Derramamento de óleo acaba com 66% dos animais marinhos das praias da Bahia


A quantidade média de indivíduos caiu de 446 para 151 (Antonello Veneri / AFP)

Um estudo feito pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) apontou redução de quase 66% no número de invertebrados bentônicos vivos (como corais, moluscos, crustáceos, polvos e lagostas) em quatro praias do litoral do Bahia, após o derramamento de óleo na costa, neste segundo semestre. Os corais foram as espécies mais afetadas até agora.

Os dados do trabalho foram apresentados ontem. Os pesquisadores compararam as informações de abril e de outubro de quatro praias (Forte, Itacimirim, Guarajuba e Abaí), em uma área de 140 metros quadrados. A quantidade média de indivíduos caiu de 446 para 151. Ainda conforme a pesquisa, houve queda no número de espécies – de 88 para 47.

Branqueamento

As espécies mais afetadas foram os corais, que branquearam mais do que o normal. Desde 1995, quando o instituto da UFBA começou a acompanhar os recifes nas quatro praias, a taxa anual de branqueamento ficava entre 5% e 6%. Agora, o porcentual aumentou para 51,92%.

A cor dos corais é um fator para atestar a saúde dos invertebrados. O branqueamento pode levar à morte ou enfraquecer a estrutura reprodutiva das espécies.

O fenômeno pode aumentar, em condições naturais, se houver crescimento na temperatura da água ou aumento na incidência de radiação solar sobre os corais. Como não foi detectada nenhuma mudança considerável nesses fatores, a presença do óleo foi apontada como explicação para o fenômeno.

A possível perda de biodiversidade terá impacto na cadeia alimentar, segundo Francisco Kelmo, coordenador do estudo. “Esses números indicam que houve perda de patrimônio natural, redução no número de animais, na diversidade e aumento das doenças/mortalidade nos corais. Assim, compromete a cadeia alimentar, causa desequilíbrio”, aponta o estudo.

Um dos ingredientes para a situação é o fato de que o óleo chegou às praias no início de outubro, justamente no período reprodutivo dos animais. Entre os tipos perdidos estão crustáceos e moluscos – polvos e lagostas estão no grupo e são os mais pescados e consumidos na região, segundo o professor.

Para Kelmo, o ecossistema deve levar de 10 a 20 anos para conseguir se recuperar naturalmente, caso não haja novos desastres. “Esse fantasma do óleo vai nos assustar por muito tempo”, disse.

Consumo

Indagado sobre o perigo de consumo de animais pescados, o professor lembrou que análises recentes feitas pelo governo federal não apontaram riscos de contaminação por ingestão. Mas ponderou que o óleo consumido pelas espécies tem substâncias cancerígenas.

Kelmo foi autor de um estudo que mostrou vestígios de óleo nos aparelhos digestivo e respiratório de 50 animais. Procurado para comentar a pesquisa, o Ministério do Meio Ambiente informou que não poderia se posicionar ontem.

Agência Estado

MPF sustenta que governo não acionou plano contra vazamento de óleo no NE


Manchas de óleo atingem praias do litoral do Nordeste (Divulgação/Agência Petrobras)

O Ministério Público Federal entrou nesta segunda-feira (28) com um recurso perante o Tribunal Federal da 5ª Região (TRF5) para que o governo federal cumpra integralmente o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo (PNC) no combate ao desastre ambiental em praias do Nordeste brasileiro atingidas por óleo cru.

Os procuradores alegam que o chamado PNC não foi acionado nos termos da legislação e de acordo com a base técnica e científica que o fundamenta, ao contrário do que havia afirmado União e concordado a Justiça Federal em primeira instância.

O governo tem sido alvo de críticas porque teria demorado a deflagrar uma operação para minimizar os efeitos do óleo vazado nas praias do Nordeste, cujos primeiros indícios foram detectados no início de setembro, segundo autoridades. A última atualização do Ibama dá conta de que 254 localidades nos nove estados foram afetadas.

O recurso do MPF de Sergipe – que abrange toda a costa nordestina, da Bahia ao Maranhão – ao TRF-5 lista 10 pontos que provam que o PNC não foi acionado, conforme os procuradores. Eles dizem, por exemplo, que não foi reconhecida formalmente a “significância nacional do desastre ambiental”, exigência para o acionamento do plano.

Segundo os representantes do MP, o comitê de suporte ao PNC, do qual fazem parte 17 órgãos de governo, jamais se reuniu. Tampouco representantes dos nove estados do Nordeste de órgãos ambientais foram convidados a participar do colegiado.

O recurso ao TRF-5, com sede em Recife, reforça os pedidos para que, em caráter de urgência, a União seja obrigada a acionar em 24 horas o PNC sob pena de multa diária de R$ 1 milhão, em caso de descumprimento.

Os últimos dados do Ibama, divulgados nesta segunda-feira, indicam que o óleo afetou 92 municípios e 254 localidades nos estados nordestinos. Nessas áreas, em 142 delas constatou-se vestígios esparsos de óleo, em 99 o óleo não foi observado na última revisita e em 13 apareceram manchas.

Na semana passada, a Petrobras informou que essas manchas de óleo são uma mistura de material proveniente de três campos de petróleo da Venezuela. Segundo o diretor o diretor de Assuntos Corporativos da estatal, Eberaldo Neto, ainda não foi possível identificar como o petróleo foi liberado na costa do Brasil. Ele afirmou que “provavelmente” o vazamento teve início em um navio de passagem pelo litoral.

Reuters/Ricardo Brito

Óleo retirado das praias do Nordeste viram cimento no PE e carvão na BA


O carvão pode ser misturado com terra e colocado nas plantas, como uma espécie de adubo (Divulgação/UFBA)

As imagens de toneladas e toneladas de óleo retiradas das praias do  Nordeste têm levantado uma questão: e depois, o que fazer com tudo isso?  A resposta em Pernambuco foi levar o material à Central de Tratamento  de Resíduos, a Ecoparque, empresa contratada em regime de urgência, cujo aterro é sediado em Igarassu. Para lá, foram destinadas mais de 1,3 mil  toneladas de óleo e itens contaminados pela substância, como baldes, luvas e máscaras.

