, sancionada em 2010, são “curtos à adequação, insuficiência de recursos financeiros, dificuldades para a contratação de recursos humanos e quadros técnicos/gerenciais qualificados, diferenças regionais e deficiências de infraestrutura”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, o biólogo frisa que o PL “não contribui para a afirmação de perspectivas positivas e possivelmente será um entrave ao desenvolvimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos, atrasando consideravelmente ou mesmo inviabilizando a sua implantação”. Politicamente, contudo, “é um descaso com os administradores e municípios que se adequaram e/ou buscavam esta perspectiva e um prêmio aos omissos, aos que apostam sempre em deixar como está para ver como fica”.

Antonio Silvio Hendges é graduado em Biologia pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci – Uniasselvi-SC e especialista em Auditorias Ambientais pela Universidade Candido Mendes-RJ. Atualmente é professor de biologia e presta assessoria em educação ambiental e resíduos sólidos.

Confira a entrevista.

 

Foto: Nahiene Alves / IHU
 

IHU On-Line – Como analisa o PLS 425/2014, que sugere a ampliação do prazo para que a União ofereça apoio técnico e financeiro a estados e municípios na elaboração dos planos de saneamento básico e resíduos sólidos? Em que contexto surge essa proposta?

 

Antonio Silvio Hendges – Este projeto aprovado pelo Senado e que será analisado na Câmara dos Deputados alterou os artigos 54 e 55 da Lei 12.305/2010 — Política Nacional de Resíduos Sólidosque determinou até agosto de 2014 para a extinção dos lixões no país, com o encaminhamento dos rejeitos para aterros sanitários após coleta seletiva, reúso quando possível, reciclagem e compostagem, gestão, gerenciamento e tratamento adequado dos resíduos, inclusive tecnológicos como os eletroeletrônicos, eletrodomésticos, baterias, lâmpadas, embalagens em geral, construção civil e outros, além de projetos e programas de educação ambiental. A aprovação do projeto original nº 425/2014 da Subcomissão Temporária de Resíduos Sólidos foi sugerida pela Comissão Especial do Pacto Federativo, e uma emenda apresentada ao plenário pelo Senador Fernando Bezerra Coelho(PSB) e defendida pela Relatora Vanessa Grazziotin (PCdoB) estabeleceu prazos escalonados de acordo com o tamanho e a localização dos municípios, que variam entre 2018 e 2021.

Pelo projeto, a extinção dos lixões será prorrogada nas capitais e regiões metropolitanas até 31 de julho de 2018 com ampliação sucessiva de um ano para os demais municípios: em fronteiras e municípios com mais de 100 mil habitantes pelo Censo 2010 do IBGE, até 2019; entre 50 e 100 mil habitantes, até 2020; com menos de 50 mil habitantes, até2021. A justificativa dos prefeitos e suas entidades representativas, como a Confederação Nacional dos Municípios, aceita pelos senadores, foram os prazos curtos à adequação, insuficiência de recursos financeiros, dificuldades para a contratação de recursos humanos e quadros técnicos/gerenciais qualificados, diferenças regionais e deficiências de infraestrutura.

Esta é a proposta que tem a simpatia do Executivo e que possivelmente será aprovada na Câmara dos Deputados. Outras propostas aprovadas anteriormente pela Câmara foram vetadas pelo Executivo.

IHU On-Line – A prorrogação do fim dos lixões para 2021 deve ser vista de que modo?

Antonio Silvio Hendges – Como um retrocesso na legislação, na agenda ambiental e nas perspectivas do desenvolvimento sustentável no curto e médio prazo no país. A gestão e o gerenciamento adequado dos resíduos são fundamentais às políticas públicas de saúde, saneamento básico, assistência social, geração de renda, prevenção de enchentes e muitos outros aspectos relacionados aos ambientes urbanos. Este projeto não contribui para a afirmação de perspectivas positivas e possivelmente será um entrave ao desenvolvimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos, atrasando consideravelmente ou mesmo inviabilizando a sua implantação.

Politicamente, é um descaso com os administradores e municípios que se adequaram e/ou buscavam esta perspectiva e um prêmio aos omissos, aos que apostam sempre em deixar como está para ver como fica.

 

Fonte: fundacaoverde.org.br
 

IHU On-Line – Qual tende a ser o impacto dessa prorrogação? Vislumbra impactos ambientais, sociais ou de outra ordem?

 

Antonio Silvio Hendges – Todos os impactos ambientais, sociais e econômicos decorrentes dos lixões e outros relacionados com a gestão inadequada dos resíduos continuarão presentes e com tendência ao agravamento se considerarmos o aumento do consumocomo tendência macro. A contaminação de amplas áreas, incluindo-se os recursos hídricos, o desperdício de recursos, os problemas de saúde pública, a inadequação das atividades doscatadores, a ausência de projetos de coleta seletiva, reciclagem e responsabilidade compartilhada, a inexistência de programas de educação ambiental, as deficiências na fiscalização e a irresponsabilidade pública em relação aos resíduos sólidos terão uma sobrevida considerável se este projeto for aprovado pela Câmara e sancionado pelo Executivo.

Também é possível que aconteça uma desestruturação nos projetos em desenvolvimento ou ainda não consolidados, desorganizando aspectos importantes da gestão e gerenciamento dos resíduos em alguns municípios, principalmente naqueles que buscavam a adequação e a consolidação de políticas públicas de gestão e gerenciamento adequados.

ampliação dos prazos não garante que os municípios adequar-se-ão aos aspectos legais, que vão além da erradicação dos lixões, estabelecendo diretrizes que tornam os resíduos sólidos bens econômicos com reintrodução nas cadeias produtivas, geração de recursos financeiros e desenvolvimento econômico/socioambiental.

IHU On-Line – Por que se chegou ao ponto de prorrogar o fim dos lixões para essa data? O que isso demonstra sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a dificuldade dos municípios em implementar as medidas determinadas pela PNRS?

