Estudo alerta para insuficiência de promessas contra aquecimento global


Cientistas alertam que medidas urgentes devem ser tomadas contra crise climática Foto (Sam Panthaky/AFP/CP)

Independentemente da retirada anunciada dos Estados Unidos, os compromissos adotados pelos países signatários do Acordo de Paris ainda estão longe de conter o aquecimento global, segundo um estudo publicado na última terça-feira (5).

“As promessas são insuficientes para alcançar os objetivos e algumas sequer serão cumpridas”, afirmou à reportagem Robert Watson, ex-diretor do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) e autor principal do estudo.

Este conclui que três quartos dos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris de 2015 são insuficientes ou provavelmente inalcançáveis.

As emissões mundiais passaram de 44,7 Gt (1 gigatonelada = um bilhão de toneladas) em 2010 para 53,5 Gt em 2017. E mesmo que as promessas sejam cumpridas, alcançarão 54 Gt em 2030.

“Sem mudanças radicais (…) poderíamos viver em um mundo 1,5 grau mais quente em uma década”. Para permanecer abaixo desse limite, seria necessário reduzir 50% das emissões de gases do efeito estufa (GEE) até 2030, ressaltam os autores do estudo “A verdade por trás dos compromissos do clima”, publicado pela ONG americana Fundação Ecológica Universal (FEU-US).

O Acordo de Paris pretende limitar o aquecimento a um aumento inferior a 2 graus e se possível a 1,5 grau em relação à era pré-industrial, por meio das contribuições nacionais (NDC) de redução de emissões, revisáveis a cada cinco anos.

A um ano da primeira revisão, os autores analisaram os compromissos e concluíram que das 184 NDC, 128 são insuficientes, oito “parcialmente insuficientes”, 12 “parcialmente suficientes” e 36 suficientes.

Os quatro maiores emissores, China, Estados Unidos, União Europeia (UE) e Índia, respondem por 56% das emissões mundiais. Apenas a UE (9% do total) está caminhando para cumprir seu objetivo e inclusive ultrapassá-lo, com uma trajetória em direção a 58% de reduções em 2030, com um compromisso de “ao menos 40%”.

A China, o primeiro emissor mundial com 26,8% dos GEE, e a Índia, o quarto com 7%, basearam seus compromissos em uma redução de sua “intensidade carbono”. Mas os autores consideram “insuficiente” esta categoria, que vincula as emissões com o PIB global de um país.

Os Estados Unidos, segundo emissor com 13,1%, se comprometeram a reduzir de 26% a 28% suas emissões em 2025 em relação a 2005. Mas Donald Trump confirmou nesta sua intenção de retirar seu país do Acordo de Paris, uma decisão que poderia ser efetiva em 2020.

O quinto emissor mundial, a Rússia, sequer apresentou compromissos.

Dos 152 compromissos nacionais restantes, 126 são condicionais, sobretudo entre os países mais pobres que dependem do financiamento e do apoio técnico internacional, enquanto até agora “muito pouca ajuda internacional foi concretizada”, segundo o estudo.

“Em consequência, ao menos 130 nações (…) estão muito longe de contribuir para que se alcance a redução necessária de 50% das emissões mundiais até 2030 para limitar o aquecimento a +1,5 grau”, segundo os autores.

Paralelamente, 11 mil cientistas advertiram na terça-feira que a humanidade ficará exposta a “sofrimentos indizíveis” se a “crise climática” não for abordada rapidamente e com seriedade, em um chamado publicado na revista BioScience.

“É necessário aumentar imensamente os esforços para preservar nossa biosfera com o objetivo de evitar sofrimentos indizíveis”, escrevem os signatários, citando sobretudo a necessidade de diminuir o uso de energias fósseis, preservar a biodiversidade, reorientar as prioridades econômicas do crescimento para o “bem-estar” e controlar a pressão demográfica mundial.

AFP

Rússia descobre cinco novas ilhas no Ártico após derretimento de geleiras


Soldados russos na base militar da ilha de Kotelny, no Círculo Polar Ártico (AFP/Arquivos)

A Marinha russa anunciou, nesta terça-feira (22), a descoberta de cinco novas ilhas que emergiram em meio ao derretimento de geleiras no Ártico.

As ilhas foram cartografadas em uma expedição realizada em agosto e setembro. Estavam escondidas sob geleiras, disse o chefe da frota, o vice-almirante Alexander Moiseyev, acrescentando que ainda não foram “batizadas”.

“Isso se deve, principalmente, é claro, às mudanças na situação do gelo”, declarou Moiseyev, que liderou a expedição, em uma entrevista coletiva em Moscou.

“Antes, eram geleiras. Achávamos que faziam parte da mesma geleira”, acrescentou, explicando que “o derretimento, o colapso e as mudanças de temperatura fizeram estas ilhas ficarem expostas”.

A perda de glaciares no Ártico entre 2015 e 2019 foi maior do que em qualquer outro período de cinco anos anterior já registrado, informou a ONU em um relatório sobre o aquecimento global do mês passado.

A Rússia instalou uma série de bases militares e científicas no Ártico nos últimos anos. O interesse é crescente, à medida que o aumento das temperaturas vai abrindo novas vias para a navegação e torna possível que sejam explorados recursos minerais até então inacessíveis.

Cerca de 60 pessoas participaram de uma expedição neste verão aos arquipélagos Terra de Francisco José e Nova Zembla, incluindo civis da Sociedade Geográfica russa. Foi a primeira em que se usou um rebocador de resgate, no lugar de um quebra-gelo.

Durante a expedição, o Ministério da Defesa anunciou que encontrou cinco novas ilhas na baía de Vize, frente a Nova Zembla, um grande arquipélago montanhoso com duas ilhas principais.