O material passa por uma triagem para reduzir a presença de areia e, em  seguida, é triturado com tecidos, borrachas e outros itens que tiveram  contato com produtos industriais. O resultado são pilhas de fragmentos  diversos, em que o óleo se destaca pelo brilho.

Forma-se, então, o que se chama de blend energético, que é vendido para  ao menos três empresas de produção de cimento, sendo utilizado como  combustível de fornos junto com o coque – um subproduto destilado do  petróleo. “O petróleo sólido é muito caro e exige grande logística,  porque vem de navio. Assim como o coque, esse blend tem o poder  calorífico alto”, explica Romero Dominoni, diretor geral da Ecoparque.

Na Bahia, os resíduos encontrados nas praias têm se transformado em  carvão, com a ajuda de cientistas. Dentro de uma betoneira, são usados  bioaceleradores desenvolvidos por um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Esses componentes ajudam na degradação do óleo e o transformam em carvão. “Esses  bioaceleradores, dois sólidos e três líquidos, não agridem o solo nem os  vegetais”, disse a professora da UFBA Zenis Novais.

Segundo Zenis, o produto é bem menos agressivo do que o petróleo cru. O  procedimento pode complementar ou substituir o que se pretende fazer com  o petróleo: incinerar. “O processo de incineração produz enxofre, nitrogênio e libera gases que afetam o meio ambiente”, diz Zenis.

A aplicação do carvão, no entanto, demanda mais estudos. Segundo a professora, a depender da composição, o carvão pode ser misturado com  terra e colocado nas plantas, como uma espécie de adubo. Outra opção é  usá-lo como combustível na produção do cimento, como vem sendo feito em Pernambuco.

Agência Estado

Chapada Diamantina é atingida por incêndio de grandes proporções


Uma equipe de 30 homens da corporação atua no combate às chamas na região (Divulgação Corpo de Bombeiros da Bahia)

Um incêndio de grandes proporções atinge um trecho de vegetação na Chapada da Diamantina, na Bahia. O fogo abrange parte do território das cidades de Livramento de Nossa Senhora e Rio de Contas, além de uma região limítrofe entre os municípios de Lençóis, Palmeiras e Iraquara.

Segundo informações do Corpo de Bombeiros, o fogo começou no sábado (19). Uma equipe de 30 homens da corporação atua no combate às chamas na região. Em Livramento, o incêndio acontece próximo à Cachoeira do Véu de Noiva, ponto turístico do local. Junto com Rio de Contas, os municípios formam, ao sul da Chapada o chamado Circuito do Ouro, em referência à descoberta de jazidas do mineral, no fim do século 17.

O Corpo de Bombeiros informou que aeronaves têm sido usadas na operação para debelar o fogo, pois o acesso aos focos de incêndio é difícil por causa da densidade da vegetação. Carros para transporte dos bombeiros, além de instrumentos como enxadas foices e facões são usados por quem faz o trabalho em terra.

Ainda não é possível saber o tamanho da área consumida pelo incêndio e se regiões de proteção ambiental foram afetadas. As causas do fogo não foram divulgadas, mas a Chapada vive um período chamado de temporada do fogo, que começa em agosto e vai até o fim do ano. A época é marcada pelo clima quente e seco, além das queimadas feitas por produtores rurais locais como forma de “limpar” os terrenos para cultivo. Aliados, os fatores potencializam a ocorrência de incêndios.

Agência Estado

Programa restaura floresta no Sul da Bahia


BOAS PRÁTICAS// Arboretum planta e distribui sementes de espécies nativas da Mata Atlântica, promovendo geração de renda para os proprietários rurais.

 

Por: Marta Moraes – Editor: Marco Moreira

Desde a sua inauguração, em novembro de 2014, o Programa Arboretum de Conservação e Restauração da Diversidade Florestal, uma das maiores iniciativas para a restauração da Mata Atlântica no Sul da Bahia, criou uma rede de restauração florestal com fundamentos socioambientais e respeito à diversidade. A proposta é distribuir sementes de espécies nativas da Mata Atlântica, e realizar o plantio, promovendo também a geração de renda para os proprietários rurais.

Viabilizado por meio de ação do Núcleo Mata Atlântica do Ministério Público do Estado da Bahia de adequação ambiental de mais de 1.000 imóveis rurais, e coordenado pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), órgão do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o principal objetivo do Arboretum é atuar nos diversos elos da cadeia de restauração florestal, desde a estruturação de núcleos de coleta de sementes e produção de mudas, em comunidades rurais e aldeias indígenas, até o monitoramento do plantio.

APOIO

Durante visita que fez à Base do programa, o artista plástico Frans Krajcberg, plantou uma muda de Jacarandá da Bahia e elogiou os esforços de proteção e recuperação da floresta brasileira. Ele também solicitou o material do Arboretum para expô-lo em seu museu “Espace Krajcberg”, localizado em Paris.

Além disso, se colocou à disposição para realizar uma exposição de suas obras no local do programa. Krajcberg, nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, é conhecido por utilizar, em suas obras, troncos e galhos de árvores, provenientes das queimadas, a fim de conscientizar o homem quanto à devastação ambiental.

NÚCLEOS

Existem atualmente quatro núcleos comunitários de produção de mudas e três núcleos de coleta, com 14 coletores ativos de sementes, formando redes regionais de sementes e mudas florestais, envolvendo não apenas o Extremo Sul da Bahia, como o Norte do Espírito Santo.

O programa, cuja base funciona em Teixeira de Freitas (BA), iniciou esse ano o diagnóstico nas comunidades rurais para ampliação dos núcleos já existentes, e criação dos núcleos de plantio e do Arboreto, que visa a conservação genética de populações de espécies ameaçadas e se constituirá numa rede de áreas plantadas, útil também para estudos silviculturais. Essa ação vem contando com o apoio do Coordenador do Centro Nacional de Conservação da Flora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Gustavo Martinelli, e do professor Paulo Kageyama.

Os núcleos de plantio estão sendo constituídos por modelos agroecológicos de restauração, adequados à agricultura familiar. O desenvolvimento dos modelos foi realizado em parceria com as equipes do SFB, do Núcleo de Apoio às Atividades de Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental (Nacepteca/Esalq-USP) e da Embrapa Tabuleiros Costeiros.