Antonio Silvio Hendges – A justificativa para esta ação, por parte das organizações representativas dos municípios e dos senadores, foram os prazos curtos, a falta de recursos financeiros, as dificuldades técnicas, a inexistência de recursos humanos técnico-gerenciais e outras limitações de infraestrutura. Em parte, há razões para esta argumentação, mas considero que o principal fator foi mesmo a ausência de prioridade nesta área: não existiu uma motivação e um entendimento por parte dos administradores de que a gestão adequada dos resíduos é um diferencial importante e que contribui para a melhoria dos ambientes urbanos em diversos níveis, não apenas nos aspectos imediatos. As opções administrativas foram por outras prioridades, outros investimentos, não nas políticas públicas de saneamento e gestão dos resíduos.

A descaracterização das diretrizes originais da Política Nacional de Resíduos Sólidos quanto aos planos de gestão e o fim dos lixões comprometerá outros aspectos e abrirá espaço para novas mudanças sempre que não forem priorizadas pelas administrações municipais as políticas públicas de saneamento. Quanto aos recursos financeiros e apoio técnico, um parágrafo na nova lei estabelece que a União edite normas complementares e defina critérios de acesso aos recursos federais, dispositivo que pode desmobilizar os municípios que ficarão aguardando a edição destas normas e a disponibilidade dos recursos para desenvolverem suas ações. Espera-se que se o projeto for aprovado, estas normas sejam editadas imediatamente e que os recursos disponibilizados sejam suficientes às expectativas criadas.

Fonte: fundacaoverde.org.br

IHU On-Line – Como essa proposta foi recebida pelos municípios do Rio Grande do Sul e qual é a situação dos municípios em relação aos lixões?

Antonio Silvio Hendges – No Rio Grande do Sul são poucos os municípios que ainda descartam os resíduos em lixões. Pelas informações que disponho, são apenas cinco municípios atualmente: Uruguaiana, Ipiranga do Sul, Santa Margarida do Sul, São Gabriel e Tupanciretã. O lixão de Viamão, na região metropolitana, foi transformado em um aterro controlado de acordo com informações da prefeitura. Isso é um pouco melhor que a disposição em um lixão, principalmente se existir uma triagem prévia dos recicláveis. Evidentemente que existem locais clandestinos em que são descartados resíduos diversos, como os da construção civil, por exemplo.

Os maiores problemas em relação aos lixões estão nas regiões Nordeste, Norte e Centro Oeste, onde não há universalidade no recolhimento, as iniciativas de coleta seletiva inexistem ou são limitadas, as prefeituras têm deficiências administrativas e estruturais enormes, a comunicação e a educação ambiental relacionada aos resíduos são bastante precárias.

IHU On-Line – Quais ainda são os problemas centrais relacionados à gestão dos resíduos sólidos?

Antonio Silvio Hendges – Sem dúvida, a inadequação da maioria dos municípios brasileiros aos aspectos legais é o principal entrave à gestão eficiente dos resíduos sólidos no país. A inexistência dos planos de gestão e gerenciamento e de diagnósticos adequados aos diversos resíduos produzidos — urbanos, construção civil, industriais, saúde e outros — dificultam a gestão e inclusive a sua reutilização e reciclagem quando possível. A ausência de planejamento e de diretrizes também inviabilizam uma fiscalização adequada e a construção de compromissos públicos dos geradores e poderes públicos para com a disposição ambientalmente adequada.

Os investimentos em tecnologias, que permitam a gestão e gerenciamento eficientes dos diversos materiais, com escala industrial e sua transformação em bens de capital e matérias-primas, ainda são limitados, assim como a capacitação específica de profissionais nesta área, inclusive para o desenvolvimento econômico e o estabelecimento de uma indústria nacional da reciclagem.

“41% dos municípios elaboraram planos de gestão e 58% dos resíduos urbanos produzidos no país estão sendo encaminhados para aterros adequad

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Antonio Silvio Hendges – A alternativa em relação aos municípios inadequados ao final dos prazos estabelecidos nos artigos 54 e 55 da Lei 12.305/2010, inclusive não apenas em relação à existência de lixões, mas também a outros aspectos da gestão dos resíduos sólidos, é a realização de Termo de Ajustamento de Conduta – TAC com oMinistério Público, estabelecendo os critérios e diretrizes para a adequação, com metas, cronogramas, previsão de recursos humanos e financeiros e responsabilidades dos gestores municipais.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, 41% dos municípios elaboraram planos de gestão e 58% dos resíduos urbanos produzidos no país estão sendo encaminhados para aterros adequados. Em 2013 existiam reconhecidamente 1.196 lixões em atividade no país.

Por Patricia Fachin

Fonte: IHU

“Rio de lixo” ameaça população do Líbano


As autoridades da capital libanesa, Beirute, decidiram fechar um dos maiores aterros sanitários da região no meio do ano passado. O problema é que ninguém planejou um novo destino para todos os resíduos que eram despejados lá. Como resultado, as ruas da cidade observam o surgimento do que os locais estão chamando de um “rio de lixo”. De acordo com entidades locais, mais de 2 milhões de toneladas de detritos tóxicos estão a céu aberto, sem tratamento.

Segundo a rede de notícias CNN, o lixo começou a se acumular na cidade no início de novembro, meses após o fechamento do aterro. Com o passar dos meses o volume foi só aumentando e a população começou a protestar por alguma solução, mas tudo que receberam de volta foram duras repressões dos militares. “Este costumava ser um lugar tão bonito, mas olhe agora, Nós não conseguimos mais nem caminhar por aqui”, reclama um morador à CNN.