Estas ilhas já haviam sido detectadas por satélite, mas a expedição foi a primeira a avistá-las.

Além disso, a instituição confirmou a existência de uma ilha que previamente havia sido cartografada como uma península de Hall Island, parte do arquipélago da Terra de Francisco José, ao oeste de Nova Zembla.

AFP

Derretimento do permafrost aumenta risco de contaminação por mercúrio


Mercúrio que ficou preso no solo congelado agora está sendo liberado de várias formas nas vias fluviais (Flickr)

À medida que as temperaturas globais continuam subindo, o degelo do permafrost nas áreas do Ártico está acelerando e o mercúrio que ficou preso no solo congelado agora está sendo liberado de várias formas nas vias fluviais, no solo e no ar.

De acordo com pesquisadores da Universidade de New Hampshire, esse processo pode resultar na grande transformação do mercúrio em formas mais móveis e potencialmente tóxicas que podem levar a consequências ambientais e problemas de saúde para a vida selvagem, a indústria pesqueira e as pessoas no Ártico e além.

Em sua pesquisa , publicada recentemente na Geochemical Perspectives Letters, os cientistas examinaram a realocação de mercúrio – o movimento de solos previamente congelados para os ambientes circundantes – ao norte do Círculo Polar Ártico, em Abisko, na Suécia. Eles descobriram que, conforme a paisagem muda devido ao aquecimento das temperaturas, eles observam um aumento significativo nos níveis de metilmercúrio, uma neurotoxina, que pode ter uma cascata de efeitos.

“Nossa pesquisa sugere que a vida selvagem do Ártico, como pássaros e peixes, pode estar em risco aumentado de exposição a níveis mais altos de metilmercúrio que podem afetar sua reprodução e população”, disse Florencia Fahnestock, candidata a doutorado em ciências da Terra e principal autora do estudo. “Ele também tem o potencial de impactar os povos indígenas se eles estiverem comendo animais selvagens contaminados com metilmercúrio e, possivelmente, a indústria pesqueira, se o mercúrio for liberado da bacia para o oceano”.

O estudo analisou detalhadamente como as mudanças climáticas estão causando a transformação das paisagens e, portanto, favorecem a produção de metilmercúrio. Eles analisaram o “mercúrio total” – todas as formas diferentes de mercúrio, incluindo sólido, gás, metil – e a maneira como ele muda, juntamente com as paisagens de degelo, para o metilmercúrio mais nocivo. A forma mais tóxica de mercúrio, é mais facilmente absorvida pelos animais.

Três paisagens diferentes foram examinadas para a evolução das comunidades de mercúrio e microbiana ao longo dessas paisagens para determinar como essas mudanças ocorreram. Eles avaliaram a palsa, ou permafrost congelado, a área semi-descongelada, freqüentemente conhecida como pântano, e o fen, uma paisagem saturada cheia de água corrente e turfa totalmente descongelada.

Ar, água e solo foram analisados quanto ao metilmercúrio e os pesquisadores descobriram que os pântanos tinham concentrações muito maiores de metilmercúrio do que as outras paisagens. Fahnestock explica que, embora o permafrost contenha mercúrio, ele não é metilado. Somente quando atinge os pântanos aquosos é que a falta de oxigênio nos sedimentos fornece o ambiente perfeito para a conversão em metilmercúrio.

“Não temos uma boa noção de como o mercúrio entra nas redes alimentares terrestres; pode depender de onde os animais terrestres pastam ”, disse Julie Bryce, professora de geoquímica. “As plantas que crescem em alguns desses ambientes de degelo podem ser carregadas de mercúrio.”

O mercúrio é naturalmente emitido na atmosfera por vulcões, incêndios florestais e pelo desgaste das rochas, mas os combustíveis fósseis e a mineração de ouro também são os principais contribuintes. Enquanto o estudo analisou as mudanças da paisagem no Ártico, os pesquisadores dizem que essa mesma migração de mercúrio e produção de metilmercúrio podem ocorrer em outras áreas.

O mercúrio, liberado durante o degelo, pode ser transportado pela água e pelo vento – geralmente muito longe de sua fonte original. Se for convertido em metilmercúrio após a liberação ou durante o transporte, ele tem mais potencial para entrar na cadeia alimentar – através de peixes, pássaros e animais selvagens – e a potência aumenta à medida que sobe na cadeia alimentar, tornando-se uma possível preocupação de saúde pública.

EccoDebate

Estudo reforça associação entre aquecimento global e Revolução Industrial


No entanto, os dados disponíveis não contam uma história completa do processo de aquecimento moderno do planeta. Afinal, em 1880, a Revolução Industrial e o consumo de combustíveis fósseis, particularmente carvão, já faziam parte da vida econômica ocidental havia algumas décadas. Tanto que, na Grã-Bretanha, já existiam leis referentes à poluição atmosférica decorrente da atividade industrial desde 1863 (com a promulgação do Alkali Act, que restringia a emissão de ácido clorídrico gasoso decorrente do processoLeblanc para produção de carbonato de sódio, importante para as indústrias de vidro, sabão, papel e têxtil, entre outras).

Ou seja, não temos um registro técnico confiável sobre a evolução da temperatura média global nas primeiras décadas da Revolução Industrial, exatamente o momento inicial do processo de aquecimento moderno do planeta.

Uma pesquisa recém-publicada na revista Nature explorou possíveis registros de temperatura das décadas anteriores a 1880, de forma a identificar quando e como apareceram os primeiros sinais de aquecimento a partir do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) decorrentes de atividades humanas.

Usando dados paleoclimáticos a partir do ano 1500 – o registro natural da temperatura do planeta contido em fontes naturais, como as bandas de crescimento de corais (nos oceanos tropicais) e árvores, além de núcleos de gelo (nos polos terrestres) – pesquisadores australianos liderados pelo professor Nerilie Abram, da Australian National University, conseguiram estimar que a temperatura da Terra começou a subir entre os anos 1830 e 1850.