"A construção e a difusão  de modelos agroecológicos de restauração  com viés econômico, especialmente para a agricultura familiar,  e o fortalecimento e a qualificação das estruturas da cadeia de restauração são ações fundamentais  para o atendimento às demandas geradas pelo Cadastro Ambienta Rural", destaca Natália Coelho, coordenadora técnica do Programa e analista do Serviço Florestal Brasileiro.

SAIBA MAIS

O Programa é gerido por um Conselho, representado pelo SFB, por meio de sua Base Avançada em Teixeira de Freitas; Fundação José Silveira; Universidade do Estado da Bahia (Uneb); Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora/JBRJ); Superintendência de Pesquisas e Estudos Ambientais da Secretaria Estadual do Meio Ambiente; Instituto Federal Baiano; e Embrapa Tabuleiros Costeiros.

 

Fonte: http://www.mma.gov.br

 

 

Primeira mina de diamantes da América Latina opera na Bahia a partir de 2015


       

A Lipari Mineração já cumpriu 35 condicionantes da Licença Prévia (LP) ambiental e protocolou o requerimento da Licença de Instalação (LI) para o Projeto Braúna no Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), dia 24 de abril, avançando mais uma etapa para a concretização do empreendimento, no município de Nordestina, Bahia.

A produção industrial está prevista para o primeiro trimestre de 2015, precedida pelas atividades de comissionamento da mina e o aumento gradual da produção durante o último trimestre deste ano.  
 
"Desde janeiro a nossa equipe técnica ficou dedicada ao atendimento das exigências do INEMA para permitir o protocolo do requerimento da Licença. O resultado foi muito positivo e a partir de agora aguardamos a liberação da Licença de Instalação para iniciar as obras de implantação do Projeto Braúna ainda neste primeiro semestre", destacou o presidente e diretor executivo da Lipari Mineração, Ken Johnson, em entrevista ao Tribuna Feirense.
 
Segundo o executivo, durante os próximos dois meses os equipamentos com tecnologia específica para a planta de beneficiamento, oriundos da África do Sul, começam a chegar ao município de Nordestina, local de instalação do Projeto. 

A empresa já investiu no empreendimento mais de R$ 80 milhões em pesquisa, exploração e planejamento. Para a implantação, o montante previsto é de R$ 100 milhões.
 
O Projeto Braúna integra 22 ocorrências de kimberlito (rochas que contém diamante) e será a primeira mina de diamantes da América do Sul desenvolvida em rocha kimberlítica, a principal fonte primária do mineral. A entrada em operação do Projeto Braúna aumentará em cinco vezes a produção de diamantes do Brasil. 

Empregos 

"Na fase de construção e montagem do projeto haverá um impacto direto com a criação de até 600 postos de trabalho. Em seu pleno funcionamento, a perspectiva é que a mina empregue até 300 trabalhadores diretos e contribua para o surgimento de mais de 3.500 postos de trabalho indiretos", ressalta Johnson. 
 
Na primeira fase do projeto, cujo alvo é o kimberlito denominado Braúna 3, estima-se a extração de 4,9 milhões de toneladas de kimberlito, distribuídos em dois lobos principais (Norte e Sul) e a disposição de 32,9 milhões de toneladas de estéril (granodiorito), produzindo cerca de 2,5 milhões de quilates de diamantes durante os primeiros 7 anos de operação a céu aberto. A mina possui potencial para estender a vida útil da operação através de lavra subterrânea e do desenvolvimento de recursos adicionais associados às demais ocorrências de kimberlito que foram descobertas nas áreas de concessão da empresa.

Laísa Mangelli

Barbárie no sul da Bahia: jagunços incendeiam 28 casas e espancam indígenas


         

Foto: Reprodução

 

 

Mais um episódio de extrema violência envolvendo a disputa de terras ocupadas pelo povo Tupinambá ocorreu na Bahia. Desta vez, a cena dos crimes foi o município de Itapebi, localizado no extremo sul do estado, há cerca de 600 km da capital Salvador. Na última sexta-feira (7 de março), por volta das 9h, dezoito jagunços – dentre eles dois ex-policiais – fortemente armados circularam a aldeia Encanto da Patioba, renderam três homens, duas mulheres e duas crianças, espancaram dois idosos e um casal, mataram animais domésticos e de criação, roubaram bens, ameaçaram estuprar uma das mulheres e incendiaram todas as 28 casas da aldeia.

 

“Foi um massacre. Queimaram tudo o que estava dentro das casas: roupa, comida, documentos, tudo. E o que não queimaram, eles roubaram: motosserra, rádio, fogão, celular, motor de farinheira (que gera energia) e um ralador. Mataram cachorro a facão. Atiraram nos perus. Acabaram com nossas galinhas, a gente tinha pra mais de 400 galinhas na comunidade toda. Destruíram nosso canavial. Cataram nossas roças, nossas abóboras. Não sobrou nada”, se indigna o cacique Astério Ferreira do Porto, de 63 anos.

 

Mostrando as marcas da violência deixadas em seu próprio corpo, ele relata que foi jogado no chão e algemado pelos jagunços. Em seguida, apanhou muito, e de todo jeito: paulada, chute, pano de facão, “até de chapéu de couro… também xingaram muito a gente. Tudo pra gente entregar onde estavam as outras lideranças que eles estavam procurando”.

 

Ele conta que os jagunços chegaram de uma vez. A maior parte da comunidade conseguiu fugir para o mato porque foram avisados minutos antes que eles estavam “descendo pra aldeia”. “Seu” Astério, “seu” Preto, de 73 anos, Robinho, “dona” Eliete, 45 anos, e uma mulher, mãe de duas crianças (uma de cinco anos e outra de sete meses) não conseguiram correr a tempo.

 

Continuam o relato, afirmando que com armas apontadas para as suas cabeças, os jagunços portavam pistola 765, espingardas 44 e 12, rifle calibre 38, pistola 380, facão na cintura e até dois fuzis “que talvez sejam R15”. “Eram 18 jagunços e não tinha nenhum desarmado”, afirma Astério, ainda sentindo as fortes dores na perna esquerda, no dorso e na região abdominal.

