Limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais exige mudanças imediatas

Foto: EBC

IPCC faz alerta para medidas imediatas e sem precedentes de redução do ritmo das mudanças climáticas

A reportagem é de Maria Fernanda Ziegler, publicada por Agência FAPESP, 10-10-18.

Limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais exige mudanças imediatas e sem precedentes na economia mundial. Essa é a avaliação do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado no último domingo (7/10).

 

Este gráfico, baseado na comparação de amostras atmosféricas contidas em núcleos de gelo e medições diretas mais recentes, fornece evidências de que o CO 2 atmosférico aumentou desde a Revolução Industrial. (Crédito: Dados do núcleo de gelo da Vostok / JR Petit e outros; Registro de CO2 da NOAA Mauna Loa.)

Produzido por 91 cientistas e revisores de 40 países para guiar líderes globais, o relatório detalha – com base em 6 mil estudos científicos – a diferença que o impacto do aumento de 1,5°C ou 2°C nas temperaturas teria para o planeta. Atualmente, a ação do homem já provocou o aumento médio de 1,1°C na temperatura global.

Diplomatas de vários países do mundo se reuniram na semana passada em Incheon, na Coreia do Sul, para negociar o relatório preparado por cientistas do IPCC. De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Pauloe membro do IPCC, houve uma forte reação dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes em defesa dos combustíveis fósseis, até que finalmente se chegasse a um consenso no sábado (6).

“O relatório diz com todas as letras que se quisermos limitar o aumento da temperatura em 2°C, não tem jeito, vai ter que ser emissão zero de carbono até 2050 e emissões negativas, ou seja, além de não emitir carbono, também sequestrar [retirar] carbono da atmosfera ao longo dos últimos 50 anos deste século. Essa seria hoje a única maneira de conseguirmos isso, uma tarefa praticamente impossível”, disse Artaxo à Agência FAPESP.

Outro ponto destacado no relatório é que muitos dos efeitos do aquecimento global já são percebidos e serão intensificados antes mesmo de atingir o limite de 1,5°C. Caso o aquecimento global continue no mesmo ritmo de hoje, a temperatura global deve aumentar 1,5°C (em comparação com os níveis pré-industriais) até 2040.

Isso acarretaria piora da escassez de alimentos, secas, enchentes, na redução da biodiversidade e a mortalidade em massa de recifes de corais. Outros impactos em destaque são o aumento do nível do mar, dos casos de doenças transmitidas por vetores, de ondas de calor e de ciclones tropicais.

Porém, a diferença de 0,5°C, além de diminuir o impacto das mudanças climáticas, impediria, por exemplo, que os corais fossem completamente erradicados e também aliviaria a pressão sobre o Ártico, reduzindo o aumento do nível do mar.

De acordo com o relatório, o que acontecer entre 2018 e 2030 será determinante, especialmente para as emissões de CO2. Entre as determinações para limitar o aquecimento global em 1,5°C estão banir os combustíveis fósseis e o desmatamento.

“Estamos em uma encruzilhada. Aquilo que for feito nos próximos cinco e 10 anos será determinante para o clima no planeta neste e nos próximos séculos. Se não agirmos agora e conseguirmos obter reduções substanciais nas emissões ao longo da próxima década, será muito difícil manter o aquecimento global em apenas 1,5°C”, disse.

Desmatamento na Amazônia

A necessidade de emissões negativas aumenta automaticamente a importância do combate ao desmatamento da Amazônia e a promoção de iniciativas de reflorestamento em larga escala visando aumentar o armazenamento de carbono. As florestas são capazes de armazenar carbono da atmosfera, questão fundamental para as mudanças climáticas.

“Com a necessidade de estocar carbono, aumenta a preocupação com a Amazônia e outras áreas de florestas tropicais que estão em risco. Temos que parar 100% com o desmatamento de áreas tropicais. Parar de destruir floresta é a maneira mais barata e eficiente para reduzir emissões e que só traz benefícios. É mais fácil e barato, por exemplo, que mudar a estrutura energética de um país e, além disso, é o que traz retorno imediato”, disse.

Artaxo ressalta que a necessidade de desmatamento zero deixa o Brasil em posição delicada. “Desmatamento é basicamente uma questão de legislação e de fazer cumprir essa legislação. Isso deixa o Brasil em situação delicada, já que nos últimos quatro anos o desmatamento aumentou de 5 mil km² para 8 mil km². É um valor absurdamente alto”, disse.

Intensificação do Acordo de Paris

O relatório do IPCC será peça-chave para a 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima(UNFCCC) que será realizada em Katowice, na Polônia, em dezembro. Na conferência, os governos vão revisar o Acordo de Paris (2015) para combater as mudanças climáticas.

“Lá será discutida a intensificação do Acordo de Paris, com metas mais altas de redução das emissões de gases do efeito estufa. Mas a Alemanha, por exemplo, já falou que não vai conseguir atingir as metas voluntárias do Acordo de Paris. Os Estados Unidos não querem que a opinião pública da indústria do carvão se vire contra eles. Países como a Polônia, por exemplo, com 70% da energia gerada por carvão, afirmam também que não vão conseguir atingir as metas”, disse Artaxo.

Acordo de Paris adotado por 195 nações na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da UNFCCC, em dezembro de 2015, incluiu o objetivo de fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas “mantendo o aumento na temperatura média global menor que o aumento de 2°C do nível pré-industrial (1750) e esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C ”.

Como parte da decisão de adotar o Acordo de Paris na COP-21, o IPCC foi convidado para produzir, em 2018, o Relatório Especial Global Warming of 1.5°C, sobre o aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e vias de emissão de gases de efeito estufa. O relatório tem como objetivo examinar a questão para o fortalecimento da resposta global às mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e esforços para erradicar a pobreza.

IHU