Agora vai


Agora vai … artigo de Efraim Rodrigues

cuidando do planeta

 

[EcoDebate] Você se lembra onde estava quando caíram as torres gêmeas ?

Daqui a 1000 anos os alunos de história estarão decorando o 18/06/2015.

Até aqui, a conservação andou de lado. Falamos muito, alguns poucos mudaram seu modo de vida, mas mudança em nível mundial, mensurável não aconteceu. Ao contrário, com a ascensão social de grande contingentes ao redor do mundo, a degradação de recursos naturais só piorou, com casas maiores, carros maiores, mais viagens de avião e maior consumo de carne. Todos querem ser o Grande Gatsby.

Não há artigo ou palestra de ambientalista que não comece com alguma citação da reunião do Rio em 1992. Alguém viu alguma mudança? Eu não. Ainda que nossa consciência global tenha melhorado, e muito, nestes 20 anos, as grandes reuniões são reativas. Elas acontecem porque há um sentimento de que algo precisa feito, mas seu resultado sempre é mais reuniões, documentos e viagens e hotéis para homens de terno.

No dia 18/06/2015 a Igreja Católica manifestou da maneira mais forte possível que não mais crê que o ambiente, entre outras questões terrenas, criariam certa “confusão” para a fé ou para o aprimoramento espiritual. A encíclica deixa claro que cuidar do ambiente é questão de compaixão, os mais pobres sofrem mais as mudanças do clima.

A encíclica também conserta o erro histórico de uma igreja medieval que permitia comprar indulgências. Assim como o dinheiro não inocenta um assassino, não vamos a lugar algum comprando permissões para poluir.

O Papa tem sido também um exemplo de simplicidade, estabelecendo um exemplo de vida com significado em oposição a seu antecessor, mais chegado a sapatinhos vermelhos de marca.

Por centenas de anos acreditamos que o planeta seria o jardim para Adão e Eva se multiplicarem. E neste particular, católicos, judeus, muçulmanos e comunistas se igualaram.

No entanto, a evolução de Darwin reafirma o gênesis, assim como a preocupação com o futuro climático do planeta reafirma a compaixão católica.

Tivemos que esperar a chegada de um líder espiritual com vivência científica em química, literatura e psicologia para conciliar a divergência entre ciência e religião, que só existe mesmo porque interessa.

Jeb Bush, candidato católico à presidente dos EUA, tem sua plataforma eleitoral no descrédito da ciência do clima em favor da “fé”. Seu comitê já está recorrendo ao conceito católico de livre arbítrio para tentar não perder votos. E como ficam as petroleiras e distribuidoras?

Como disse Upton Sinclair; É difícil fazer um homem entender algo, se o seu salário depende dele não entendê-lo. Não será fácil, mas ao menos agora temos um líder à altura do desafio.

PS: Para os que não gostaram da escola ser ainda a mesma daqui a mil anos, lembro que ela já era assim quando a Igreja lançou a bula intercoetera em 1493…

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br), Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, JICA e Vale, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores e Ecologia da Restauração, finalista do 56º Prêmio Jabuti 2014. Nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico.

 

Publicado no Portal EcoDebate, 19/06/2015

O preço real do petróleo e o custo para o meio ambiente


O preço real do petróleo e o custo para o meio ambiente, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Assim como a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras,

a Era do Petróleo chegará ao fim, não por falta de óleo”

Sheikh Ahmed-Zaki Yamani

[EcoDebate] Os combustíveis fósseis foram os catalizadores do crescimento econômico dos últimos 250 anos. A Revolução Industrial e Energética começou com a utilização do carvão mineral e avançou com o petróleo e o gás.

O petróleo é uma fonte energética criada pela natureza, em um processo geoquímico que durou milhões de anos, a partir da decomposição de matéria orgânica. Houve muitos ciclos na Terra para que essa riqueza ficasse estocada no solo e no subsolo. Em pouco mais de 100 anos, metade das jazidas já foram exploradas e, no ritmo atual, a outra metade pode ser arrancada das entranhas da Terra em outros 100 anos.

Três colheres de óleo contêm o equivalente à energia média de oito horas de trabalho humano. A força produtiva movimentada pelo petróleo equivale, em média, a 50 escravos para cada habitante do Planeta. Nos Estados Unidos esta relação atinge 200 escravos por pessoa. Sem o petróleo a capacidade produtiva do mundo cairia dramaticamente. Toda a agricultura moderna, com fertilizantes, defensivos agrícolas, agrotóxicos e os combustíveis para o transporte dependem do petróleo. Sem uma energia equivalente, a fome no mundo reinaria soberana.

Mas o petróleo é uma fonte finita e as reservas mais baratas já foram exploradas. O gráfico acima mostra que depois da Segunda Guerra até 1973 (os chamados 30 anos gloriosos) o preço do petróleo era “quase de graça”. Essa energia abundante e barata possibilitou que o crescimento econômico do mundo fosse o maior de toda a história humana. A despeito das desigualdades, a civilização deu um grande salto de bem-estar neste período.

Mas a partir de 1974, as crises jogaram o preço real do petróleo para cima. As guerras do Yom Kippur e do Irã-Iraque fizeram o preço disparar entre as metades das décadas de 1970 e 1980. Com o fim da Guerra Fria e a maior oferta internacional de combustíveis, o preço do petróleo caiu para níveis bastante baixos na virada do milênio.

