Como a gastronomia sustentável pode ajudar o planeta?


O princípio de uma gastronomia sustentável se deve também aos benefícios, do ponto de vista nutricional e econômico (Pixabay)

Patrícia Almada

Com consumidores cada vez mais exigentes, pensando em um planeta sustentável, a gastronomia teve que se adequar oferecendo diferenciais e experiências que vão além do sensorial. A chamada gastronomia sustentável é um movimento que convida a modificar a conduta de negócios e repensar a forma de produzir e descartar os alimentos.

A mudança, com objetivo de se adotar uma prática sustentável, vai desde modificações na gestão operacional, logística, ciclo produtivo, energia, na origem dos produtos e safras, sazonalidade, regionalização, desperdício, destino dos resíduos, e até na composição dos cardápios que os restaurantes oferecem.

Para o chef de cozinha Eduardo Roberto Batista, a gastronomia sustentável surge da própria necessidade dos restaurantes e cozinhas de evitar o desperdício. “Quem trabalha em uma cozinha conceito, seja bistrô ou renomada, até por virtude de cortes e apresentação de um formato, há perdas de muitos alimentos. Trabalhei em cozinhas de restaurantes renomados e pude perceber que se jogava muita coisa fora. O descarte impacta no preço e na própria sustentabilidade. Vem de uma necessidade global, a questão do desperdício, que realmente precisa de ser evitado”, disse.

O chef ressalta que o princípio de uma gastronomia sustentável se deve também aos benefícios, do ponto de vista nutricional e econômico. “Da parte da nutrição, acaba-se jogando uma parte fora do alimento que pode ser rica em nutrientes, como talos de couve, entre outros. E do lado econômico, sem desperdício e com o aproveitamento de forma integral, o preço acaba sendo mais justo. ”, conta.

Desafios

Para Eduardo, o maior desafio desse tipo de gastronomia é fazer com que as mudanças de hábito do consumidor sejam realmente efetivadas, para assim, mostrar a gastronomia sustentável de uma forma mais chamativa, mais gourmet.

“Quando pensamos em Belo Horizonte, por exemplo, a população é muito conservadora do ponto de vista alimentar. Geralmente vamos nos mesmos restaurantes, de preferência sentamos nos mesmos lugares e pedimos os mesmos pratos. Já para experimentar um prato diferente que envolva sobras de alimentos, como uma casca de abóbora, a pessoa logo já pensa: ‘Eu não quero sair de casa para comer esse tipo de comida’”, explica.

Mercado

De acordo com o relatório “Tendências em alimentação saudável”, elaborado pela empresa inglesa de pesquisa Mintel em 2019, os consumidores estão mais preocupados com saúde e sustentabilidade na hora de comer: 52% dos entrevistados têm dado preferência a alimentos e bebidas ricos em proteínas, fibras e com menos açúcar. Para a indústria, esse novo comportamento traz oportunidades de criar produtos, desenvolver diferentes nichos de mercado e aumentar o faturamento, aponta o estudo.

Além de dar preferência a alimentos naturais e nutritivos, os consumidores estão desenvolvendo um olhar abrangente, preocupando-se com o impacto dos seus hábitos alimentares no meio ambiente.

Eduardo classifica o movimento como positivo e vê o mercado com grandes potencialidades de crescimento. “As consciências ecológicas e ambientais têm mudado. Se conseguirem fazer algo chamativo pode ser uma grande tendência. A fome é uma questão global. Então, até no âmbito mundial, a partir da hora em que não há exagero no consumo e que se consegue reaproveitar, não comprando de uma maneira desenfreada, você está praticando uma gastronomia sustentável. Uma nova consciência sobre a alimentação nos faz consumir menos de forma equilibrada, mais saudável e consciente.

Aplicabilidade

Os benefícios da gastronomia sustentável são muitos. Vão desde a diminuição da emissão de gases do efeito estufa, economia de energia, proteção das espécies, tanto animal como vegetal em extinção, como a valorização da produção local, reaproveitamento, dentre outros. Mas, de acordo com o chef, apesar das inúmeras qualidades, a gastronomia sustentável, propriamente dita, está longe de ser implementada em sua totalidade.