 

Também com vários hematomas no corpo, principalmente nas costas e braços, Eliete de Jesus Queiroz relata que levou um tapa tão forte no ouvido esquerdo que quatro dias depois do atentado ainda sente tonturas e muita dor. “Eles chegaram a ameaçar que iam estuprar nós. Nossa sorte é que, depois que viram as crianças, eles pararam de bater em nós duas. Mas as crianças ficaram traumatizadas e logo depois o menino vomitou bastante”, relata. Seu Preto, considerado um ancião, e Robinho também foram vítimas da violência dos jagunços e pistoleiros.

 

Após usarem 25 litros de gasolina para incendiarem as 28 casas da Patioba, destruindo completamente a aldeia, os jagunços colocaram os indígenas à força dentro de seus carros e os dois ex-policiais os levaram para a delegacia de Itapebi porque – inacreditavelmente – queriam denunciá-los pelo porte de uma espingarda velha usada para caçar tatu, paca, gavião, “mas que nem prestar muito tava prestando mais, porque tava sem espoleta”, conta Astério.

 

Como o delegado não estava, foram levados para o município de Eunápolis. Mas o delegado local não quis recebê-los, pois se tratava de um fato da jurisdição de Itapebi, para onde voltaram e registraram um boletim de ocorrência, onde os indígenas aproveitaram e relataram toda a barbárie a que haviam sido submetidos. No entanto, absolutamente nada aconteceu com os jagunços. Como mencionado nesta matéria, dois deles são ex-policiais. Somente por volta das 19h, os Tupinambá foram liberados – dos jagunços e pela delegacia.

 

A Polícia Federal, de Porto Seguro, e a Fundação Nacional do Índio (Funai) foram informadas sobre as extremas violências e violações a que foram submetidos os Tupinambá, mas até o fechamento desta matéria ainda não tinham ido à aldeia da Patioba, segundo os indígenas.

 

Na segunda-feira (10), Eliete e Astério, após apresentarem denúncia no Ministério Público Federal (MPF), fizeram exame de corpo delito no Instituto Médico Legal (IML) de Brasília. Na terça, após atendimento médico em hospitais, fizeram a denúncia ao Ministério da Justiça e na manhã desta quarta-feira (12) denunciam a barbárie a que foram submetidos ao Procurador Geral da República (PGR), Rodrigo Janot. À tarde fazem o mesmo na Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

 

Não se trata de uma mera coincidência

 

Cabe aqui ressaltar que a reunião na PGR havia sido agendada antes deste atentado ter acontecido na aldeia Patioba. Solicitada por organizações indígenas e indigenistas, a proposta é justamente denunciar a crescente violência contra os povos indígenas em várias regiões do Brasil e associá-la a políticos da bancada ruralista que vêm incitando esta violência.

 

Em fevereiro, estas organizações entraram com uma representação na PGR contra os deputados federais Luiz Carlos Heinze (PP-RS) e Alceu Moreira (PMDB-RS) por terem feito afirmações, gravadas em vídeo e veiculadas amplamente nas redes sociais, carregadas de preconceitos e incentivos à violência como solução para os conflitos agrários com os indígenas.

 

Inimigos mais que conhecidos

“O que a gente percebe é que falta vontade mesmo do governo e da polícia de fazer justiça. Aqui, não precisa investigar nada. A gente sabe quem foi que fez isso com o nosso povo. Eles não se escondem. O próprio José Gastão falou pra gente a lista das pessoas que eles querem matar”, afirma José Moreira Campos, o Juquira, uma das lideranças indígenas ameaçadas de morte, que não estava na Patioba quando os jagunços chegaram.

 

De acordo com os depoimentos feitos pelos Tupinambá ao MPF e na PGR, os dois ex-policiais, que também são fazendeiros, Gilmar (cujo verdadeiro nome seria Teodomiro) e José Maciel estavam entre os jagunços e, inclusive, foram os que os levaram para as delegacias. Outros responsáveis pela barbárie apontados pelos indígenas aos órgãos federais são o fazendeiro Peba, Juarez da Silva Oliveira, ex vereador e candidato derrotado do PP à prefeitura de Itapebi na última eleição, e o gerente da fazenda Lombardia, José Gastão. Após a invasão e destruição da aldeia, de acordo com os Tupinambá, a grande maioria dos jagunços se encaminhou para a fazenda Condomínio. “Nós vimos eles entrando na fazenda”, afirma Astério.

 

Além de Juquira e Astério, outros cinco Tupinambá da aldeia Patioba estão ameaçados de morte: o cacique Roberto, o vice cacique Carlos, o ex cacique Jovenal, a liderança Adauto e Jefinho, filho de uma liderança. Juquira conta que eles precisam se retirar da aldeia de tempos em tempos e vivem sempre preocupados com a possibilidade de que as promessas de morte sejam cumpridas. “Eles querem nos matar porque sabem que a gente não vai sair da terra que é nossa. Meu bisavô morreu aqui, meu avô morreu aqui, meu tio morreu aqui. Os parentes da Eliete morreram aqui. Só que a gente não tinha documento da terra. Índio não tinha mesmo documento da terra, mas nós não vamos negociar a nossa terra”, garante Astério.

 

Foto: Reprodução

 

 

A disputa pela terra

Segundo Astério, Juquira e Eliete, o governo federal e a Funai têm uma grande responsabilidade sobre as violências e violações contra os Tupinambá porque não fazem nada em relação à área reivindicada pelo povo como tradicional. “A Funai foi lá em 2005, 2006. Mas é só promessa. Daí, os fazendeiros vão se apossando de terra que é terra indígena e do Estado, vão nos ameaçando e nos matando. O ancião Salomão foi assassinado na Aldeia Patioba há cinco anos, e isso fez com que muitos de nós ficassem com medo e desistissem da terra”, rememora Astério.

 

Os três moravam desde 2002 na aldeia Vereme, mas tiveram que deixar a área por conta de uma reintegração de posse realizada em 2012. “Chegaram a usar até os sem terra contra a gente. Mas depois o fazendeiro da São Brás, mesmo dono da fazenda Lombardia, entrou com liminar contra eles também”, conta Juquira.

 

Após as 35 famílias saírem escoltadas da área pela Polícia Militar e pela Funai, parte da aldeia se dispersou. Apenas alguns foram para a aldeia Patioba, localizada há seis km de distância. A família de Astério e mais duas ficaram por seis meses dentro da sede da Funai e, posteriormente, foram encaminhadas pela própria Funai também para Patioba.

