Entenda a segunda parte do 5º. relatório do IPCC


 

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O IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas da ONU) divulgou neste domingo, em Yokohama no Japão, a segunda parte do 5º Relatório de Avaliação sobre as Mudanças Climáticas Globais que trata dos impactos, vulnerabilidade e adaptação, conforme publicamos aqui.

 

Se a primeira parte do relatório, que tratava sobre ciência do clima, demostrava que o aquecimento global sem precedentes é um fato e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) são a principal causa, o segundo relatório mostra que as alterações do clima provocadas por este aquecimento (eg. aumento do nível do mar, acidez dos oceanos e redução da extensão e espessura do gelo nos polos) já estão causando impactos significativos para a vida das pessoas e o ambiente natural tais como perda de produtividade agrícola, aceleração da extinção e deslocamento de espécies, ampliação de danos à infraestrutura e economia por extremos de chuva e seca.

 

O painel de cientistas alerta ainda para o fato de os impactos se agravarem, intensificarem e ampliarem nas próximas décadas caso não tenhamos sucesso em reduzir drasticamente as emissões de GEE.

 

A quantidade de documentação científica disponível para revisão neste 5º relatório do Grupo 2 do IPCC dobrou em relação ao relatório anterior, permitindo aos cientistas aumentar de forma considerável o nível de confiança nos dados do relatório.

 

Este estudo é mais uma peça da mais extensa, completa e profunda revisão do estado da ciência do clima já produzido e deve ser revista e considerada pelos tomadores de decisão nos setores público e privado para que se estabeleçam ações para mitigar as emissões e adaptar as nossas atividades, negócios, infraestrutura e todos aspectos de nossas vidas.

 

A seguir as principais mensagens do Relatório do Grupo II do IPCC:

 

OS IMPACTOS JÁ OBSERVADOS

Nas ultimas décadas, as mudanças climáticas causaram impactos nos sistemas naturais e humanos em todos os continentes e em todos os oceanos. Os impactos nos ecossistemas são mais fortes e abrangentes atualmente, já os impactos nos humanos são mais difíceis de isolar de outros fatores.

 

A figura abaixo mostra os tipos de impactos observados na América Latina. O relatório traz a descrição de impactos para todos os continentes e oceanos. Clique na imagem para ampliar.

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– Em muitas regiões, mudanças na precipitação e no derretimento de neve e gelo estão alterando o sistema hidrológico, alterando a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos;

 

– Várias espécies terrestres, aquáticas e marinhas alteraram sua distribuição geográfica, rotas migratórias, calendário biológico, abundância e até mesmo sua interação com outras espécies, em resposta às mudanças do clima. Os fitoplanctons, por exemplo, têm se deslocado cerda de 400 km por década em busca de águas mais frias;

 

– O impacto das mudanças climáticas sobre a produtividade das principais culturas agrícolas tem sido principalmente negativo, ainda que certas culturas possam até se beneficiar em algumas regiões temperadas. Em geral, os ganhos anuais de produtividades da atividade agrícola caíram de 2% para 1% nas últimas duas décadas. Para algumas culturas, como a do milho, a produtividade já esta caindo;

 

– O impacto das mudanças climáticas observado sobre ocorrência e características de doenças em humanos ainda é pequeno se comparado com outros fatores de estresse e estudos nesta área. Então, precisam ser aprofundados.

 

A NOSSA VULNERABILIDADE

O grau de vulnerabilidade e exposição aos impactos das mudanças climáticas derivam de fatores não climáticos muito comumente relacionados às desigualdades do processo de desenvolvimento. Estas diferenças são determinantes para entendermos os riscos de sermos mais ou menos atingidos pelas mudanças climáticas.

 

O relatório completo, com suas mais de duas mil páginas é recheado de exemplos de impactos relacionados a extremos climáticos recentes como ondas de calor, secas, enchentes, ciclones, incêndios florestais que revelam a vulnerabilidade e exposição de muitos ecossistemas e da infraestrutura humana para lidar com a variabilidade climática atual.

 

Outra constatação importante é que os conflitos violentos aumentam a vulnerabilidade às mudanças climáticas, pois a infraestrutura, as instituições, o capital social e disponibilidade dos recursos naturais são necessários à adaptação aos impactos. E este é um processo que pode se retroalimentar uma vez que estes impactos podem exacerbar situações de conflito.