“Ainda estamos muito distantes de uma realidade onde se aplica a integralidade de uma gastronomia sustentável. As próprias faculdades de gastronomia ainda não pensam em compostagem, por exemplo. Existe um restaurante em São Paulo onde se servem pratos com talos, raízes com brotos, alimentos que até então não se pensava em utilizar. Concluindo, existem alguns restaurantes que trabalham sim com gastronomia sustentável, porém o número é irrisório. Muito mais uma tentativa do que uma realidade, pois ainda assim se perde muita coisa. Mas, de todo jeito, é válido”.

Eduardo ainda complementa que para que todas as mudanças sejam aplicadas de fato dentro da gastronomia sustentável é essencial uma ampliação da compreensão do termo. “Mudar de comportamento, pensar em uma questão ambiental mais abrangente demanda tempo, conscientização e não é algo que acontece da noite para o dia”, finaliza.

Dom Total

Clima extremo, preços altos – Comer em 2030 pode ficar caro


          

Secas e enchentes devem duplicar os preços de alimentos básicos, como arroz, milho e trigo, prevê um novo estudo da ONG britânica Oxfam; países pobres serão os mais afetados.

Se nada for feito para reduzir as emissões dos gases efeito estufa e mitigar as mudanças climáticas, os preços de alimentos básicos no mercado internacional podem dobrar nos próximos 20 anos, advertiu a ONG britânica Oxfam. Em um novo estudo, intitulado Clima extremo, preços extremos: o custo de alimentar um mundo em aquecimento*, a organização não governamental sustenta que os efeitos de aquecimento global sobre a produção agrícola é "subestimada" pelos governos mundiais, que ignoram as consequências nefastas de fenômenos rigorosos, como estiagens e enchentes, sobre o preço das commodities que estão na base da indústria alimentícia, caso do milho, trigo e arroz.

"Como demonstra a seca que castiga os EUA, eventos climáticos extremos são traduzidos em preços de alimentos extremamente altos", diz o texto. A estiagem severa afetou a produção das lavouras do país, maior produtor de grãos do mundo, que levou ao aumento de 10% no preço global dos alimentos, segundo a FAO. A situação é de alerta. Recentemente, a agência para alimentação da ONU, alertou que os líderes globais precisam realizar uma rápida ação coordenada para garantir que os choques de preços não se transformem em uma catástrofe que afete dezenas de milhares de pessoas nos próximos meses.

No longo prazo, a situação também preocupa. Segundo a Oxfam, a escalada dos preços dos alimentos é uma questão de vida e morte para as populações que vivem em países em desenvolvimento e que gastam até 75% de sua renda para conseguir comer. "Quando tenho fome, faço um caldo para mim e para meus filhos. Se não for possível, bebemos água e vamos dormir", disse à ONG, Adjitti Mahamat, um morador de Chade, país africano onde 3,6 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar devido à pobreza crônica e à seca, que, em cinco anos, fez o preço dos alimentos aumentarem de 30 a 60%. Para os mais vulneráveis, os aumentos extremos e repentinos nos preços podem ser mais devastadores do que a elevação gradual no longo prazo, o que lhes daria mais tempo e opções para se adaptar, salienta o estudo.

"E SE…"
A pesquisa da Oxfam desenvolve várias hipóteses sobre o impacto de eventos climáticos extremos em 2030 em cada uma das principais regiões exportadoras de arroz, milho e trigo no mundo. Confira a seguir algumas hipóteses levantadas

 

1 – Crise na América do Norte
Uma seca na América do Norte, semelhante em magnitude à seca histórica de 1988, a pior já registrada no país até agora, poderia aumentar os preços de exportação de milho no mercado mundial em 140% e do trigo em 33% até 2030. "Estima-se que em 20 anos, 57% das exportações de trigo mundial e 44% do milho virão da América do Norte. Uma crise desta magnitude no ‘celeiro do mundo’ poderia prejudicar países em desenvolvimento", diz o estudo.
Segundo as projeções, os preços do milho e do trigo no mercado interno da China poderiam aumentar, respectivamente, 76% e 55%. Já na América Central e do Sul, os mesmo alimentos poderiam subir 80% e 55%.