A partir de simulações climáticas, os cientistas fizeram uma correlação entre os registros de temperatura nessas fontes naturais e o aumento das emissões de GEE das atividades das primeiras décadas de industrialização na Europa. A industrialização do século XIX resultou em pequenas subidas na concentração de GEE na atmosfera, mas a reação climática a essa mudança foi rápida, algo que surpreendeu os pesquisadores.

“O início do aquecimento detectado nesse estudo indica que o clima da Terra reagiu de forma rápida e mensurável ao pequeno aumento das emissões de carbono no começo da era industrial”, apontou Helen McGregor, da Universidade de Wollongong, uma das co-autoras do estudo, para o portal Climate Home.

 

Essa constatação é importante para entender até que ponto os dados de base de 1880 podem ser considerados como “normais” para efeito de comparação com os registros anuais posteriores de temperatura. Se levarmos em conta os dados analisados por este estudo, a Terra já pode ter superado o limite de aquecimento de 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais, um dos objetivos de longo prazo definidos pelo Acordo de Paris na contenção das emissões de GEE e na mitigação dos efeitos da mudança do clima – ou seja, pode ser tarde demais para evitar algumas consequências negativas desse processo, como o degelo das calotas polares e o aumento subsequente do nível do mar.

Ao mesmo tempo, o estudo oferece uma esperança. Considerando a rapidez com que o sistema climático respondeu ao pequeno aumento na concentração de GEE na atmosfera no começo da era industrial, “há potencial de que isso possa ter um outro lado”, disse Nerilie Abram ao jornal Guardian. “Se pudermos fazer alguma coisa para diminuir as emissões de GEE, ou até mesmo começar a retirá-las da atmosfera, pode haver, pelo menos, algumas áreas do sistema climático em que teremos um rápido retorno [à normalidade]”.

Fonte: Página 22

Erosão marinha na costa brasileira


Erosão marinha na costa brasileira: depois da falta de prioridade, busca-se às pressas fazer qualquer tipo de intervenção na falésia do Cabo Branco. Entrevista especial com Williams Guimarães

 

“O nível do mar não deixou de variar durante o período geocronológico do nosso Planeta e isso ocasiona mudanças na linha de costa, tornando esse processo inevitável”, diz o geógrafo.

 

Foto: J.C Alvarez / http://bit.ly/291RP0R
 

No último século, o nível do mar subiu entre 10 e 20 cm, o que caracteriza cerca de 1 a 2 mm por ano. Embora se trate de um “ciclo natural”, a elevação dos últimos anos também está relacionada à “expansão térmica dos oceanos, ocasionada peloaquecimento global”, e os impactos dessa elevação “variam muito em função da configuração do tipo de cada costa”, diz Williams Guimarães em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

 

Segundo o geógrafo, a subida do nível do mar “é uma das várias causas que acelera o processo erosivo costeiro e pode permitir à costa retornar para um cenário semelhante ao fim da última glaciação, que ocorreu há aproximadamente 11.000 anos”. Partindo desse pressuposto, explica, “entende-se que o nível do mar está subindo e a grande diferença agora é a presença dos seres humanos, que se concentram cada vez mais na zona costeira, sem saber ao certo quando ou como a areia começará a se deslocar”.

No Brasil, exemplifica, alguns efeitos já podem ser observados na falésia do Cabo Branco, em João Pessoa, na Paraíba, onde a prefeitura decretou estado de emergência na semana passada. “A orla do município de João Pessoa, em razão de processos naturais e antrópicos, enfrenta a erosão marinha. Estes fenômenos naturais, amplificados por ações antrópicas, atingem, principalmente, a Praia do Seixas, Ponta do Cabo Branco e o trecho da Praia do Cabo Branco defronte à Praça de Iemanjá”, informa o geógrafo. De acordo com ele, na costa brasileira “ocorre mais erosão costeira continente adentro, associado a vários fatores naturais e antrópicos do que mais precisamente mudanças significativas no nível do mar”.

Na avaliação do geógrafo, “efetivamente tem-se feito muito pouco” no sentido de promover ações de mitigação para solucionar os problemas na região, apesar de a área já ter sido “estudada por décadas”. O último estudo, diz, foi realizado entre 2007 e 2009 e apresentou um “levantamento detalhado da área com dados primários apontando as fragilidades do ecossistema local, por meio de diagnósticos do meio físico e biótico, apontando os tipos de soluções de intervenção mais adequadas sugeridas para esta área”.

O estudo, informa, foi discutido em audiência pública com técnicos, membros da sociedade civil organizada e órgãos governamentais do meio ambiente do município e do estado, mas foi interrompido pela burocracia. “Fui um dos que apresentaram estes estudos a vários setores da sociedade paraibana, desde 2010 até 2012, objetivando mitigar o problema da erosão acentuada deste ambiente que tem uma variação significativa entre 0,46 e 1,92 metros por ano — dados obtidos por esses estudos. Devido às condições burocráticas e à falta de prioridade em fazer algum tipo de intervenção na área, a mesma encontra-se em estado de calamidade ao longo destes anos. Contudo, após pressão de quase toda a sociedade paraibana, busca-se às pressas fazer qualquer tipo de intervenção neste ambiente que, diga-se de passagem, é muito preocupante”, lamenta.

Williams da Silva Guimarães de Lima é graduado em Geografia pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB, mestre em Geodinâmica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Atualmente é professor da Escola das Engenharias, Arquitetura e Tecnologias da Faculdade Internacional da Paraíba.

Confira a entrevista.