 

De acordo com Astério, o dono das fazendas São Brás e Lombardia se considera dono da área de três alqueires que os Tupinambá ocupam – tanto na extinta aldeia Vereme como na recém destruída Encanto da Patioba, que contava com 31 famílias. “Esta terra está, inclusive, penhorada há mais de 30 anos. Acho que pelo Banco do Brasil”, afirma o cacique.

 

Método antigo: a violência

O aumento da violência contra os povos indígenas na Bahia é evidente e remete aos tempos da ditadura e ao auge do coronelismo no estado, ocorrido nas décadas de 1970 e 1980.

 

Segundo os Tupinambá de Olivença, que moram na região de Buerarema e Ilhéus, desde o início deste ano, vários indígenas foram mortos. Três jovens morreram depois da implantação de uma base do Exército dentro da área já identificada como território tradicionalmente indígena em fevereiro. “Nós não queremos o Exército em nossa terra. Eles nos tratam como bandidos. O que precisa ser feito é a demarcação de nossa terra para que possamos viver em paz”, afirmou ontem a cacique Valdelice, da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, em reunião no Ministério da Justiça.

 

Na área da aldeia Patioba, o mais recente ataque havia ocorrido apenas há cerca de 15 dias, quando o carro de um dos indígenas deixado no porto em Itapebi foi incendiado.

 

Sem casa, suas roças e animais, móveis, roupas, comida e, muitos sem documento, desde o dia 7 de março, os parentes de “Seu” Astério, “dona” Eliete e Juquira dispersaram-se em Eunápolis. “Somos indígenas, mas agora estamos como indigentes”, concluiu com tristeza o cacique.

 

Apesar de viverem no estado onde os colonizadores portugueses chegaram há 514 anos e terem seu histórico, modo de vida e incontáveis processos de resistência registrados em extensa bibliografia, o povo Tupinambá não tem ainda terras homologadas na Bahia. “Até quando será assim?”, parecia a pergunta nos olhos pequenos e sofridos de “seu” Astério.

 

Denúncia do CIMI – Conselho Indigenista Missionário, publicado pelo EcoDebate, 13/03/2014

 

Parque Nacional de Abrolhos, um santuário ameaçado


Entrevista especial com Rodrigo Leão de Moura

"É o único local do país onde se pode encontrar praticamente todas as espécies de corais do Atlântico Sul em um único mergulho”, destaca pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Fonte: www.naturezabrasileira.com.br

O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos foi criado por meio de um decreto federal em 1983 e possui uma área de mais de 91,3 mil hectares. Localizado no Oceano Atlântico, no litoral sul da Bahia, o Parque é composto por cinco ilhas, sendo que o desembarque só é possível em uma delas, onde se pode percorrer uma trilha de 1.600 metros em torno dela. Porém, é debaixo d’água que o arquipélago guarda sua principal riqueza ecológica, nas formações de recifes e corais que datam dos primórdios da formação geológica terrestre. “Para se ter uma ideia dessa posição de destaque de Abrolhos no cenário global, basta observar que os corais do gênero Mussismilia [1] (corais-cérebro), principais construtores dos seus recifes, são considerados espécies-relíquia, com origens que remontam a 15 milhões de anos. Representam, portanto, uma das linhagens de corais viventes mais antigas do planeta e que sobrevive apenas em alguns locais da costa brasileira”, explica o professor e pesquisador Rodrigo Leão de Moura, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

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Apesar da importância ecológica em âmbito mundial do Parque Nacional de Abrolhos, a área de cobertura protegida ambientalmente corresponde a menos de 1% do território do Banco de Abrolhos. “Ou seja, a maior parte das formações carbonáticas de Abrolhos ainda não está protegida. Na década de 1980, os cientistas que propuseram a criação do Parque Nacional sugeriram uma área de proteção muito maior, mas as pressões políticas prevaleceram. A história permanece inalterada, uma vez que as recomendações recentes para ampliação das áreas marinhas de proteção têm sido sistematicamente ignoradas, ou mesmo distorcidas, pelo governo”, aponta Rodrigo.

Outra questão que preocupa o pesquisador é o risco ambiental que a exploração de petróleo oferece à biodiversidade marítima, isso porque o prejuízo é de todos. “O risco de destruição desse sistema pelas indústrias petrolíferas e de mineração é enorme e bastante concreto. Há planos de minerar os carbonatos até mesmo para fertilização de lavouras de cana-de-açúcar. Por outro lado, as medidas para mitigar e controlar possíveis acidentes são mínimas. Ou seja, a sociedade acaba assumindo boa parte dos custos e todo o risco que a indústria impõe aos recursos naturais e à saúde da população”, critica o pesquisador.

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Foto: Arquivo Pessoal

Rodrigo Leão de Moura é graduado em Ciências Biológicas, possui mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor Adjunto do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e pesquisador associado ao Laboratório de Análise e Monitoramento da Biodiversidade do SAGE (Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da Produção), na COPPE/UFRJ. Desde 1991 participa de projetos de pesquisa aplicada à conservação marinha e projetos de extensão comunitária, principalmente na região do Banco dos Abrolhos e em ilhas oceânicas brasileiras. Além disso, é coordenador executivo da Rede Abrolhos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o Parque Nacional de Abrolhos significa em termos de biodiversidade aquática? Trata-se de um dos principais parques marítimos do mundo?

Rodrigo Leão de Moura – Abrolhos é o primeiro Parque Nacional Marinho brasileiro. Criar essa área marinha protegida, em 1983, foi uma escolha sensata, uma vez que ela visa promover o acesso público ordenado e proteger a biodiversidade do nosso maior complexo de recifes coralíneos. É o único local do país onde se pode encontrar praticamente todas as espécies de corais do Atlântico Sul em um único mergulho. Como boa parte dessas espécies é endêmica do Brasil, o Parque tem relevância global. Para se ter uma ideia dessa posição de destaque de Abrolhos no cenário global, basta observar que os corais do gênero Mussismilia (corais-cérebro), principais construtores dos seus recifes, são considerados espécies-relíquia, com origens que remontam a 15 milhões de anos. Representam, portanto, uma das linhagens de corais viventes mais antigas do planeta e que sobrevive apenas em alguns locais da costa brasileira.

IHU On-Line – Há 30 anos o parque de Abrolhos foi considerado um local permanente de preservação ambiental. Qual a sua importância no ecossistema global?