 

2 – Crise na África
De acordo com a Oxfam, em 2030, mais de 95% do milho e outros grãos consumidos na África sub-saariana deverão ter como origem a própria região. "É provável que as crises locais causadas por eventos climáticos extremos podem ter efeitos devastadores sobre a produção, os preços e, em última instância, os níveis de consumo", diz o estudo. A ocorrência de uma grave seca na região, com uma magnitude semelhante a que ocorreu em 1992 (que levou a pior safra de milho), aumentaria o preço médio de consumo do milho e outros cereais secundários em 50%.

 

3 – Crise na Índia e Sudeste Asiático
A ocorrência simultânea de colheitas ruins na Índia e no Sudeste Asiático poderia ter um impacto grande no processamento de arroz, aumentando o seu preço médio de exportação no mercado mundial em 25% no ano de 2030. Para estimar essa quedas na produção, a Oxfam considerou como base a seca extrema que atingiu toda a Índia em 1979 e as inundações que castigaram em massa o Sudeste asiático em 1980. De acordo com o modelo, uma crise simultânea na Índia e no Sudeste Asiático em daqui a 20 anos poderia significar um aumento de 43% no preço do arroz no mercado nacional da Nigéria, atualmente o país mais populoso da África.

Fortificando o sistema
 

Ainda de acordo com a ONG, essa pesquisa representa uma tentativa de analisar como eventos climáticos extremos podem afetar os preços dos alimentos, se medidas urgentes não forem tomadas para reduzir as emissões. No entanto, ressalva a Oxfam, nenhum dos cenários apresentados é inevitável. "Está em nossas mãos a possibilidade de mudar e fortalecer o nosso sistema alimentar, especialmente para consumidores e produtores mais pobres".

Reverter décadas de falta de investimento na agricultura sustentável e resiliente nos países em desenvolvimento pode aumentar a produtividade regional e ajudar a garantir alimentos ao aumento da população. Outra frente de ação, segundo o estudo, é preparar as comunidades mais carentes a lidar com desastres extremos, a fim de reduzir a vulnerabilidade das pessoas e desenvolver a sua resistência a esses eventos. E, caso o pior aconteça, "esforços mundiais e regionais coordenados poderiam ajudar os mais vulneráveis a lidar com crises recorrentes".

Fonte: exame.com

Laísa Mangelli 

Transgênicos na ração – os impactos da alimentação geneticamente modificada dada aos animais


           

Assim como a nossa alimentação sofreu mudanças drásticas após a Revolução Industrial, proporcionando a industrialização em massa da comida, o mesmo também aconteceu com a comida animal, onde rações tomaram o lugar da comida caseira e natural. Dada a vida moderna que levamos hoje, com as horas sempre comprometidas com trabalho e compromissos, optar pela ração se torna prático e infalível, já que os rótulos chamativos das embalagens tentam nos convencer de que o alimento é indispensável para os nossos bichinhos, enumerando as vitaminas de A a Z, proteínas, minerais, ácidos, sugerindo um suposto alimento equilibrado e perfeito. É nessa hora que devemos nos questionar e sair do senso comum; como é fabricada essa comida?

 

                                                          

 

Após ler as letrinhas minúsculas da embalagem de ração que compro aqui em casa e ver a sua composição com milho e soja transgênicos (identificado nas embalagens com o símbolo da letra T dentro de um triângulo) e componentes como o BHT e BHA – ambos conservantes químicos altamente cancerígenos, que são proibidos em vários países da Europa e Ásia – é que fui me dar conta do que o meu animal estava comendo.

 

Fazendo pesquisas pela internet e visitas a pet shops da cidade, descobri que aqui no Brasil, não existe uma ração se quer que seja livre de algum componente perigoso ou cancerígeno. Encontrei algumas como a N&D que não possuem transgênicos, mas em contra partida possui BHA e BHT em sua fórmula. Rações 100% naturais são somente as importadas e, diga-se de passagem, bem caras.

 

Os transgênicos, ou organismos geneticamente modificados, são produtos de cruzamentos que jamais aconteceriam na natureza, como, por exemplo, arroz com bactéria. Por meio de um ramo de pesquisa relativamente novo (a engenharia genética), fabricantes de agroquímicos criam sementes resistentes a seus próprios agrotóxicos, ou mesmo sementes que produzem plantas inseticidas. As empresas ganham com isso, mas nós pagamos um preço alto: riscos à nossa saúde e ao ambiente onde vivemos. O modelo agrícola baseado na utilização de sementes transgênicas é a trilha de um caminho insustentável.