 

Imagem aérea do Farol do Cabo Branco
Foto: Reprodução/Clilson Jr

 

IHU On-Line – Já é possível identificar quais são as razões de por que o nível do mar está avançando sobre a costa?

Williams Guimarães – No tocante a este questionamento, considera-se que o nível do mar não deixou de variar durante o período geocronológico do nosso Planeta e isso ocasiona mudanças na linha de costa, tornando esse processo inevitável. Alguns estudos apontam que, durante a última década, o nível médio do mar subiu em média 2,5 mm por ano, sugerindo, assim, que durante o século XX, por exemplo, o nível do mar subiu cerca de 10 a 20 cm, ou seja, de 1 a 2 mm por ano. Contudo, essa elevação não foi uniforme sobre a superfície total dos oceanos. Além disso, essa alta estava correlacionada com a expansão térmica dos oceanos, ocasionada pelo aquecimento global. Os impactos decorrentes de tal elevação, em regra geral, não são constantes e variam muito em função da configuração do tipo de cada costa.

 

Como se trata de um ciclo natural, decorrente em nosso Planeta, sugere-se que as praias sofrerão modificações bem mais importantes que no passado recente. A subida do nível do mar é uma das várias causas que acelera o processo erosivo costeiro e pode permitir à costa retornar para um cenário semelhante ao do fim da última glaciação, que ocorreu há aproximadamente 11.000 anos, quando a elevação do nível do mar foi rápida (em termos geológicos). Partindo desse pressuposto, entende-se que o nível do mar está subindo e a grande diferença agora é a presença dos seres humanos, que se concentram cada vez mais na zona costeira, sem saber ao certo quando ou como a areia começará a se deslocar.

IHU On-0Line – Quais são as informações mais recentes acerca do avanço do nível do mar sobre a costa brasileira? É possível saber quanto o nível do mar aumentou nos últimos anos no Brasil?

Williams Guimarães – No que diz respeito ao avanço do nível do mar na costa brasileira, temos que levar em consideração que o litoral brasileiro é muito extenso, que possui comportamento distinto, além de sua dinâmica em decorrência dos mais variados fatores, tais como declividade da plataforma continental, disponibilidade de suporte sedimentar, variação de alturas das ondas, ventos, predisposição das praias às ondas de tempestades, dentre tantos outros aspectos. Por conta disso, as situações com relação ao nível do mar variam bastante; por exemplo, existem praias erosivas, que nos dão uma falsa impressão de que o nível do mar está aumentando.

Outro fenômeno que se deve levar em consideração são os lugares em que a amplitude da maré (preamar e baixa-mar) varia muito, podendo confundir num estudo de aumento do nível do mar. Vamos fazer uma analogia levando em consideração as regiões Norte e Nordeste brasileiras. Existem regiões em Macapá-AP, Norte do Brasil, em que a diferença entre a maré alta e baixa chega a quase 16 metros. Em João Pessoa-PB, Nordeste brasileiro, essa diferença não chega a mais que 2,8 metros. Vale ressaltar que esta diferença acarreta um recuo em cerca de metros a quilômetros na praia. A resposta à pergunta se a Linha de Costa sofre com a Elevação do Nível do Mar vai depender de suas características geológicas/geomorfológicas.

Sendo assim, pode-se considerar uma variação de efeitos que poderão oscilar entre nenhum (costão rochoso), erosão (praias arenosas, falésias sedimentares) e inundação (áreas baixas frequentemente ocupadas por manguezais ou pântanos), sendo esse considerado um cenário bem mais pessimista, segundo estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), entre 1990 e 2001. No Brasil, ocorre mais erosão costeira continente adentro associada a vários fatores naturais e antrópicos do que mais precisamente mudanças significativas no nível do mar. O nível do mar está subindo? Fica difícil garantir, pois os efeitos de um possível aumento do nível do mar agem de formas diferenciadas, de região para região, de uma maneira imperceptível aos nossos olhos.

"A gravidade dos impactos dependerá de quanto esta elevação se dará, mas sabe-se que os efeitos serão de grandes proporções em escala global"

 

IHU On-0Line – Hoje, a elevação do nível do mar já afeta, direta ou indiretamente, as atividades costeiras? Como?

Williams Guimarães – A gravidade dos impactos dependerá de quanto esta elevação se dará, mas sabe-se que os efeitos serão de grandes proporções em escala global. Por exemplo, as inundações costeiras já são maiores e mais frequentes do que eram no início do século XX. Outros efeitos em decorrência do aquecimento global ampliarão os impactos, devido ao aumento de tempestades e tufões provocando nas costas enormes estragos, incluindo perdas de muitas vidas. Outro fenômeno são as intensificações do regime de chuvas que caem no litoral, aumentando os estragos. Também se deve levar em consideração a altura média das ondas, que tendem a aumentar, tanto pelo efeito de tempestades mais repetidas quanto por mudanças no padrão dos ventos e das correntes marinhas, ocasionadas por interferência do aquecimento global.

IHU On-0Line – Segundo as últimas notícias, a barreira do Cabo Branco, em João Pessoa, ameaça desabar por causa do impacto das ondas do mar. Quais são os riscos? Algo já está sendo feito para evitar tais riscos?

Williams Guimarães – A orla do município de João Pessoa, em razão de processos naturais e antrópicos, enfrenta aerosão marinha. Estes fenômenos naturais, amplificados por ações antrópicas, atingem, principalmente, a Praia do SeixasPonta do Cabo Branco e o trecho da Praia do Cabo Branco defronte à Praça de Iemanjá. Os processos nas áreas em situação crítica de erosão podem ser resumidos em:

• falta do fornecimento de sedimentos;
• desaparecimento da praia de proteção;
• ataque das ondas ao pé da falésia;
• formação do entalhe de erosão;
• grandes desmoronamentos;
• falésias atuais com forte talude;
• ocupação do solo associada ao desmatamento;
• alterações da permeabilidade do solo e drenagem.