 

A EXPERIÊNCIA COM ADAPTAÇÃO

Apesar do tom contundente e que fala dos impactos, riscos e vulnerabilidades às mudanças climáticas, o relatório ao tratar da adaptação apresenta elementos para a construção de uma visão mais otimista.

 

É destacado que, ao longo da história, indivíduos, comunidades e sociedades têm se ajustado para se adaptar a mudanças nas condições, variabilidade e extremos climáticos com variados graus de sucesso. A diferença para o processo atual é que os impactos em escala global atingem uma proporção muito maior em um intervalo relativamente pequeno de tempo (algumas décadas).

 

O relatório indica que a adaptação, ainda que de forma limitada, está começando a ser incorporada nos processos de planejamento, especialmente ao analisar opções tecnológicas. Por outro lado, a percepção da importância das tecnologias sociais, arranjos institucionais e adaptações ecossistêmicas cresceram na última década.

 

O relatório descreve dezenas de politicas e casos de adaptação como recuperação e ampliação de ecossistemas de mangue para proteção da costa no Pacífico, instalação de diferentes sistemas de alerta de eventos extremos, programas de pesquisa em adaptação climática de culturas agrícolas, entre outros. Quase um cardápio para planejadores do setor público e privado!

 

OS RISCOS DE IMPACTOS FUTUROS

A avaliação dos riscos de impactos futuros derivados das mudanças climáticas é a parte mais complexa do relatório. O risco de impacto é resultado da interação de três fatores principais:
– a ameaça em questão (ex. aumento do nível do mar; seca severa etc),
– o grau de exposição do ambiente ou população (ex. proximidade ao local da ameaça) e
– o grau de vulnerabilidade (ex. acesso a infraestrutura disponível para enfrentar períodos de seca).

 

A exposição e a vulnerabilidade podem ser alterados ao longo do tempo de acordo com as condições econômicas e sociais, decisões de investimentos e até como consequência de conflitos. Este sistema dinâmico é representado no relatório pela figura abaixo. Clique nela para ampliar.

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Para lidar com esta complexidade de forma didática, desde o 3º relatório do IPCC, as informações de risco são organizadas a partir do conjunto de cinco Razões para Preocupação (RFCs – do termo em inglês – reasons for concern):

(i) Sistemas únicos e ameaçados;
(ii) Eventos climáticos extremos;
(iii) Distribuição de impactos;
(iv) Impacto global agregado e
(v) Eventos singulares de larga escala (ou causadores de pontos de ruptura irreversíveis).

 

A figura abaixo mostra, do lado esquerdo, os cenários mais otimista e mais pessimista para a trajetória de aquecimento global (resultado do relatório do Grupo 1 sobre ciência do clima) e o aumento do risco nas cinco dimensões de RFCs. Clique na imagem para ampliar.

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Os cientistas do IPCC também apresentam análise detalhada dos riscos relacionados a diferentes setores/temas como recursos hídricos, ecossistemas terrestres, sistemas marinhos, zona costeira, produção de alimentos, áreas urbanas, áreas rurais, economia, serviços, saúde humana, segurança e pobreza. E aqui não há boa noticia!

 

O quadro abaixo ilustra os principais riscos e o potencial de adaptação para a América Latina. A mesma informação é apresentada no relatório para todas as regiões do planeta. Clique na imagem para ampliar.

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GERENCIAR RISCOS E CONSTRUIR RESILIÊNCIA

O relatório é categórico em afirmar que a forma mais efetiva de reduzir os riscos é evitar o aquecimento, ou, em outras palavras, reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

 

Mesmo que tenhamos sucesso em reduzir drasticamente as emissões, ainda teremos riscos importantes de impacto derivados das emissões históricas acumuladas e, portando, é preciso gerenciar estes riscos e aumentar a resiliência dos ambientes e sociedade.

 

O relatório propõe princípios e recomendações para ações de adaptação efetivas e, em ultima instância, indica que o aumento de nossa resiliência aos riscos climáticos está diretamente ligado à nossa capacidade de tomar decisões que aumentem nosso espaço de manobra entre as pressões sociais e as pressões do meio físico.

 

Foto: Balazs Gardi/Creative Commons

Texto por Tasso Azevedo

Fonte: Planeta Sustentável