 

O monopólio que o transgênico se tornou se deve a alta lucratividade que ele traz as empresas usuárias. Já que uma semente geneticamente modificada em laboratório é capaz de suportar pragas, clima instável e condições de solo amenas. Tornando-a lucro certo no final da produção. Levando-se em conta somente as cifras arrecadadas, e ignorando por completo a saúde e o bem estar do animal, que tanto vemos nos anúncios de rações. E vale lembrar, um animal doente também traz lucro para outro monopólio, o farmacêutico.

 

Pesquisas relacionadas a transgênicos são feitas em todo o mundo, avaliando quais os efeitos que esse organismo geneticamente modificado pode trazer ao organismo humano ou o animal. E na maioria delas, o câncer aparece como principal resultado a curto e longo prazo.  Além de tudo isso, não podemos ignorar que a partir do momento em que se manipula sem regras, o DNA de uma planta, em longo prazo se perde o controle de cruzamentos e evolução na escala da vida, e quais as respostas em como tais genes modificados podem alterar a nossa evolução humana e a animal daqui a uns séculos. Isso é sério e muito perigoso. Estamos cercados de transgênicos por todos os lados, e se você opta por não ingeri-lo, precisa ser radical e abolir os produtos industrializados, adquirindo somente comida orgânica e natural.

 

Em outras palavras, radicalizar seria voltar no tempo, onde não existia comida industrializada e era preciso preparar a sua própria refeição, e a do seu animal de estimação também. Tinha-se mais saúde, e de fato, sabia-se o que comia.

 

Laísa Mangelli

População do Bangladesh aproveita enchentes pra criar agronegócio


O ser humano tem uma capacidade de adaptação inimaginável,  e essa capacidade aumenta exponencialmente quando estamos diante de alguma dificuldade ou situação adversa. A grande quantidade de chuva que assolou Bangladesh em 2012 deixou dezenas de mortos e milhares de pessoas ilhadas, mas, diante de tal situação desoladora, a população está desenvolvendo uma nova forma de plantio de arroz na água combinado ao cultivo de peixes e camarões, tudo junto.

O método pode ser usado em zonas inundadas com água salgada e tem o potencial para aumentar significativamente o rendimento das culturas e variedade nutricional por hectare, tendo assim menos impacto no meio-ambiente, uma vez que o espaço utilizado é o mesmo para as duas atividades. Os peixes também atuam como um sistema de manejo de pragas, comendo insetos que causam danos às culturas , por sua vez, reduzindo a necessidade de pesticidas.

Num país onde 27% da população é subnutrida, iniciativas como essa são louváveis e necessárias, mas o método ainda não foi amplamente adotado. Quem o afirma é Nesar Ahmed, co-autor do relatório e pesquisador na gestão das pescas na Universidade Agrícola de Bangladesh. Mas Ahmed é otimista: “Bangladesh poderia se tornar um país de alimentos seguros e sem pobreza. Dentro de uma década, podemos acelerar o crescimento econômico e produção de alimentos através de uma revolução azul-verde”.  Nós acreditamos que sim, veja algumas fotos do cultivo:

Fonte: Hypeness

 

Hortas urbanas: uma revolução orgânica e sustentável


Em meio à megalópole de São Paulo, organizados em coletivos nascidos na web, os paulistanos estão ocupando os espaços públicos e semeando idéias para deixar a cidade menos cinzenta através das hortas urbanas. Elas são uma forma de se conhecer melhor a vizinhança, revitalizar o uso do espaço urbano e mudar a maneira de produzir comida. A idéia é facilitar o acesso a alimentos frescos e saudáveis, aumentar as áreas verdes nas metrópoles e diminuir o impacto do transporte de hortaliças, que hoje se baseia em um complexo mecanismo orquestrado de produção, transporte e distribuição. O conceito também já pegou em outros locais do mundo, como Havana, em Cuba, ou São Francisco, nos EUA.
 