A maior preocupação dos cidadãos é com a contaminação que o lixo potencialmente representa. Especialistas libaneses já alertaram que a chuva pode carregar toxinas e contaminar o lençol freático, prejudicando o fornecimento de água da cidade. Enquanto o Governo não toma nenhuma atitude, a população começou a queimar os resíduos para se ver livre deles, mas a iniciativa precisou parar uma vez que a fumaça liberava partículas cancerígenas no ar. “Doenças, câncer, nós estamos morrendo aqui. Olhe para o que eles estão fazendo. A solução é que morrer lentamente”, queixa-se outro local.

Imagens: Reprodução

Fonte: POP

A brasileira que está há 1 ano sem produzir lixo


 

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Quando sente a necessidade de comprar algo, Cristal pensa duas vezes e reflete se é possível reutilizar algo que já tem, pedir emprestado ou comprar de segunda mão
Fotos: Cristal Muniz

Muito se fala na destinação adequada dos resíduos sólidos e na reciclagem, mas pouco se comenta a respeito da importância de evitarmos a produção de lixo, o que seria possível com informações de qualidade, consumo consciente e determinação.

Um bom exemplo é o da designer catarinense Cristal Muniz, de 24 anos, que está há praticamente um ano sem produzir resíduos.

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Engajada com as práticas ambientalmente corretas, Cristal soube que algumas pessoas pelo mundo já estavam fazendo esse experimento de estilo de vida sustentável. Depois de muito pesquisar sobre o assunto, decidiu mudar seus hábitos de consumo e, aos poucos, conseguiu reduzir drasticamente a quantidade de lixo que produz. "Eu compro quase todas as comidas de casa a granel, então evito essas embalagens. Evito também a produção de lixo fora de casa sempre tendo comigo guardanapos de pano, copinho reutilizável e talheres", contou a jovem.

A política do lixo zero veio com hábitos novos e mais sustentáveis, como o uso de produtos naturais para a limpeza da casa e cosméticos – óleos vegetais, argila e chá substituíram os cremes, por exemplo. Hoje, quando sente a necessidade de comprar algo, Cristal pensa duas vezes e reflete se é possível reutilizar algo que já tem, pedir emprestado ou comprar de segunda mão. "Comprar menos é uma das principais metas", afirma.

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A designer compartilha suas experiências no site Um Ano Sem Lixo, onde também dá dicas para quem quer levar uma vida mais sustentável. Segundo ela, fácil não é, mas mudar aos poucos e sentir o impacto dessas escolhas no dia a dia é o melhor caminho.

Depois da água, gestão do lixo pode ser o novo foco de crise no Brasil


Geração do lixo no país aumentou cinco vezes mais do que o crescimento populacional

Um café com leite e um pão com manteiga iniciam o dia de milhares de brasileiros. O preço do pãozinho subiu. O do café também. E o banho matinal está mais curto por causa da crise hídrica. Fora isso, a vida segue. Ninguém se pergunta para onde vai o pote de manteiga quando seu conteúdo acabar, tampouco o que fazer com o resto de café no coador ou com a embalagem de leite. E esse será o centro de uma nova crise, caso o poder público e a população não se mobilizem.

O cenário é crítico. Só no Brasil, no ano passado, 30 milhões de toneladas de lixo foram parar nos lixões, que são aterros considerados inadequados e oferecem risco ao meio ambiente e à saúde. Esse número representa 40% do total de lixo gerado no país neste ano. Os dados fazem parte de um levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Sólidos (Abrelpe). “São cerca de 80.000 toneladas de lixo poluindo solo e água diariamente”, afirma Ednilson Viana, professor da USP e membro do Conselho de Curso de Gestão Ambiental. “As pessoas não têm noção do que isso significa”.

Para Viana, os números apontam para um possível colapso em um futuro não muito distante. “Estamos a caminho de uma situação crítica, como a situação da água. A próxima crise será a do lixo”, diz. E os passos dados pelo poder público nesse âmbito também são lentos. Em 2010, foi instituída a Lei Nacional de Resíduos Sólidos, que, dentre outras coisas, estabelecia que os municípios entregassem, até agosto de 2012, um plano de gestão para o lixo. Também concedia o prazo de agosto de 2014 para que as cidades acabassem com os lixões.

Nenhum dos dois prazos foi cumprido. Por isso, em julho deste ano, o Senado aprovou a prorrogação desse tempo, dividindo as datas para os diferentes tamanhos de cidades. Com a nova norma, as capitais e municípios de regiões metropolitanas têm até 31 de julho de 2018 para acabar com os lixões. As cidades com mais de 100.000 habitantes terão até o final de julho de 2019. Já os municípios entre 50.000 e 100.000 habitantes têm até 31 de julho de 2020, e os com menos de 50.000 habitantes têm até julho de 2021.

E essa é apenas uma das legislações decorrentes sobre o tema. Desde 1979 o Brasil condena o descarte em lixões e desde 1981 a poluição ambiental é considerada crime. Desde 1998 é necessário obter licenciamento ambiental para o descarte de materiais, algo distante da realidade dos lixões.

Para Marcelo Antunes Nolasco, professor em Sustentabilidade e pesquisador da USP, a aprovação da Lei de Resíduos Sólidos significou um marco regulatório importante para o país. Porém, faltou estrutura para que a norma fosse levada a sério. “O poder público federal não realizou um trabalho prévio adequado com as esferas estaduais e municipais e tampouco criou instrumentos econômicos que pudessem fazer caixa para as prefeituras adotarem as medidas adequadas para a disposição final de resíduos sólidos”, diz.

Segundo Nolasco, embora as leis não estejam sendo cumpridas, é difícil aplicar alguma pena por isso. “Dada a complexidade da questão e as dificuldades dos gestores públicos municipais em acessarem recursos, dificilmente poderia se dizer que os prefeitos que não cumpriram a lei sejam criminosos”, diz. “Mas essa é outra questão. O ponto é: o que os gestores públicos estão fazendo hoje, para que em 2019 não tenhamos mais surpresas negativas?”.