Como se pode observar, os efeitos da erosão na Falésia do Cabo Branco são inúmeros e não somente pela ação do batimento das ondas no sopé da falésia, fenômeno esse considerado coadjuvante. Os riscos são vários, desde acarretar a perda do patrimônio público até colocar em risco a integridade física dos usuários. Vale ressaltar que oFarol do Cabo Branco, um dos vários pontos turísticos do Estado da Paraíba, em termos de visitação representa 71% de turistas. A estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Arte (Estação Ciência) tem quase 56% de visitação por turistas, e não podemos desassociar isto ao colocar em risco a integridade física destes usuários.

No que diz respeito às ações de mitigações destes problemas ocorridos na área, efetivamente tem-se feito muito pouco. Vale ressaltar que a área já foi estudada por décadas. Nos últimos estudos gerenciados pela Fundação Apolônio Sales da Universidade Federal Rural de Pernambuco, que envolveu pesquisadores também daUniversidade Federal de PernambucoUniversidade Federal da Paraíba e Universidade Federal do Ceará, ocorrida entre 2007 e 2009, fez-se um levantamento detalhado da área com dados primários apontando as fragilidades do ecossistema local, por meio de diagnósticos do meio físico e biótico, apontando os tipos de soluções de intervenção mais adequadas sugeridas para esta área.

Estes estudos passaram por audiência pública, foram amplamente discutidos com técnicos competentes, além da sociedade civil organizada e órgãos governamentais do meio ambiente, tanto do município quanto do estado. Fui um dos que apresentaram estes estudos a vários setores da sociedade paraibana, desde 2010 até 2012, objetivando mitigar o problema da erosão acentuada deste ambiente que tem uma variação significativa entre 0,46 e 1,92 metros por ano — dados obtidos por esses estudos. Devido às condições burocráticas e à falta de prioridade em fazer algum tipo de intervenção na área, a mesma encontra-se em estado de calamidade ao longo destes anos. Contudo, após pressão de quase toda a sociedade paraibana, busca-se às pressas fazer qualquer tipo de intervenção neste ambiente que, diga-se de passagem, é muito preocupante. As intervenções que se propõem na atual conjuntura vão de encontro aos estudos realizados pelas instituições acima mencionadas.

Imagem da Falésia do Cabo Branco
Foto: Walla Santos / MP/PB

IHU On-0Line – Como é feito o monitoramento do aumento do nível do mar no Brasil?

Williams Guimarães – Normalmente, este monitoramento é feito em parceria com instituições de ensino superior, tanto nacionais, como Universidade Federal de PernambucoUniversidade Federal do Ceará e Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, quanto instituições internacionais, como o próprio IPCC, que trabalham com tratos desta natureza.

IHU On-0Line – O Brasil já tem algum tipo de política para prevenir a destruição de regiões localizadas próximo à costa, caso o nível do mar continue aumentando? Que políticas ou ações poderiam ser realizadas para conter os possíveis impactos causados pelo avanço do nível do mar nas comunidades costeiras?

Williams Guimarães – O Projeto de Gestão Integrada da Orla Marítima – Projeto Orla surge como uma ação no âmbito do Governo Federal, conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente, em consonância com a Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos e a Secretaria do Patrimônio da União do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, para buscar implementar uma política nacional que harmonize e articule aspráticas patrimoniais e ambientais com o planejamento de uso e ocupação desse espaço que constitui a sustentação natural e econômica da Zona Costeira.

O desafio deste projeto é lidar com a diversidade de situações representadas por uma extensa faixa, que atinge 8.500 km de litoral, com aproximadamente 300 municípios litorâneos e, de acordo com o último censo, tem uma população aproximada de 32 milhões de habitantes. Então, como se pode observar, o desafio é grande em se tratando de Brasil, pois a diversidade de cultura, ambiente e decisões políticas são fatores fundamentais para dar celeridade a estes aspectos.

Por Patricia Fachin

Fonte: IHU 

Brasil vai liderar luta contra o aquecimento global


Brasil vai liderar luta contra o aquecimento global, diz especialista

José Romildo – Correspondente da Agência Brasil

O Brasil é um dos países mais bem preparados para cumprir os objetivos do Acordo de Paris, que prevê medidas para controlar o aquecimento global, disse hoje o integrante da Coalizão Brasil e presidente do Conselho da Amata, Roberto Waack, após participar da reunião de líderes mundiais para a assinatura do acordo na sede da ONU, em Nova York.

Waack citou, entre as vantagens comparativas do Brasil, a disponibilidade de terra, de energia e de ambiente institucional, representado pela existência de um código florestal. Esses fatores, somados, propiciam uma combinação muito favorável de “conservação e de produção”.

Os líderes mundiais, que representam mais de 170 países, assinaram documento em que proclamam princípios de defesa do meio ambiente e insistem para que os parlamentos de cada país adotem uma regulamentação que permita limitar o aumento da temperatura global abaixo de 2º Celsius (C) e, ao mesmo tempo, tentar um objetivo mais ambicioso: reduzir o aumento de temperatura para 1,5º C.

Segundo o membro da Coalizão Brasil, que é um movimento multissetorial comprometido com a adoção da agenda das mudanças climáticas, o quadro brasileiro é vantajoso perante o mundo. Roberto Waack observou que a existência de uma combinação brasileira de conservação e de produção, em contraste com o antagonismo de outros países, que precisam escolher entre conservação ou produção.

Segundo ele, as condições do país colocam o Brasil como uma liderança mundial, no que se refere à oferta de produtos com baixa utilização de carbono. Por isso, “o Brasil precisa cuidar para que o processo decorrente do Acordo de Paris receba endosso do Legislativo rapidamente”, afirma Waack.