                                                

A jornalista Cláudia Visoni é uma das principais representantes do coletivo de “Hortelões Urbanos” da cidade de São Paulo. Segundo ela, o grupo reúne na internet atualmente mais de 4.000 pessoas interessadas em trocar experiências de plantio doméstico de alimentos. A grande maioria já cultiva ervas, frutas e hortaliças no quintal, em jardins verticais, sistemas hidropônicos ou até mesmo em varandas de apartamentos. Além disso, eles pretendem inspirar os vizinhos a se envolverem no plantio voluntário de alimentos em áreas públicas. É o caso das hortas que têm se erguido informalmente e dado vida a terrenos baldios, beira de rios e praças da cidade, como na Vila Beatriz, na Vila Industrial, em Taboão da Serra, na Pompéia e até na Praça do Ciclista, em plena Avenida Paulista. Qualquer um pode por a mão na terra, plantar, colher e levar para casa o que cultivou gratuitamente. Para que essa realidade se espalhe, o Coletivo de Hortelões Urbanos da cidade de São Paulo entregou à Prefeitura de São Paulo uma carta com a reivindicação de que uma horta comunitária seja implementada em cada bairro, em cada escola, parque e nos postos de saúde.

Porém, a densa urbanização de São Paulo torna um desafio pensar na destinação de terrenos vagos para o plantio. O shopping Eldorado encontrou uma forma de criar sua horta urbana usando o telhado do prédio. Construir uma horta de 1.000 metros quadrados, que se aproveita de 600 kg diários de resíduos da praça de alimentação e da poda dos jardins do shopping, preparados para o plantio em uma composteira no subsolo do prédio. Desta forma, produz-se o substrato natural responsável por adubar alfaces, quiabos, camomilas, tomates, cidreiras, entre outras plantas que, quando colhidas, são distribuídas aos funcionários das lojas. Duas enzimas desenvolvidas pelo Bio Ideias possibilitaram a aceleração da compostagem (que em condições naturais pode levar até 180 dias) e a eliminação de odores. No início, o composto foi doado para hortas comunitárias e, em 2012, começou a implantação da horta no próprio telhado.
 

                                                  

Uma crítica a concepção ao potencial da agricultura urbana é o fato dela ser considerada de pequena escala e pouco produtiva. Cláudia Visoni reconhece que esse tipo de prática tem cunho mais educativo e ambiental do que potencial de abastecimento, mas explica que para se ganhar escala de produção, o estímulo da gestão pública é imprescindível. “As residências e empresas deveriam ter abatimento do IPTU no caso de compostarem seus resíduos orgânicos”, afirma. Outra idéia seria a distribuição de mudas orgânicas em estufas municipais (atualmente desativadas) para os agricultores periurbanos e a inclusão da horticultura no currículo das escolas.

Um exemplo onde as iniciativas espontâneas da população ganharam a adesão e o estímulo do governo é Cuba. Na década de 90, a cidade de Havana enfrentou uma forte crise de abastecimento com o colapso da União Soviética, responsável até então pelo fornecimento de boa parte dos alimentos consumidos no país, além dos insumos para a monocultura, como fertilizantes e pesticidas. Na época, os moradores da capital tomaram terraços, pátios e terrenos baldios e começaram a plantar feijões, tomates, bananas e diversos outros tipos de alimentos nos próprios bairros, pois o já precário sistema de transporte da ilha entrava em decadência. Em vez de coibir essas ações, o governo criou o Departamento de Agricultura Urbana e liberou o cultivo em terrenos sem uso produtivo, treinou agentes públicos para a implementação e manutenção de hortas nos bairros, construiu locais de distribuição de sementes e consolidou pontos de venda direta dos alimentos.

De acordo com Maria Caridad Cruz, engenheira agrônoma da FANJ (Fundacion Antonio Núñez Jiménez de la Naturaleza y el Hombre), hoje, 80% dos alimentos frescos de Cuba vêm das agricultura urbana – que abrange desde lotes de manejo individual até grandes propriedades de gestão estatal – cujos produtos são orgânicos (o controle biológico de pragas substituiu os pesticidas).