Além de legislações mais firmes e que se façam cumprir, é preciso que o poder público desenvolva políticas capazes de engajar a população para solucionar o problema. “Do total de resíduos sólidos no Brasil, 32% poderiam ser reciclados”, afirma Carlos Silva Filho, diretor presidente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). “Atualmente e efetivamente, porém, são reciclados apenas 4%”.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/01/politica/1443722260_724627.html

Laísa Mangelli

As emissões que vêm das nossas latas de lixo


"Das 27 capitais brasileiras 16 têm aterros. Mas o próprio Distrito Federal mantém há décadas em área nobre, a 15 quilômetros do Palácio do Planalto, o chamado 'lixão da Via Estrutural', que ocupa 174 hectares, onde trabalham 2,5 mil catadores de resíduos", escreve Washington Novaes, jornalista, em artigo, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-08-2015.

Segundo ele, "nem seria o caso de falar do desperdício de recursos que estão no lixo. Nem na inacreditável perda de alimentos jogados fora. A ONU assegura que um terço dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados – quando 800 milhões de pessoas passam fome. Nos Estados Unidos, 34 milhões de toneladas de comida são jogadas no lixo todo ano. É estarrecedor".

Eis o artigo.

A divulgação de relatórios sobre emissões de gases do efeito estufa pelo ICLEI (Local Governments for Sustainability)- SEEG tem permitido análises importantes para o País nos setores de energia e uso de produtos, agropecuária e resíduos. São análises que podem orientar rumos que o Brasil precisa seguir em suas atividades, para reduzir seu indesejável papel de um dos maiores produtores no mundo de metano, óxido nitroso e dióxido de carbono – segundo o Banco Mundial, em três décadas nossas emissões cresceram três vezes acima do crescimento da população.

São conhecimentos decisivos nestes tempos de graves problemas. Só a agropecuária global responde por 10% a 12% das emissões – embora a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU) avalie que essa participação pode aumentar muito, com o crescimento da demanda por alimentos (mais 15% a 40%), nas próximas décadas. E o Brasil é o segundo maior emissor na agropecuária, com 1,56 bilhão de toneladas anuais de dióxido de carbono, número que pode dobrar se incluídas as emissões por desmatamento e uso de combustíveis fósseis no setor.

O setor de energia teve a maior taxa média de crescimento anual entre 1990 e 2013. E a área de resíduos, que inclui a disposição no solo e incineração, bem como o tratamento de efluentes domésticos e industriais, em 2013 emitiu 48,73 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Materiais orgânicos em aterros e lixões intensificam a ação de bactérias, a decomposição e a geração de metano – da mesma forma que os esgotos domésticos, com alto teor de matéria orgânica, e os efluentes industriais, com seu conteúdo orgânico em muitos produtos, entre eles cervejas, leite cru, papel, etc.

É preciso dar atenção especial ao setor de resíduos, que merece poucas análises quando se trata de emissões e clima, embora já responda por 3,11% do total de emissões. O crescimento médio das emissões entre 1970 e 2013 foi de 2,66% ao ano, mais acentuado a partir de 1989, com pico de 6,22%. Nas emissões por Estados, o crescimento médio foi maior em São Paulo (19,25%), Minas Gerais (9,39%), Paraná (7,68%), Rio Grande do Sul (7,12%) e Rio de Janeiro (6,54%).

No Brasil, a produção diária de resíduos chega a 1,06 quilo por pessoa – ou seja, mais de 200 mil toneladas diárias. E somos o quinto maior gerador de resíduos. Mas, segundo a Confederação Nacional de Municípios, apenas nove cidades concluíram no prazo a primeira fase da eliminação de lixões, obrigatória pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. Metade dos 2.400 municípios consultados nem sequer planos tinha – e eles eram obrigatórios para pleitear recursos federais.

Há quem estime em R$ 70 bilhões os recursos necessários para dar fim aos lixões. Mas como se fará se o Ministério das Cidades, a maior fonte provável deles, foi um dos que mais corte sofreu na recente revisão do Orçamento da União, mais de R$ 17, 23 bilhões?

Ainda a Confederação Nacional de Municípios calculou no ano passado que 61,4% dos municípios consultados tenham enviado resíduos para aterro; os restantes, para lixões. Das 27 capitais brasileiras 16 têm aterros. Mas o próprio Distrito Federal mantém há décadas em área nobre, a 15 quilômetros do Palácio do Planalto, o chamado “lixão da Via Estrutural”, que ocupa 174 hectares, onde trabalham 2,5 mil catadores de resíduos e é o maior depósito de lixo a céu aberto no País. O autor destas linhas – como já foi relatado aqui – teve uma experiência pessoal no início da década de 1990: quando, secretário de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia, fez um plano diretor para o lixo deBrasília, que previa a eliminação do depósito da Via Estrutural, a destinação de todos os resíduos para um aterro e uma usina de reciclagem adequados. A oposição foi brutal, de vários setores, e impediu a concretização.

Entre 50% e 55% do lixo urbano produzido no Brasil são resíduos orgânicos, que podem ser compostados e transformados em adubo para várias áreas – não a de alimentos, por causa de resíduos de metais pesados. Seria um ganho enorme, porque hoje a maior ocupação de áreas de aterros é com o lixo orgânico e a compostagem é mínima.

Plásticos respondem por 13,5% do total do lixo; papel, papelão e tetrapak por 13,1%; vidro por 2,4%; metais por 2,9%; e outros resíduos por 16,7%. Junto com o lixo orgânico, parcelas importantes desses outros resíduos poderiam ser reduzidas em mais de 50% – segundo a associação das empresas do setor. E isso significaria liberar parte importante dos aterros, já que, somando aos orgânicos, são 83%. Ainda é preciso lembrar que poderá haver aumento no lixo com o final, em 2018, da televisão analógica, que implicará alto descarte – embora a legislação preveja destinação especial para esse tipo de resíduo.