Rodrigo Leão de Moura – Além de proteger a biodiversidade dentro dos seus limites, o parque funciona como um manancial de ovos e larvas para colonização de áreas adjacentes submetidas à pesca intensa. Além disso, os recifes são peças-chave no ciclo do carbono nos oceanos, uma vez que mineralizam e imobilizam esse elemento na forma de carbonato de cálcio. Lamentavelmente, o Parque Nacional tem uma cobertura muito pequena, representando menos de 1% da área do Banco dos Abrolhos. Ou seja, a maior parte das formações carbonáticas de Abrolhos ainda não está protegida. Na década de 1980, os cientistas que propuseram a criação do Parque Nacional sugeriram uma área de proteção muito maior, mas as pressões políticas prevaleceram. A história permanece inalterada, uma vez que as recomendações recentes para ampliação das áreas marinhas de proteção têm sido sistematicamente ignoradas, ou mesmo distorcidas, pelo governo.

IHU On-Line – No Facebook há uma página intitulada “Salve Abrolhos”. A principal demanda é em relação à pesca ilegal na região. Que tipos de danos esta prática traz ao ecossistema?

Rodrigo Leão de Moura – A sobrepesca, além de pressionar as espécies-alvo, pode acabar gerando efeitos em cadeia. Por exemplo, quando a abundância de peixes herbívoros é reduzida pela exploração excessiva, os corais acabam sendo "sufocados" por algas e microrganismos. Nesse processo, organismos construtores como os corais, cujo crescimento é muito lento (milímetros por ano), vão sendo substituídos por organismos não construtores, que podem crescer rapidamente, na ordem de alguns centímetros por dia. Ao longo da última década, nosso grupo vem monitorando os recifes de Abrolhos sistematicamente, com expedições anuais, e vem constatando os efeitos negativos da sobrepesca e da poluição. Por outro lado, nos recifes de Corumbau [2], uma Reserva Extrativista no extremo norte do Banco dos Abrolhos, fomos capazes de demonstrar que o manejo adequado pode recuperar estoques de peixes e gerar benefícios para a pesca artesanal.

IHU On-Line – Como se deu a formação geológica e da biodiversidade nos recifes de Abrolhos? Que particularidades possuem e por que é o principal do Atlântico Sul?

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Rodrigo Leão de Moura – Embora o embasamento geológico dos recifes seja muito antigo, da ordem de milhões de anos, a forma peculiar dos recifes do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, tais como os conhecemos hoje, são resultado da última transgressão (subida do nível do mar), iniciada a cerca de 20 mil anos, com o aquecimento após o último máximo glacial. Os "chapeirões", que são as colunas recifais em forma de cogumelos gigantes (algumas têm mais de 20 metros de altura), típicas do Parcel dos Abrolhos, possuem o topo achatado e expandido lateralmente em função da estabilização do nível do mar em níveis próximos ao atual, a partir de cerca de 5.000 anos antes do presente. Trata-se de um tipo de formação com características únicas em todo o mundo, assim como as "buracas", outra formação recifal peculiar de Abrolhos. As "buracas", descritas pela ciência apenas em 2013, são concavidades estreitas com dezenas de metros de profundidade, as quais funcionam como reatores de matéria orgânica, fertilizando o Banco dos Abrolhos com nutrientes que alimentam o plâncton [3] e toda a cadeia alimentar. Ao contrário dos "chapeirões", as buracas não se encontram protegidas pelo Parque Nacional e têm sido submetidas a grande esforço de pesca, justamente em função da concentração de biomassa em seu entorno.

IHU On-Line – Qual a importância dos recifes de corais para o equilíbrio marítimo?

Rodrigo Leão de Moura – Os recifes coralíneos de Abrolhos incluem não somente as formações construídas por corais, mas também os imensos bancos de rodolitos [4], que são construídos principalmente por algas coralináceas. Essas formações recifais ocupam uma área de mais de 20 mil quilômetros quadrados na região de Abrolhos, no entorno do Parque Nacional, sendo responsáveis pela mobilização de mais de 1 kg de carbonato de cálcio por metro quadrado a cada ano. A descoberta dessa enorme "biofábrica" de carbonato de cálcio, em 2012, e suas implicações para o equilíbrio do Atlântico Sul, foi recentemente destacada no prestigioso jornal Science. Vale ressaltar que a mineralização do carbonato de cálcio depende de condições físico-químicas peculiares que vem sendo alteradas drasticamente pela acidificação dos oceanos, por conta do CO2 antropogênico lançado na atmosfera, cujo destino principal é o Oceano.

IHU On-Line – Considerando o projeto do Estado de exploração petrolífera, há algum risco de que a região do Parque Nacional de Abrolhos seja contaminada em caso de acidentes? Existem maneiras de minimizar os riscos de desastres ambientais?

Rodrigo Leão de Moura – O risco de destruição desse sistema pelas indústrias petrolíferas e de mineração é enorme e bastante concreto. Há planos de minerar os carbonatos até mesmo para fertilização de lavouras de cana-de-açúcar. Por outro lado, as medidas para mitigar e controlar possíveis acidentes são mínimas. Ou seja, a sociedade acaba assumindo boa parte dos custos e todo o risco que a indústria impõe aos recursos naturais e à saúde da população. Os planos de contingência são extremamente deficientes, uma vez que não contemplam infraestrutura de resposta compatível com grandes acidentes e incluem medidas que podemos classificar como patéticas, tais como o afugentamento de cetáceos com aeronaves em voo rasante no caso de derrame de óleo. Pode-se dizer que esses planos são meras formalidades burocráticas. Para ilustrar o descaso com o patrimônio de Abrolhos, basta observar que o Parque Nacional Marinho mais importante do país sequer conta com uma Zona de Amortecimento, conforme estabelece a lei. Os investimentos públicos e privados na conservação de Abrolhos são irrisórios, como atestam os problemas básicos de infraestrutura que persistem desde a criação da unidade. Não há sequer uma base de pesquisa na região. As Reservas Extrativistas do entorno (Cassurubá, Corumbau e Canavieiras), cujo objetivo é proteger as populações locais e a sustentabilidade da pesca, também se encontram em um cenário de escassez de recursos e infraestrutura extremamente deficiente. A indústria petrolífera até tem patrocinado projetos ambientais voltados a espécies bandeira, aquelas com apelo e carisma popular, mas podemos dizer que essas ações, além de insuficientes, são mais voltadas ao marketing do que à questão ambiental, que é muito mais abrangente.