O deputado estadual Simão Pedro (PT), que é também secretário de serviços da cidade de São Paulo, atua há 11 anos com políticas públicas na área de agroecologia e reconhece que Havana é um ótimo exemplo, mas tem buscado inspiração também em outras cidades. Nos Estados Unidos, por exemplo, várias estão criando planos de agricultura urbana, conselhos de política alimentar e mapas de locais potenciais para o plantio. Empresas de paisagismo também têm incluído no seu portfólio os chamados projetos apelidados de “foodscape” (algo como “alternativa para a comida”), que inserem o cultivo agrícola em jardins, parques municipais, condomínios e até no telhado de estacionamentos gigantes. Em São Francisco, na Califórnia, a prefeitura mudou os regulamentos de zoneamento, a fim de permitir o cultivo local de alimentos, e criou o sistema de compostagem municipal, transformando resíduos orgânicos em insumo para as hortas públicas.

           

Simão Pedro diz que um projeto similar com relação aos resíduos foi incluído no Plano de Metas da capital paulista. Segundo o secretário, hoje 52% de todo lixo encaminhado para os aterros da cidade são de natureza orgânica, ou seja, são resíduos que produzem chorume, contaminam o solo e proliferam doenças, mas que poderiam ser transformados em adubo. Além disso, o deputado quer instalar em bairros periféricos de São Paulo o projeto “Revolução dos Baldinhos”, de Florianópolis, O projeto catarinense surgiu em 2008 como resposta a uma epidemia de ratos no bairro Monte Cristo, na periferia da cidade, que culminou na morte de duas crianças. Para solucionar a crise, lideranças comunitárias em parceria com o agrônomo Marcos de Abreu, do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), começaram a estimular a população a separar os resíduos orgânicos em baldes (por isso o nome do projeto). Depois de recolhidos, 15 toneladas de materiais orgânicos se transformam todo mês em composto utilizado em hortas comunitárias e domésticas que se espalharam pelo bairro e resolveram o problema dos ratos. Atualmente, o excedente do composto está sendo beneficiado e embalado por jovens da periferia, que querem criar uma cooperativa para gerir o negócio.

Participante da Horta dos Ciclistas e Horta das Corujas (Vila Beatriz), Cláudia Visoni enumera as vantagens das hortas urbanas: “a horticultura precisa ganhar mais espaços pois é uma solução simples diminuir os custos alimentares e melhorar o clima da cidade atenuando ilhas de calor. Também é uma alternativa gratuita de lazer, aumenta a permeabilidade do solo, reduz as emissões de gases do efeito estufa (pois evita o transporte motorizado de alimentos) e inaugura espaços práticos de educação ambiental.

Fonte: O Eco

Laísa Mangelli

Alimentos da reforma agrária beneficiam crianças de escolas municipais em São Paulo


 

           

As crianças das escolas municipais da cidade de São Paulo passam agora a ser beneficiadas com os alimentos produzidos nos assentamentos da Reforma Agrária. Na primeira semana de outubro, a prefeitura realizou o primeiro contrato de comércio de alimentos com cooperativas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). A assinatura do contrato da chamada pública aconteceu no Departamento de Alimentação Escolar da prefeitura. Serão entregues 930 toneladas de arroz orgânico produzido pela Cooperativa dos Trabalhadores dos Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), no Rio Grande do Sul, ao valor de R$2,4 milhões, beneficiando 1.400 famílias da região.

Para Nelson Krupinski, da coordenação da Cootap, essa é mais uma prova das potencialidades da reforma agrária, além de também permitir desenvolver ainda mais os assentamentos. “Essas parcerias permitem criar um cenário e estabelecer metas mais palpáveis de produção. Nos dá segurança de que se pode continuar a produção orgânica, desenvolve os assentamentos e fortalece a agricultura familiar”, destaca. Serão beneficiados 260 mil alunos da Educação Infantil da Rede Municipal, sendo que o objetivo é ampliar cada vez mais esse número.

Para o assentado, a satisfação é ainda maior pelo destino que terá todo o esforço da produção das famílias. “São crianças que irão comer esses alimentos sem agrotóxicos, um público que de fato precisa o que nos dá ainda mais alegria”. Isso possibilita, segundo Nelson, repensar qual o modelo de produção de alimentos que se pretende para o povo brasileiro, e o “Estado tem essa responsabilidade de oferecer alimentos saudáveis à população, ainda mais se tratando de crianças”.