Infelizmente, o tema do lixo ocupa lugar desprezível – quando ocupa – nas áreas administrativa e política. Estados e municípios acham que cabe ao governo federal fornecer-lhes recursos e não os conseguem, em geral, quando pleiteiam. Não querem cobrar dos cidadãos, que rejeitam uma nova taxação – como aconteceu na cidade de São Paulo, onde foi criada e abolida depois de pouco tempo. Os cidadãos acham que já pagam pelos trabalhos com o lixo, quando fora daqui o que se vê é que só foram encaminhadas soluções nos países que criaram uma taxa proporcional a todo o lixo gerado, nas residências, no comércio, nas indústrias, em toda parte. Mas nossos administradores temem perder a aprovação e votos se enveredarem por aí.

Nem seria o caso de falar do desperdício de recursos que estão no lixo. Nem na inacreditável perda de alimentos jogados fora. A ONU assegura que um terço dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados – quando 800 milhões de pessoas passam fome. Nos Estados Unidos, 34 milhões de toneladas de comida são jogadas no lixo todo ano. É estarrecedor.

Fonte: IHU

Fim dos lixões


Fim dos lixões Volta a Ser cobrado Pela ministra do Meio Ambiente – 

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, reforçou na quinta-feira, 28 de maio, a importância de um trabalho conjunto nas cidades brasileiras para garantir o encerramento dos “lixões” – forma inadequada de disposição final de resíduos, que se caracteriza pela simples descarga do lixo sobre o solo, sem medidas de proteção ao meio ambiente ou à saúde pública.

O posicionamento foi defendido em rodada de debates do último dia da 18ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios. Questões como o tamanho e a população residente nas cidades devem ser levadas em consideração. “É intolerável que o país ainda lide com o lixo dessa forma”, declarou a ministra. Para ela, a gestão dos resíduos deve priorizar, também, a recuperação de áreas degradadas e a promoção da qualidade de vida. “Os caminhos precisam buscar essa conversão”, explicou.

A ministra ressaltou o engajamento de todos os envolvidos com o assunto. De acordo com Izabella, há um esforço generalizado dos governos locais para efetivar o encerramento dos lixões. “Essa agenda traz soluções que dialogam com todo o país e tenho visto todas as instâncias da administração envolvidas com a pauta”, analisou. “É preciso ter um olhar diferenciado.”

Saiba mais

A Lei Federal nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). De acordo com a legislação, o prazo para fechamento dos lixões acabou em agosto de 2014. Desde então, os rejeitos precisam ter uma disposição final ambientalmente adequada. Além disso, as áreas ocupadas anteriormente pelos lixões precisam ser isoladas e recuperadas.

Deixar de encerrar os lixões gera insegurança jurídica para os municípios. Segundo a Lei de Crimes Ambientais, quem causar poluição que possa resultar em danos ao meio ambiente, incluindo a disposição inadequada de resíduos sólidos, pode levar multa de R$ 5 mil a R$ 50 milhões.

Os responsáveis poderão ser responsabilizados e é de competência constitucional que os municípios organizem e prestem os serviços públicos de interesse local, entre os quais se encontra a gestão de resíduos sólidos.

(Por Lucas Tolentino, do Ministério do Meio Ambiente)

Laísa Mangelli

Vovô sírio transforma lixo em brinquedos para crianças refugiadas


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Síria enfrenta, desde 2011, uma triste guerra civil. Cerca de 10 milhões de adultos e dois milhões de crianças estão em campos de refugiados em países vizinhos. O carpinteiro Kareem, de 65 anos, vive com sua família no deserto da Jordânia. O abrigo onde mora está longe de ser confortável. Mas nada disso abala o vovô, que faz brinquedos com o que encontra no lixo para deixar a rotina de seus netos e das crianças da vizinhança mais leve.

Kareem levava uma vida agradável na Síria ao lado de seus 14 filhos. Eles eram donos de uma grande fazenda, tinham casas confortáveis e várias lojas em um vilarejo próximo à cidade de Homs. Quando a guerra começou, homens armados invadiram sua casa e ameaçaram matar sua família, a menos que ele entregasse suas economias. Foi quando decidiu abandonar tudo o que tinha construído em busca de um lugar mais seguro.

UNHCR – agência da ONU para refugiados – e diversas ONGs oferecem o necessário para que famílias como a de Kareem possam viver com o mínimo dedignidade. Os refugiados têm casa, comida e roupas. Mas não há como negar a tristeza de deixar tudo para trás. “Fora daqui tínhamos conforto, uma casa boa e limpa. Quando chegamos, estava tudo sujo”, conta ele em entrevista para a UNHCR. “Mas tudo bem. É melhor do que nada. Agora estamos acostumados e felizes. Não podemos negar isso”.

Hoje, a maior reclamação de Kareem é a falta do que fazer. E, para acabar com o problema, ele decidiu usar o tempo livre para garantir a brincadeira da criançada. “Aqui é muito entediante. A única coisa que podemos fazer é comer e dormir… ou dormir e caminhar. É bom fazer algo para manter a mente ocupada”, explica.

Kareem usa sua habilidade de carpinteiro para fabricar brinquedos. Tudo é produzido com itens encontrados no lixo, como espumas de isolamento, cordas e arames. “Fico muito feliz quando vejo meus netos e outras crianças brincarem com as coisas que faço. Meu estresse vai embora”, diz.

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Um avião se destaca entre carrinhos, bicicletas, flores e outas peças feitas por Kareem. “Não pensava em guerra quando o fiz”, explica. “Eu viajava muito a trabalho para Arábia Saudita, Bahrein, Dubai. Adorava viajar de avião. Mas a imagem que nos marcou foi a de quando as aeronaves vieram nos bombardear. Fiz este brinquedo para nos lembrarmos daqueles aviões que eu amava”. Ele espera que, com suas criações, as crianças possam se distrair, ocupar suas mentes e imaginar um futuro melhor, onde poderão pilotar e andar de carro sem medo.