IHU On-Line – De que ordem seriam os prejuízos ambientais, em termos de biodiversidade, caso houvesse vazamento de petróleo na área de proteção do Parque?

Rodrigo Leão de Moura – Eu diria que um vazamento de grande monta, tal como o observado no Golfo do México, implicaria na aniquilação de vários compartimentos do sistema recifal de Abrolhos. Não há como calcular uma perda desse tipo. É preciso encarar essa realidade de forma mais realista, sensata e pragmática, e não esperar que a sorte nos proteja.

IHU On-Line – A que tipos de riscos ambientais o Arquipélago de Abrolhos está suscetível?

Rodrigo Leão de Moura – Os recifes coralíneos são ambientes frágeis, considerados como sentinelas da saúde do Oceano. Para ilustrar o que estou dizendo, ressalto o fato de que mais da metade dos recifes de coral do mundo já desapareceu. Os corais são um exemplo clássico do que os cientistas chamam de holobionte, ou seja, são consórcios de organismos que dependem de uma rede intrincada de associações envolvendo vírus, bactérias, fungos, dinoflagelados [5] e organismos multicelulares. Por isso os corais sofrem fortemente com alterações na qualidade do ambiente. Um dos efeitos conhecidos do desequilíbrio nessas associações do holobionte é o fenômeno do branqueamento, que pode levar os corais à morte. Acidentes da indústria petrolífera, grandes obras de infraestrutura e dragagens na zona costeira, urbanização descontrolada e pobreza (falta de saneamento), degradação das bacias hidrográficas (desmatamento), sobrepesca e mudanças climáticas agem em sinergia para produzir esse quadro alarmante de degradação dos recifes em escala global. Em um trabalho recente, nosso grupo de pesquisa mostrou que, se não houver reversão das tendências atuais, os corais de Abrolhos estarão sob risco de extinção ainda neste século.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Rodrigo Leão de Moura – Apesar do quadro alarmante, ainda há tempo para agir. O motor da mudança é a informação de qualidade e a mobilização da sociedade. Precisamos de uma mudança imediata de paradigma, e esta passa pelo envolvimento verdadeiro dos diferentes setores no sentido de reverter o quadro de degradação e encontrar soluções para a restauração dos recifes, incluindo o aproveitamento não destrutivo de seus recursos. O potencial biotecnológico dos recifes é enorme. Apenas para ilustrar com um exemplo emblemático de bilhões de dólares, o AZT, uma das principais drogas anti-AIDS, é derivado de uma esponja recifal do Caribe. A mineração e a indústria do petróleo precisam abraçar sua responsabilidade e contribuir, de fato, para a construção de um cenário de menos riscos à biodiversidade e de ações compensatórias e mitigadoras compatíveis com seu gigantismo, inclusive quanto ao seu potencial de degradação. E, claro, o governo precisa fazer sua parte, pelo menos fazendo cumprir a legislação existente e as metas ambientais do país junto à comunidade internacional.

Notas:

1.- Coral-cérebro de Abrolhos (Mussismilia Braziliensis): as colônias destes animais (assim como de outras espécies de corais) compõem grandes estruturas chamadas “chapeirões” e normalmente possuem o formato de grandes domos, o que lhes dá o apelido de coral-cérebro, chegando a 10 metros de diâmetro. (Nota da IHU On-Line)

2.- Corumbau: região localizada no Distrito de Prado, no Sul do litoral baiano. O nome de origem tupi significa "o fim do mundo e o começo da terra" ou "longe de tudo" devido à larga ponta de areia que avança sobre o mar. São 15 quilômetros de praias de areias brancas e águas cristalinas. Os recifes de corais avançam mar adentro, tornando a praia mansa e tranquila. (Nota da IHU On-Line)

3.- Plâncton: em biologia marinha e limnologia chama-se plâncton ao conjunto dos organismos que têm pouco poder de locomoção e vivem livremente na coluna de água, sendo muitas vezes arrastados pelas correntes oceânicas. O plâncton encontra-se na base da cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos, uma vez que serve de alimentação a organismos maiores. (Nota da IHU On-Line)

4.- Bancos de Rodolitos: as algas calcárias não articuladas compreendem mais de 1000 espécies, ocorrendo em todos os oceanos. Algumas formas que crescem desprendidas do substrato são chamadas de rodolitos. Os rodolitos podem ocupar grandes extensões no fundo do mar, constituindo os bancos de rodolitos, que conseguem transformar fundos de areia em um ambiente altamente complexo, servindo de casa e refúgio para uma infinidade de organismos marinhos. (Nota da IHU On-Line)

 5.- Dinoflagelados: espécie de microrganismo marinho pertencente à família do plâncton marinho. (Nota da IHU On-Line)

 

Fonte: IHU – Unisinos

Portaria libera uso de agrotóxico proibido no Brasil


            

O oeste da Bahia foi declarado oficialmente em estado de emergência fitossanitária em relação à lagarta Helicoverpa armigera. O anúncio foi feito no dia 4 de novembro pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Para combater a lagarta, no dia 7 de novembro, o Mapa publicou a portaria 1109, na qual permite a importação da substância benzoato de emamectina, agrotóxico até agora proibido no Brasil.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico, dia 31 de outubro, mostrava que o governo e a iniciativa privada estão em discussão de uma reformulação completa do rito de análise, autorização e uso de agrotóxicos no país. O Valor informa ainda que a Casa Civil entrou nas discussões que envolvem questões como a pulverização aérea e a importação de defensivos não aprovados no Brasil. Procurada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), a Casa Civil não quis se pronunciar.

Esta liberação só foi permita por conta da Lei nº 12.873/13, de 24 de outubro deste ano, e do Decreto nº 8.133, de 28 de outubro. Ambos prevêem a liberação de agrotóxicos ainda não aprovados no Brasil e o uso dessas substâncias para outra finalidade daquela aprovada anteriormente, em casos de emergência fitossanitária ou zoossanitária, como o caso apontado acima, que aconteceu uma semana depois.