Fonte: EBC

Mudança do clima põe US$2,5 trilhões em risco


Foto: quantz/flickr

Foto: quantz/flickr

Um estudo divulgado na segunda-feira (4) na Nature mostra que um aquecimento de 2,5°C até 2100 pode colocar em risco US$2,5 trilhões em ativos – o que representa 1,8% da economia global. No cenário mais pessimista da pesquisa da London School of Economics, e com as incertezas de valoração dos riscos impostos pela mudança do clima, há 1% de chance de que o prejuízo chegue até US$ 24 trilhões.Os autores, liderados por Simon Dietz, concluem que limitar o aquecimento do planeta em 2°C, como acordado na COP21 em Paris, poderia reduzir significativamente os valores sob risco por conta do clima. Mesmo assim, US$ 1,7 trilhões continuarão em risco.“Nossos resultados podem surpreender os investidores, mas não será surpresa para muitos economistas que trabalham em mudanças climáticas, porque os modelos econômicos ao longo dos últimos anos vêm gerando estimativas cada vez mais pessimistas sobre os impactos do aquecimento global sobre o crescimento econômico futuro”, diz Diez. “Mas também descobrimos que o corte de gases de efeito estufa para limitar o aquecimento global a não mais que 2°C reduz substancialmente o valor em risco por causa do clima.”Para apresentar este resultado, os pesquisadores levaram em consideração uma carteira diversificada de ativos e quatro dimensões da incerteza: a taxa de crescimento da produtividade, a vulnerabilidade climática, perdas no PIB relacionadas ao clima e custos de redução de emissões.De acordo com o estudo, há duas maneiras principais em que as mudanças climáticas podem afetar o valor dos ativos financeiros: a destruição direta ou depreciação de bens de capital por eventos climáticos extremos (secas, inundações, tempestades, incêndios), por exemplo, e na mudança no retorno sobre ativos de capital, na produtividade do conhecimento e ou da produtividade do trabalho e, portanto, do salário e distribuição de lucros.

Os pesquisadores ressaltam que investidores institucionais, em especial fundos de pensão, estão na vanguarda do trabalho nesta área. “Para eles, a possibilidade de que as mudanças climáticas reduzam o retorno de longo prazo de investimentos faz com que seja uma questão de dever fiduciário para com os beneficiários de fundos”, dizem os autores. “É por isso que não é incomum ver os fundos de pensão defendendo redução significativa de emissões.”

Segundo análises apresentadas por pesquisadores, as metas voluntárias de redução de emissões apresentadas pelos países à Convenção de Mudanças Climáticas até agora coloca o mundo numa trajetória rumo aos 2,7ºC a 3,5ºC. A revisão dessas metas deve acontecer antes de 2020, quando entra em vigor o Acordo de Paris.

*Este artigo foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima, republicado em O Eco através de um acordo de conteúdo. logo-observatorio-clima

Fonte: (o)eco

O Aquecimento Global e a Amazônia: entre desafios e o infinito


O Aquecimento Global e a Amazônia: entre desafios e o infinito, artigo de Rinaldo Segundo

 

“…a terra em si é de muito bons ares … àguas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem as águas que têm.” Pero Vaz de Caminha, Carta a el-Rei Dom Manuel.

 

[EcoDebate] Afinal, o que o aquecimento global tem a ver com o Brasil e com a Amazônia?

As emissões de gases de efeito estufa (GEE) no Brasil são inversamente proporcionais aos números internacionais. Assim, enquanto 80% das emissões mundiais de GEE se relacionam à produção de energia e à queima de combustíveis fósseis, os restantes 20% são devidos às mudanças no uso da terra. A maior parte das emissões brasileiras, porém, são devidas ao desmatamento e às mudanças no uso da terra, enquanto a menor parte resulta do uso de combustíveis fósseis e da produção de cimento (esse número já foi, respectivamente, 75% e 25%.)

Isso se explica pela baixa dependência brasileira aos combustíveis fósseis. A energia hidrelétrica é a principal fonte de energia no Brasil, e a utilização de etanol para veículos a motor, generalizada. Em 2005, 75% da energia consumida no Brasil foi gerada em hidrelétricas. Globalmente, o Brasil foi/é responsável por 4% das emissões anuais de CO2. Importante: todos esses dados podem variar de um ano para outro embora sem alterar a estrutura das emissões de GEE.

Fato é que o Brasil contribui para o aquecimento global principalmente através do desmatamento da floresta amazônica, já que as emissões de GEE oriundas do desmatamento e uso do solo respondem significativamente pelas emissões. Árvores derrubadas e queimadas significam mais CO2 liberado para a atmosfera. É verdade que o desmatamento tem sido reduzido desde 2004, quando 27,772 quilômetros quadrados foram destruídos. Em 2008, esse número diminuiu para 12,911, e para 7,469 em 2009. Em 2010, os números foram estimados em 6,451. Apesar disso, o desmatamento ilegal ainda é desafiador.

Há outro desafio. Dia 31 de outubro de 2011 é uma data histórica. Nessa ocasião, o planeta Terra atingiu 7 bilhões de pessoas. As projeções para o futuro são de contínuo aumento populacional. Até a metade do século, conforme estimativas da ONU, o mundo terá mais de 9 bilhões de pessoas. Um aumento de 30% comparado à população atual. Apenas na África Subsaariana, até 2050, a população passará de 770 milhões para 2 bilhões de pessoas.

Esse contínuo aumento populacional gera preocupações relacionadas à fome e à má nutrição. Hoje, apenas na Ásia e na América Latina, 554,5 e 47,1 milhões de pessoas, respectivamente, não recebem alimentação adequada. Computando todos os países em desenvolvimento, os números de má nutrição e fome aguda alcançam 835,2 milhões de pessoas, ou seja, 12% da população mundial.