“Se eu pudesse, faria brinquedos ainda melhores”, conta Kareem, cujo maior desejo é voltar para casa. “Neste momento, eu quero paz e amor de volta à Síria. Nós éramos tão felizes… Espero que a gente possa voltar para o nosso país e ter esses dias de alegria de volta”.

Fonte: Planeta Sustentável 

O resíduo se renova, enquanto o catador se desgasta


"O resíduo se renova, enquanto o catador se desgasta". Cargas de trabalho e desgaste da saúde física e mental. Entrevista especial com Tanyse Galon

“Na medida em que os catadores e catadoras buscam a sobrevivência por meio da coleta de recicláveis, dando uma característica de mercadoria ou produto vendável a algo que não tinha mais valor, eles vivenciam nesse processo várias cargas de trabalho e desgaste da saúde física e mental”, constata a enfermeira.

 

Foto: Portal EcoDebate

“Embora o trabalho dos catadores seja enaltecido pelas vantagens ambientais que proporciona, tal discurso fica apenas no campo da retórica, em especial nos discursos midiáticos e políticos”, adverte Tanyse Galon, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

 

Autora da tese de doutorado “Do lixo à mercadoria, do trabalho ao desgaste: estudo do processo de trabalho e suas implicações na saúde de catadores de materiais recicláveis”, a enfermeira analisa o outro lado do trabalho desenvolvido a partir da reciclagem, o qual, embora traga vantagens para o meio ambiente, causa um impacto direto na saúde dos catadores de resíduos recicláveis, especialmente daqueles que estão no mercado informal, já que “apenas 10% dos catadores no Brasil” atuam em cooperativas.

Na avaliação dela, “tais trabalhadores estão reduzindo gastos dos municípios com o gerenciamento dos resíduos sólidos, promovendo lucratividade às indústrias de reciclagem e reduzindo impacto ambiental desencadeado peloscomportamentos de desperdício da sociedade, sem serem de fato reconhecidos enquanto trabalhadores”. Enquanto isso, ressalta, “as ações concretas voltadas para a saúde dos trabalhadores informais ainda são defasadas”.

Entre os problemas constatados em sua pesquisa, Tanyse chama atenção para os riscos à saúde aos quais os catadores estão submetidos, desde implicações osteomusculares, por conta do peso carregado nos carrinhos de mão, acidentes de trabalho envolvendo materiais perfurocortantes, até o contato com “animais mortos, vidros, agulhas e seringas contaminadas presentes nos resíduos urbanos”. De acordo com ela, a situação é agravada “pelo fato de a sociedade não separar ou descartar corretamente tais materiais”. O “descuido no descarte dos resíduos”, frisa, aumenta a propensão de os catadores adquirirem “doenças graves, dentre elas as hepatites, o HIV e tétano”.

Tanyse Galon é bacharel em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – EERP/USP e doutora em Enfermagem pela USP. Atualmente é enfermeira no Hospital da USP / Ribeirão Preto. 

Confira a entrevista.

 

Foto: 
consumoepensamento.wordpress.com
 

IHU On-Line – Que considerações sua pesquisa “Do lixo à mercadoria, do trabalho ao desgaste: estudo do processo de trabalho e suas implicações na saúde de catadores de materiais recicláveis” faz acerca da saúde dos trabalhadores que trabalham com reciclagem?

 

Tanyse Galon – Como sintetiza o título do trabalho, os resultados da pesquisa mostraram que na medida em que os catadores e catadoras buscam a sobrevivência por meio da coleta de recicláveis, dando uma característica de mercadoria ou produto vendável a algo que não tinha mais valor (resíduos ou lixo), eles vivenciam nesse processo várias cargas de trabalho e desgaste da saúde física e mental. Ou seja, o resíduo se renova, enquanto o catador se desgasta. E, para entender a saúde dos trabalhadores, consideramos a importância de se compreender o entorno econômico, social, político e cultural que envolve nossa sociedade e que afeta o trabalho dos catadores, como, por exemplo, a cadeia produtiva da reciclagem, as políticas que envolvem o gerenciamento dos resíduos sólidos no Brasil, e a sociedade atual que se constitui como uma sociedade do consumismo e do desperdício, gerando exorbitantes produções de resíduos sem preocupações com as questões ambientais, sanitárias e sociais que tal comportamento pode gerar. Nesse sentido, a contradição se dá pelo fato de que os catadores estão desenvolvendo um papel do qual a sociedade e muitos municípios se isentam em participar ativamente, e ainda são desvalorizados por sua atividade promotora de preservação e renovação do meio ambiente.

IHU On-Line – Qual é o perfil dos catadores analisados na sua pesquisa? O que eles relatam sobre o processo de trabalho e que avaliações fazem desse processo?

Tanyse Galon – Na pesquisa que desenvolvemos, de abordagem qualitativa, foram entrevistados 23 catadores de materiais recicláveis de rua autônomos da cidade de Ribeirão Preto – SP, cujo perfil geral (dados sociodemográficos e ocupacionais) muito se assemelhou ao de outras pesquisas desenvolvidas no país, tanto de abordagem quantitativa quanto qualitativa. Grande parte dos catadores é composta de homens e mulheres adultos jovens, embora haja a presença de idosos atuando na atividade para complementar a renda da aposentadoria; pessoas com dependentes financeiros, sustentando suas famílias com a reciclagem; homens e mulheres oriundos de outras regiões, mostrando uma relação entre migração e trabalho informal; vários deles com imóvel alugado, o que aumenta as dificuldades financeiras; maioria com ensino fundamental incompleto, situação que dificulta a inserção no mercado formal de trabalho; histórico laboral de atividades pouco valorizadas (construção civil, trabalho doméstico); necessidade de conciliar a reciclagem com outras atividades laborais, considerando a renda com os recicláveis insuficiente; e por fim, a realização de um trabalho com horários flexíveis e com renda mensal muito variável, a depender da quantidade e qualidade dos materiais recicláveis coletados, além das oscilações de preço das empresas compradoras desses materiais.