Preocupação

Estas iniciativas foram motivos de preocupação de diversas entidades, entre elas, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia e Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa).

A lei 12873/13, que levou apenas um mês para tramitar na Câmara dos Deputados, no Senado e ter sanção presidencial, traz 64 artigos que tratam de assuntos diversos. Destes, três legislam sobre a autorização do poder do Executivo em declarar estado de emergência fi tossanitária ou zoossanitária e do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa), do Ministério da Agricultura, em anuir com a importação e conceder autorização emergencial temporária de produção, distribuição, comercialização e uso, quando declarado este estado.

O Decreto nº 8.133/13, que regulamenta o artigo 53 da lei, por sua vez, determina que a declaração de estado de emergência fitossanitária ou zoossanitária pode ser feita pelo Ministério da Agricultura, quando, segundo o texto, ‘for constatada situação epidemiológica que indique risco iminente de introdução de doença exótica ou praga quarentenária ausente no país, ou haja risco de surto ou epidemia de doença ou praga agropecuária já existente.

“O que mais chama a atenção nestes artigos e depois no decreto é que eles atribuem certos poderes ao Ministério da Agricultura em situação de emergência, mas não explicam quais situações são estas”, destaca Cleber Folgado, diretor executivo da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que completa: “Não é a primeira vez que eles passam ou tentam passar projeto com a mesma estratégia, misturando esse tema num bolo de assuntos que não tem nada a ver”.

O líder da Frente Parlamentar da Agropecuária e deputado federal, Valdir Colatto (PMDB/SC), explica que a intenção com a aprovação desta lei e decreto é evitar prejuízos como os contabilizados no ano passado, que, segundo ele, somam R$ 10 bilhões.

“Esse ano estamos com plantio de novo e sofremos o risco de multiplicar esse prejuízo. A não ser importando um produto aprovado lá fora e que se possa aplicar com alguma segurança possível para que a gente possa controlar as pragas em situação de emergência, que é a finalidade do decreto 8133/13”, explica o deputado. Flávia Londres, uma das coordenadoras da AS-PTA, contesta a situação de relevância, uma vez que a plantação será para assegurar a exportação.

“Estamos falando de colocar em perigo a saúde humana e ambiental em benefício de um grupo de empresas que plantam soja, milho e algodão com a intenção de exportação.Não estamos falando de riscos de falta de suprimento para alimentar o país”, lembrou Flávia. Atualmente, 70% dos alimentos consumidos no país são produzidos pela agricultura familiar. De acordo com o Censo agropecuário do IBGE, apenas 20% das pequenas propriedades usam agrotóxico.

Emergência?

O chefe da divisão da Inspeção e Fiscalização de Insumos Agrícolas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Luis Rangel, alega que estas iniciativas foram acordadas junto à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

“Todo esse tema e a regulamentação foi amplamente discutida com os Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente e só agiremos desta forma em caso de emergência. O Mapa vai fazer uma avaliação criteriosa dos casos, não talvez com profundidade de uma avaliação completa de registro – nem se esperaria isso, já que estamos falando de uma medida emergencial – mas baseados em parâmetros internacionais e em países com os quais o Brasil tem uma equivalência em termos de legislação”, explica.

Os agrotóxicos importados nesta ocasião deverão ser aprovados em países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que adotem, nos respectivos âmbitos, o International Code of Conduct on the Distribution and Use of Pesticides da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

De acordo com Rangel, o oeste da Bahia já tinha um mapeamento da situação desde o começo do ano, quando a lagarta helicoverpa se mostrou muito agressiva e acabou expandindo para outras culturas. Ele aponta ainda que estados como o Mato Grosso, Piauí e Goiás estão preparando suas declarações para que o Governo Federal reconheça o estado de emergência.

A avaliação da ASPTA é de que o decreto estabelece poucos critérios e nenhum parâmetro objetivo para a determinação, pelo Mapa, de uma situação de emergência. O texto apresenta ainda que o estado de emergência terá duração de um ano, mas poderá ser prorrogado, por igual período, quando for necessário.

“O temporário pode facilmente se tornar permanente”, avalia Flávia Londres, da ASPTA. Para Luis Rangel, a falta de clareza é uma estratégia que leva em consideração diferentes cenários que podem simbolizar o caráter de emergência. “Deixar critérios claros em situação de emergência e com legislações tão complexas como lei e decreto não é uma estratégia muito inteligente. Para evitar o anseio dos movimentos sociais de que o Mapa utilize isso de maneira indevida, estamos equilibrando nossas ações quando trabalhamos em parceria com a Embrapa, que tratou das questões técnicas e científicas que embasaram todos os critérios para a determinação da emergência”, explica,acrescentando: “Os agrotóxicos não são o fim dessas estratégias, eles são uma ferramenta para um grande plano de emergência”, explica.

Fonte: Brasil de fato

Laísa Mangelli

Encontro das Frentes Ambientalistas e do Observatório do Código Florestal


Data do evento: 10/10/2013 – 11/10/2013

Salvador (BA) terá em outubro dois dias de importantes discussões sobre política e meio ambiente. No dia 10 de outubro, a cidade sedia o I Encontro Nacional das Frentes Parlamentares Ambientalistas das Assembleias Legislativas Estaduais. Já no dia seguinte, é a vez de discutir o Código Florestal, no encontro do Observatório sobre o tema. Confira horários, locais e outros detalhes abaixo e participe!

 

Mais informações: SOS Mata Atlântica

 

                

Data do evento: 10/10/2013 – 11/10/2013

Salvador (BA) terá em outubro dois dias de importantes discussões sobre política e meio ambiente. No dia 10 de outubro, a cidade sedia o I Encontro Nacional das Frentes Parlamentares Ambientalistas das Assembleias Legislativas Estaduais. Já no dia seguinte, é a vez de discutir o Código Florestal, no encontro do Observatório sobre o tema. Confira horários, locais e outros detalhes abaixo e participe!

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Salvador (BA) terá em outubro dois dias de importantes discussões sobre política e meio ambiente. No dia 10 de outubro, a cidade sedia o I Encontro Nacional das Frentes Parlamentares Ambientalistas das Assembleias Legislativas Estaduais. Já no dia seguinte, é a vez de discutir o Código Florestal, no encontro do Observatório sobre o tema. Confira horários, locais e outros detalhes abaixo e participe!

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