“Isso é a prova de que é possível produzir orgânico, que não é caro, e que não é necessário recorrer ao modelo convencional defendido pelo agronegócio, com enormes utilizações de agrotóxicos”, acredita. Já estão previstos novos contratos de outros alimentos, como feijão, para serem fechados entre a prefeitura de São Paulo e cooperativas do MST.

Laísa Mangelli

Outubro 2013

Fonte: Brasil de Fato

Alimentação orgânica – Sustentabilidade no prato


                                    

              Já dizia o velho ditado: nós somos o que comemos. Dependendo do ‘combustível’ com que alimentamos o nosso corpo, ele pode responder de forma positiva ou negativa. No tempo moderno em que vivemos, da correria do dia a dia, acabamos optando pela alimentação mais rápida e prática, os industrializados e os legumes e hortaliças cheios de agrotóxicos nocivos à saúde humana e ao meio ambiente. Pois requerem menos tempo de preparo, são baratos e passam a ligeira impressão de que nos alimenta corretamente, ou pelo menos, saciam a fome. Mas, pensando melhor, essa comida enlatada e prática é saudável? Já sabemos que não, pois leva em sua composição alto teor de sódio, aromatizantes, corantes, tóxicos e vários outros componentes químicos que aceleram a produção em níveis elevados para suprir a demanda de sete bilhões de habitantes no planeta.

                Então como aliar saúde e sustentabilidade no mesmo prato? O caminho indicado é o consumo de alimentos orgânicos; além de ser isento de insumos artificiais como os adubos químicos e agrotóxicos – o que resulta na isenção de outra infinidade de subprodutos tóxicos como metais pesados, chumbo, nitratos e etc. – o alimento orgânico também deve ser livre de drogas veterinárias, hormônios, antibióticos e organismo geneticamente modificados. Ou seja, a agricultura orgânica trabalha de forma sustentável, não agride o meio ambiente e respeita a saúde do consumidor, além de ser bem mais saboroso do que os produtos convencionais.

                                   

                O conceito de alimento orgânico não se limita apenas à agricultura, estende-se também à pecuária, em que os animais criados para abate são criados sem hormônios e drogas, respeitando o seu ciclo natural de crescimento e desenvolvimento. Bem como os seus subprodutos, os alimentos orgânicos industrializados também são produzidos sem corantes e aromatizantes artificiais.

                Ao adquirir a prática de consumo de alimentos orgânicos, não só estamos optando por uma alimentação mais saudável como também impulsionando a agricultura familiar e o pequeno agricultor, principais responsáveis pela produção de orgânicos no país. Em contra partida, o fato de alguns alimentos orgânicos serem mais caros não seria neutralizado então pelo maior benefício que eles proporcionam à saúde? Não só à saúde humana, mas também à saúde do meio ambiente. Então esse adicional de preço justo – não 100% a mais, ou um preço especulativo – já implica tratar-se de alimento de melhor qualidade. Todo e qualquer produto melhor custa mais. Então a própria lei do mercado está implícita no alimento também. O produto orgânico é mais caro porque tem melhor qualidade. Mas não pode ser um preço abusivamente mais caro que torne o alimento elitizado. Pensando de outro modo: no caso dos alimentos convencionais, que são mais “baratos” qual o real valor de um alimento barato que promove exclusão social do agricultor familiar, causa doenças e ainda degrada o meio ambiente? Que barato é este? É preciso pensar de forma sustentável a médio e longo prazo. 

Imagens: Coletivo Verde e Akatu

Laísa Mangelli

Amigos criam horta ambulante em traseira de caminhonete


   Após descobrirem que metade da gordura de seus corpos era composta por milho, os amigos Curt Ellis e Ian Cheney perceberam que todo alimento processado que comiam (e só comiam comida processada) era basicamente composto por variações de compostos de milho. Descobriram, também, que esses compostos não faziam bem à saúde.

   Eles decidiram, então, plantar sua própria comida, e, quando resolveram mudar para Nova York, não tiveram dúvidas, levaram a horta na parte traseira da caminhonete. Hoje os dois levam a horta-móvel para comunidades e escolas, ensinando crianças como se cultiva a comida que comemos e a importância de vegetais orgânicos e saudáveis para a saúde.

 

Fonte: Catraca Livre