IHU On-Line – A quais problemas de saúde eles estão expostos por conta das especificidades do tipo de trabalho que desenvolvem?

Tanyse Galon – Os problemas de saúde enfrentados pelos catadores em decorrência do seu contexto de trabalho são amplos, sendo que nosso estudo destacou: os problemas osteomusculares (dor na coluna e membros inferiores, câimbras, etc.) pelo peso carregado, deficiência de instrumentos laborais adequados e as longas distâncias percorridas em busca dos recicláveis; acidentes de trabalho envolvendo materiais perfurocortantes, picadas de animais peçonhentos (escorpião, etc.) e risco de atropelamento pelo trabalho nas ruas, com quedas e contusões; por fim, a ansiedade e o estresse, em decorrência da instabilidade da renda, do trabalho sem horário regular e delimitado, das vivências no trânsito com seus “carrinhos de mão”, e principalmente devido ao preconceito e desvalorização que sofrem, referindo que são comumente vistos como pessoas de má índole e não como trabalhadores de fato.

"Um dos catadores referiu transportar em torno de 980 kg por percurso de coleta, visto que, quanto mais material for encontrado, maior a renda adquirida"

IHU On-Line – Você menciona que os catadores de materiais recicláveis enfrentam cargas de trabalho biológicas, mecânicas, fisiológicas e psíquicas. Pode explicar cada uma delas?

Tanyse Galon – Dentro do referencial teórico que adotamos em nossa pesquisa, entende-se que as cargas de trabalho, geradas no interior do processo de trabalho (ou cotidiano laboral), são os elementos ali presentes que vão gerar desgaste da saúde dos trabalhadores, potencial ou estabelecido. Dentro das cargas de trabalho que os catadores enfrentam, destacamos:

1. Biológicas: contato com animais mortos, vidros, agulhas e seringas contaminadas presentes nos resíduos urbanos, situação que, segundo os trabalhadores, é agravada pelo fato de a sociedade não separar ou descartar corretamente tais materiais;

2. Mecânicas: risco de atropelamento no trânsito, sendo que os trabalhadores referiram que sua presença nas ruas com seus carrinhos carregados de recicláveis são vistos pelos demais como entraves ao funcionamento do tráfego, aumentando os riscos de queda e contusões graves;

3. Fisiológicas: o esforço físico pesado por carregarem grandes quantidades de materiais por longas distâncias. Um dos catadores referiu transportar em torno de 980 kg por percurso de coleta, visto que, quanto mais material for encontrado, maior a renda adquirida (renda por produção);

4. Psíquicas: preconceito e desvalorização que sofrem em seu cotidiano laboral, destacando que este foi o tema mais demandado pelos catadores dentre todos os demais. Os trabalhadores referiram que sua invisibilidade é comum, sendo que muitas pessoas “fecham os vidros do carro” ou “passam de longe”, evitando a presença dos catadores. Todo este quadro de cargas laborais é agravado pela falta de recursos de proteção, reconhecimento e valorização do trabalho que desenvolvem, ficando o catador sozinho em seu cotidiano laboral.

IHU On-Line – A que tipo de materiais os catadores ficam expostos e quais os riscos do contato com esses materiais à saúde?

Tanyse Galon – Relatos de exposição a vidros, agulhas e seringas, e até fetos humanos presentes nos resíduos urbanos mostram que ainda há um descuido no descarte dos resíduos e uma elevada propensão entre os catadores de adquirir doenças graves, dentre elas as hepatites, o HIV, tétano, entre outras. Tal situação mostra que o trabalho dos catadores nas ruas ainda apresenta-se muito precarizado, visto que os mesmos constantemente abrem sacos de lixo, desprovidos de luvas ou máscaras, sem saber ao certo o que encontrarão. Nesse sentido, muitos deles buscam fornecedores fixos de materiais recicláveis em lojas, supermercados, empresas, etc., com o objetivo de evitar o contato com tais materiais perigosos à saúde.

"Vidros, agulhas, seringas e até fetos humanos, mostram o descuido no descarte dos resíduos"

 

 

 

IHU On-Line – Como os problemas de saúde aos quais os trabalhadores são expostos são abordados na área de saúde no país atualmente?

Tanyse Galon – A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora tem reconhecido a necessidade de ações de saúde voltadas também para as categorias laborais inseridas na informalidade, especialmente aquelas em condição altamente excluída, como é o caso dos catadores. Entretanto, observamos que as ações concretas voltadas para a saúde dos trabalhadores informais ainda são defasadas. Autores que investigam o mundo do trabalho têm apontado a heterogeneidade e complexidade do mundo laboral, que envolve a existência das diversas formas de trabalho flexível, dentre elas os subcontratados e os terceirizados, condições que afastam os trabalhadores dos direitos à saúde no trabalho e o descumprimento ou defasagem de leis trabalhistas que os protejam.

Entre os catadores entrevistados em nossa pesquisa, houve relatos de falta de recursos financeiros para adquirir equipamentos de proteção individual, além do fato de que buscam atendimento em serviços de saúde apenas quando consideram grave a sua condição. Alguns deles referiram que quando sofrem acidentes de trabalho, comumente prosseguem na coleta de recicláveis, trabalhando apesar de doentes, visto que não há garantia de renda ou afastamento remunerado por problema de saúde. Nesse sentido, muito deve ser feito pelos trabalhadores informais.

IHU On-Line – Existe alguma discussão nos hospitais sobre o desenvolvimento do trabalho de reciclagem de materiais usados nos próprios hospitais? Como o processo de reciclagem e implicações à saúde dos trabalhadores que são responsáveis pela reciclagem são abordados nos hospitais?