A preocupação futura é ainda maior. Primeiro, espera-se o aumento de preços dos alimentos até a metade do século em função do aumento da temperatura do planeta. Segundo, a projeção de 9,1 bilhões de pessoas em 2050 exigirá o aumento da produção de alimentos em 70%.

A necessidade de aumento na produção de alimentos é desafiada pelo aumento na temperatura do planeta, já que o aumento da temperatura pode reduzir a produção e a produtividade de alimentos no mundo. Esse é um grande desafio amazônico e brasileiro: aumentar a produção de alimentos simultaneamente ao crescimento populacional mundial.

Mas, há outro desafio: a mudança no paradigma de exploração infinita dos recursos naturais. Em sua carta à ocasião do descobrimento do Brasil, Pero Vaz de Caminha reportou uma natureza infinita. Hoje, as florestas e as águas de Caminha são, cada vez mais, findas. Os efeitos nocivos dessa visão infinita na exploração dos recursos naturais deveria moldar a exploração atual e futura dos recursos amazônicos, evitando-se a repetição de erros passados.

*Artigo 3 da série de artigos Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.

Rinaldo Segundo, promotor de justiça no MPE/MT e mestre em direito (Harvard Law School), é autor do livro “Desenvolvimento Sustentável da Amazônia: menos desmatamento, desperdício e pobreza, mais preservação, alimentos e riqueza,” Juruá Editora

 

in EcoDebate, 23/02/2016

Aquecimento global ameaça deixar 1,75 bilhão sem água


Aquecimento global ameaça deixar 1,75 bilhão sem água, diz ambientalista

Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - A coordenadora da Aliança pela Água, Maru Whately, fala no debate Chapa Quente do Aquecimento Global, no encontro global Emergências (Fernando Frazão/Agência Brasil)

A coordenadora da Aliança das Águas, Maru Whately, grupo que reúne hoje cerca de 60 entidades de diferentes áreas, convocou todos, governo e sociedade, a repensarem sua relação com a águaFernando Frazão/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os dados foram apresentados pela coordenadora da Aliança das Águas, Maru Whately, em uma mesa redonda – Chapa quente do aquecimento global – ocorrida na tarde de hoje (11), no encontro global Emergências, iniciativa do Ministério da Cultura que debate desde segunda-feira, no Rio de Janeiro, a cultura como ativadora de processos na conquista de direitos civis, políticos, sociais, econômicos e ambientais.

A arquiteta e urbanista, que integra o Instituto Socioambiental, disse que a Aliança das Águas se formou no ano passado, com a crise de abastecimento em São Paulo, e reúne hoje cerca de 60 entidades de diferentes áreas. O objetivo é contribuir para a segurança hídrica do estado. Segundo ela, apesar de cientistas não afirmarem que as mudanças no ciclo hídrico estão relacionadas com o desmatamento ou o aquecimento global, as mudanças são perceptíveis.

“Nós somos a Arábia Saudita da água e estamos ficando secas. Temos 12% da água doce do mundo, com o aquífero Guarani, o aquífero na Amazônia. E vimos as grandes cidades ficando sem água. Desde o surgimento da água e a formação do ciclo hidrológico, tudo o que acontece com o clima a gente vê através da água. A estiagem de 2014 foi um evento climático extremo e eles tendem a ser cada vez mais frequentes. Há questões climáticas em várias partes do mundo, na Califórnia, e parte da tensão hoje na Síria é por causa disso. A previsibilidade do clima que a gente tinha está mudando”.

Maru convocou todos, governo e sociedade, a repensarem sua relação com a água e, também, com o saneamento básico. “Precisamos de uma nova cultura para cuidar da água. Não ter acesso à água pode ser terrível, mas não ter acesso a saneamento é horrível também. Estamos vendo a questão da microcefalia e do zika vírus, boa parte disso relacionada à falta de cuidado das pessoas com a água parada. Questões do saneamento são importantes, também. Tem que tratar, é inadmissível que haja um rio como o Tietê. Água não é responsabilidade só de uma instância, isso é muito mais complexo. Se a gente quiser ter água, precisa cuidar das fontes, dos mananciais, das nascentes. É vergonhoso o que se tem de perda da água no sistema de distribuição. Precisamos rever o valor econômico da água e precisamos de participação e controle social nisso”.

Rio de Janeiro - O indígena Benki Ashaninka fala no debate Chapa Quente do Aquecimento Global, durante o Encontro global Emergências (Fernando Frazão/Agência Brasil)

O líder indígena Benki Ashaninka, do Acre, chamou a todos para mudar o olhar sobre a população indígena, sua cultura e relação com a naturezaFernando Frazão/Agência Brasil

O líder indígena Benki Ashaninka relatou sua experiência de formação dos jovens na cultura de seu povo e nos cuidados com a floresta, na região do município de Marechal Thalmaturgo, no interior do Acre. Ele disse que, ainda adolescente, após participar da Eco 92, no Rio de Janeiro, liderou um projeto de levantamento das tradições e conhecimentos do povo Ashaninka em seu território indígena.

“Chamei 60 jovens de 5 a 16 anos, o mais velho era eu, para saber da nossa história, nossos animais, frutos, medicina e a nossa língua, conversando com nossos anciões. Com isso, aprendi muito e plantei muita árvores, conseguimos reflorestar uma parte do território e é de onde a gente tira as frutas. Dos 25% que tinha desmatado, dentro dos 87 mil hectares, a gente hoje só tem 100 hectares desmatados para as famílias plantarem a macaxeira”.