Porém, os preços do petróleo voltaram a subir no início dos anos 2000 e bateram o recorde histórico em 2008 (apresentando um segundo pico em 2011) em decorrência da maior demanda mundial, especialmente da China e de outros países emergentes. A recessão econômica de 2009 foi provocada em grande parte pelo aumento do preço do petróleo. Este aumento incentivou as empresas petrolíferas a investir em novas descobertas e a explorar outros tipos de combustível, como as areias betuminosas (Tar sands) do Canadá e o gás de xisto (shale oil). O fato é que o alto preço dos combustíveis fósseis incentivou o aumento da oferta. Como a economia internacional não cresceu no ritmo esperado, houve excesso de oferta e escassez da demanda e os preços caíram muito em 2015 e começo de 2016. Houve uma crise geral no setor petroleiro. No caso do Brasil, além dos escândalos de corrupção na Petrobras, o atual preço do petróleo inviabiliza a exploração do pré-sal.

Tudo indica que os preços do petróleo vão voltar a subir nos próximos anos e décadas, pois a economia mundial está viciada em combustíveis fósseis e a produção caminha para o Pico do Petróleo (energia escassa e com altos custos de extração). Atualmente as empresas petrolíferas estão em crise pois os preços estão baixos e os custos estão altos. Mas elas confiam que vão poder recuperar os prejuízos no futuro.

Porém, existe um outro problema, pois todo o sucesso econômico gerado pela queima de combustíveis fósseis lançou toneladas de CO2 na atmosfera, agravando o efeito estufa e acelerando o aquecimento global. De meados do século XX até os dias atuais a temperatura média do globo subiu mais de 1º C, mais do que em todo o período do Holoceno (10 mil anos). O Acordo de Paris, assinado na COP21, estabelece como limite máximo 2º C, mas de preferência 1,5º C. Portanto, o mundo precisa reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Diante da pressão mundial, até grandes companhias de petróleo já começam a se adaptar à realidade mundial. A Exxon Mobil, bastião do ceticismo com o aquecimento global, realizou várias reuniões de acionistas que exigem maior empenho na exposição da vulnerabilidade dos negócios em face da mudança climática. Outras companhias com a Chevron e a Total anunciaram que planejam elevar a 20%, até 2036, o investimento em atividades independentes de carbono. Há propostas de reinvestir lucros na sua conversão em empresa de energias renováveis. No Brasil, a Petrobras, enrolada em escândalos e na nacionalista bandeira “o petróleo é nosso”, tem feito pouco para diversificar sua produção.

Os países do G7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e mais União Europeia) estabeleceram pela primeira vez um prazo para o fim da grande maioria dos subsídios para os combustíveis fósseis. Na cúpula de Tokyo, em maio de 2016, os líderes das sete economias capitalistas mais avançadas do planeta estabeleceram a data de 2025 para acabar com os subsídios para o carvão, o petróleo e o gás.

Porém, a Agência Internacional de Energia prevê que os combustíveis fósseis vão continuar dominando a matriz energética mundial e as emissões de GEE vão continuar aumentando até 2040, como mostra o gráfico abaixo.

A concentração de GEE na atmosfera já ultrapassou 400 partes por milhão (ppm). Esse nível é o mais alto, pelo menos nos últimos 800 mil anos. Antes da Revolução Industrial e Energética a concentração de CO2 na atmosfera estava em 280 ppm. O gráfico abaixo mostra que no ritmo atual de emissões a temperatura na Terra pode subir cerca de 5º C até o ano de 2100. Para que a temperatura fique abaixo de 1,5º C seria preciso uma redução significativa das emissões.

Artigo de Damian Carrington, no jornal The Guardian, mostra que se todo o estoque de combustíveis fósseis for usado, o Planeta pode se aquecer em até 10º C, o que causaria danos irreparáveis e poderia levar ao colapso da civilização humana. Com base em trabalho publicado na revista Nature Climate Change, a queima de todas jazidas comprovadas de combustíveis fósseis – um impacto da emissão de toneladas 5 toneladas de emissões de carbono – elevaria a temperatura em 8º C até 2300. Quando se adiciona o efeito de outros gases de efeito estufa, o aumento sobe para 10º C.

O aquecimento previsto pelos modelos não é uniforme em todo o globo. No ártico, os níveis mais elevados de CO2 elevaria a temperatura a 17º C, com outro 3º C de outros gases de efeito estufa. Isto provocaria o degelo na região, liberando a bomba de metano aprisionada no permafrost. Isto teria o efeito de aumentar ainda mais a temperatura global.

Este cenário é catastrófico e levaria à acidificação dos solos e dos oceanos, provocaria inundações em algumas regiões e grandes secas em outras e elevaria o nível dos oceanos em pelos menos 10 metros, o que afetaria a maioria das regiões litorâneas do mundo. A vida na Terra estaria comprometida. Portanto, é melhor nos livrarmos dos combustíveis fósseis antes que ele nos deixe em uma situação perigosa e irreversível.

Referências:

ALVES, JED. Desinvestimento em combustíveis fósseis e o fim dos subsídios. Ecodebate, RJ, 05/06/2015 http://www.ecodebate.com.br/2015/06/05/desinvestimento-em-combustiveis-fosseis-e-o-fim-dos-subsidios-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O mito do pré-sal como redenção nacional. Ibase, Rio de Janeiro, Revista Trincheiras, agosto 2015 http://ibase.br/pt/wp-content/uploads/2015/08/2PRINT-TRINCHEIRAS2.pdf

ALVES, JED. Desobediência civil para libertar-se dos combustíveis fósseis. Ecodebate, RJ, 04/05/2016 https://www.ecodebate.com.br/2016/05/04/desobediencia-civil-para-libertar-se-dos-combustiveis-fosseis-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Damian Carrington. World could warm by massive 10o C if all fossil fuels are burned, The Guardian, 23/05/2016

http://www.theguardian.com/environment/2016/may/23/world-could-warm-by-massive-10c-if-all-fossil-fuels-are-burned

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 08/07/2016