Tanyse Galon – Uma das exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos é que os estabelecimentos (empresas, indústrias, etc.) e as residências realizem a segregação dos resíduos (separando os materiais recicláveis), o que inclui os serviços de saúde. Os poderes locais (municípios) devem realizar todo o sistema de coleta seletiva, com centros de triagem e meios de transporte para coleta desses materiais recicláveis separados na fonte, levando-os para cooperativas de reciclagem, com a atuação prioritária dos catadores de materiais recicláveis, que devem ser incluídos nesse processo. Vários hospitais no país têm grupos internos voltados para essa questão, treinando as equipes a separarem os materiais recicláveis dos materiais perigosos à saúde e fazendo a destinação adequada.

Entretanto, os catadores ainda referem encontrar resíduos hospitalares nos sacos de lixo comum nas ruas, expondo-os a riscos importantes à saúde, o que evidencia a necessidade de maior investimento e conscientização tanto dos produtores de resíduos (sociedade), quanto dos serviços de saúde, que precisam aplicar de fato as políticas de gerenciamento dos resíduos produzidos.

IHU On-Line – Como se dá a improvisação dos instrumentos de trabalho entre os catadores?

Tanyse Galon – Por estarem inseridos em um trabalho informal e por apresentarem, em sua maioria, dificuldades socioeconômicas, os catadores comumente improvisam seus instrumentos de trabalho com materiais retirados dos próprios resíduos. Para formarem seus carrinhos de mão, eles utilizam peças de geladeira, grades, tábuas, barras de ferro, cabos de vassoura, bags (sacos grandes), tudo com o intuito de elaborarem tais veículos para transporte dos materiais, adaptando-os na medida em que as dificuldades e necessidades vão surgindo. O que ocorre é que muitos desses instrumentos não estão adequados à corporalidade e funcionalidade dos trabalhadores, o que gera inadaptações de ordem ergonômica, levando-os a problemas osteomusculares. Visando superar tais circunstâncias, muitos deles, na medida em que vão angariando maior renda, buscam adquirir veículos motorizados (peruas) ou de tração animal, com o intuito de reduzir a carga de trabalho e aumentar a renda adquirida. Porém, até chegarem nessa possibilidade, muitos deles já desenvolveram problemas de saúde.

 

 

 

 

 

 

"Os catadores comumente improvisam seus instrumentos de trabalho com materiais retirados dos próprios resíduos"

IHU On-Line – Diante das implicações à saúde e da condição de trabalho dos trabalhadores, que alternativas sugere em relação a esse tipo de trabalho, que hoje é de certo modo enaltecido pelas vantagens que traz ao meio ambiente?

Tanyse Galon – O que nos despertou a atenção durante o desenvolvimento da pesquisa foi o fato de que, embora otrabalho dos catadores seja enaltecido pelas vantagens ambientais que proporciona, tal discurso fica apenas no campo da retórica, em especial nos discursos midiáticos e políticos. Ainda falta muito a avançar em termos concretos. Os catadores, especialmente os que trabalham de forma autônoma nas ruas, ainda nos relatam que estão desprovidos de recursos laborais, de proteção à sua saúde e de uma renda digna e condizente com o benefício que promovem.

Tais trabalhadores estão reduzindo gastos dos municípios com o gerenciamento dos resíduos sólidos, promovendo lucratividade às indústrias de reciclagem e reduzindo impacto ambiental desencadeado pelos comportamentos de desperdício da sociedade, sem serem de fato reconhecidos enquanto trabalhadores. É claro que não podemos desconsiderar os ganhos que o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR até aqui conquistou, resultando no reconhecimento da profissão na Classificação Brasileira de Ocupações – CBO e na criação de cooperativas de reciclagem ao redor do país, com melhores condições de trabalho e renda. Entretanto, apenas 10% dos catadores no Brasil atuam nessas cooperativas, sendo que muitas delas ainda apresentam falta de recursos para um funcionamento adequado. Nesse sentido, a mobilização dos municípios no cumprimento das políticas, considerando a inclusão socioeconômica dos catadores, e a atuação da sociedade no reconhecimento e valorização desses trabalhadores são questões importantes a serem desenvolvidas não apenas enquanto pauta de discussão, mas também resultando em ações concretas e transformadoras da realidade dos catadores.

Fonte: IHU

Por Patrícia Fachin

#AcontecenoTO – Fim de lixão em Porto Nacional


Na penúltima semana do mês de julho, a prefeitura de Porto Nacional/TO  já começou a trabalhar para cumprir o Plano de Encerramento do Lixão do município. A área do lixão já está praticamente toda limpa e já começaram a escavação das valas a serem construídas.

 

Foto antes da limpeza do lixão de Porto Nacional – Foto de Juliana Ribeiro

Foto antes da limpeza do lixão de Porto Nacional – Foto de Juliana Ribeiro

Foto depois da limpeza do lixão de Porto Nacional – Foto de Juliana Ribeiro

Foto depois da limpeza do lixão de Porto Nacional – Foto de Juliana Ribeiro

Conforme Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde 2010, o Brasil não deveria mais ter lixões em funcionamento a partir de 3 de agosto de 2014, porém a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) já pediu ao governo a prorrogação do prazo de encerramento das atividades dos lixões, alegando que as cidades não tiveram tempo, nem receita suficiente para a construção de aterros.
Segundo a página de O Globo foi realizada uma consulta feita pela CNM que envolveu 2.485 cidades das 5.490 com até 300 mil habitantes e mostrou que 768 ainda depositam os resíduos sólidos em lixões, a maioria nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste.
Por outro lado a Prefeitura de Porto Nacional, pensando na rápida regularização da área, contratou uma empresa especializada em resíduos, a empresa SOLTENGE Norte, para operar no encerramento do lixão e pensa ainda em formar parceria com municípios vizinhos que não possuem verba para construção de aterros.
No momento não se sabe ao certo se o prazo vai ser prorrogado ou não, mas as penas previstas pelo não cumprimento da Lei são de R$ 5 mil a R$ 50 milhões, dependendo da gravidade da falta, além de um a quatro anos de reclusão para os administradores municipais.

-Fonte: vivoverde