Benki também chamou a todos para mudar seu olhar sobre a população indígena, sua cultura e relação com a natureza, consideradas por muitos como sinônimo de pobreza pela falta de eletrodomésticos.

Fonte: EBC Agência Brasil

 

Aquecimento global deve extinguir 30% das espécies do planeta até 2050


Segundo economista, se a temperatura da Terra subir os dois graus previstos, a fauna e a flora das áreas naturais de todo o mundo estarão ameaçadas

 

aquecimento

 

A economia mundial deverá definir, de forma urgente, uma estratégia para proteger os ambientes naturais de forma a garantir a sobrevivência da população e da biodiversidade do planeta. O alerta foi feito pelo economista e ecólogo, Sérgio Bessermann Vianna, durante o VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), evento internacional realizado em setembro, em Curitiba.

“A natureza não se recompõe na mesma velocidade da utilização dos recursos naturais necessários para viabilizar o aumento da produção de alimentos e de bens de consumo que a demanda exige. O meio ambiente está no limite para a entrega de serviços que garantem o bem-estar e a sobrevivência da humanidade”, afirmou o economista. Segundo ele, o planeta já ultrapassou três dos nove limites apresentados no estudo ‘Um espaço operacional seguro para a humanidade’, coordenado pelo pesquisador Johan Rockstrom, da Universidade de Estocolmo.

De acordo com o estudo, ‘limites planetários’ são processos que influenciam a habilidade do planeta de manter seus ecossistemas e processos naturais em equilíbrio, o que é indispensável para garantir a sobrevivência e a qualidade de vida das populações. O estudo mapeou nove elementos que são fundamentais para a sustentabilidade da Terra: controle das mudanças climáticas; (alteração na) acidificação dos oceanos; interferência nos ciclos globais de nitrogênio e de fósforo; uso de água potável; alterações no uso do solo; carga de aerossóis atmosféricos (partículas sólidas ou líquidas que ficam suspensas no ar como poeira, fuligem e fumaça); poluição química; e a taxa de perda da biodiversidade, tanto terrestre como marinha. Dos nove, as atividades humanas já ultrapassaram os limites adequados para três: mudanças climáticas, biodiversidade e concentração de nitrogênio na atmosfera.

Vianna afirmou que o uso de fosfatos nitrogenados, base da agricultura moderna, cresceu de forma assustadora nos últimos seis anos. As consequências disso, segundo ele, impactam nos oceanos, onde é percebido o aumento das zonas mortas, áreas onde os níveis de oxigênio sofrem perdas e as espécies marinhas não podem sobreviver. “Isso é inaceitável”, ressalta.

Uma solução, segundo o economista, é que a agricultura adote a combinação de produção e rotação, associada a novas técnicas agrícolas como a agroecologia, que estabelece relações harmônicas entre a agricultura e o meio ambiente, buscando a integração equilibrada da atividade agrícola com ações de preservação.

Para Malu Nunes, diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário, a Adaptação com Base em Ecossistemas (AbE) pode contribuir para um aproveitamento mais adequado e inteligente dos recursos naturais. Apesar de estabelecer parâmetros para as comunidades se adaptarem às mudanças climáticas, as estratégias de AbE são bons exemplos que podem ser aplicados para outros fins. “Mexer na microbiota das raízes das plantas cultivadas para que elas absorvam mais nitrogênio ao invés de despejarmos toneladas dele para adubar os solos é um bom exemplo de aproveitamento inteligente dos recursos naturais” disse.

A Fundação Grupo Boticário lançou em janeiro deste ano o estudo ‘Adaptação Baseada em Ecossistemas: oportunidades para políticas públicas em mudanças climáticas’. O modelo prevê o aproveitamento dos serviços ambientais providos pelos ecossistemas conservados, bem como da sua biodiversidade, como parte de uma estratégia de adaptação mais ampla para auxiliar as pessoas e as comunidades a se adaptarem aos efeitos negativos das mudanças climáticas (como secas e enchentes) em níveis local, nacional, regional e global.

Unidades de conservação podem se tornar ineficazes

No que diz respeito à biodiversidade, Vianna enfatizou que 20% a 30% das espécies vivas conhecidas podem ser extintas até 2050. Parte dessa perda será provocada pelas mudanças climáticas. Vianna afirmou que, se confirmados, os dois graus previstos para o aumento da temperatura da Terra colocarão em risco a fauna e flora das áreas naturais de todo o mundo. “O risco de perda de espécies até mesmo em ambientes protegidos é alto diante do cenário climático previsto para os próximos anos”, disse.

Segundo ele, é necessário que o debate sobre o aquecimento global se amplie e resulte em ações efetivas de prevenção à biodiversidade. “Dois graus Celsius mudam tudo e significam que a fauna e flora não estarão mais protegidas mesmo nos parques nacionais. Com relação às mudanças climáticas, a única questão previsível é que já entramos no território do imprevisível”.

Sobre a Fundação Grupo Boticário: a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é promover e realizar ações de conservação da natureza. Criada em 1990 por iniciativa do fundador de O Boticário, Miguel Krigsner, a atuação da Fundação Grupo Boticário é nacional e suas ações incluem proteção de áreas naturais, apoio a projetos de outras instituições e disseminação de conhecimento. Desde a sua criação, a Fundação Grupo Boticário já apoiou 1.439 projetos de 482 instituições em todo o Brasil. A instituição mantém duas reservas naturais, a Reserva Natural Salto Morato, na Mata Atlântica; e a Reserva Natural Serra do Tombador, no Cerrado, os dois biomas mais ameaçados do país. Outra iniciativa é um projeto pioneiro de pagamento por serviços ambientais em regiões de manancial, o Oásis. Na internet: www.fundacaogrupoboticario.org.br

 

in EcoDebate, 14/10/2015